  EDIES BESTBOLSO

  Caets
  Graciliano Ramos (1892-1953) nasceu em Quebrangulo, em Alagoas. O primeiro de dezesseis irmos de uma famlia de classe mdia do serto nordestino, o autor passou sua infncia entre Buque (PE) e Viosa (AL). Cursou o ensino mdio em Macei e, em 1910, sua famlia se estabeleceu na cidade alagoana de Palmeira dos ndios. Em 1914, mudou-se para o Rio de Janeiro a fim de trabalhar nos jornais cariocas, mas, com a morte de trs irmos, vitimados pela peste bubnica, retornou no ano seguinte a Palmeira dos ndios. Graciliano casou-se e estabeleceu-se nessa cidade, fazendo jornalismo e poltica, e chegou a ser prefeito de Palmeira dos ndios entre 1928 e 1930. Em 1925, comeou a escrever seu primeiro romance, Caets  que viria a ser publicado em 1933. Graciliano Ramos destaca-se como o principal romancista da segunda fase do Modernismo brasileiro. Sua obra se tornou uma importante vertente de nosso rico romance regionalista. Com um estilo seco, conciso e sinttico, o autor deixa de lado o sentimentalismo a favor da objetividade e clareza. Seus textos prestigiam a mensagem direta, sem rodeios. H livros de Graciliano traduzidos para o alemo, blgaro, dinamarqus, espanhol, finlands, flamengo, francs, hngaro, holands, ingls, italiano, polons, romeno, sueco, tcheco e turco.
  Em branco
  GRACILIANO RAMOS   - CAET

  LIVRO VIRA-VIRA 2
  Posfcio de GODOFREDO DE OLIVEIRA NETO
  2. edio
  Edies BestBolso
  Rio de Janeiro - 2011

  CIP-BRASIL. CATALOGAO-NA-FONTE
  SINDICATO NACIONAL DOS EDITORES DE LIVROS, RJ
  Ramos, Graciliano, 1892-1953

  R143c	Caets   Livro vira-vira 1 / Graciliano Ramos; (psfcio de Luis
  2a ed.  Bueno) -  2a edio  Rio de Janeiro: BestBolso, 2011. 

Obras publicadas juntas em sentido contrrio Com: Caets / Graciliano Ramos
ISBN 978-85-7799-293-5
1. Fico brasileira. I. Ttulo.
 CDD: 869.93
CDU: 821.134.3(81)-3
  10-4147 
  
  Caets,  de autoria de Graciliano Ramos.
  Ttulo nmero 183 das Edies BestBolso.
  Segunda edio vira-vira impressa em maio de 2011.
  Texto revisado conforme o Acordo Ortogrfico da Lngua Portuguesa.
  Copyright by herdeiros de Graciliano Ramos.
  A logomarca vira-vira (vira-vira)e o slogan 2 LIVROS EM 1 so marcas registradas e de propriedade da Editora Best Seller I.tda, parte integrante do Grupo Editorial Record.
  WWW.edicoesbestbolso.com.br
  Site oficial do autor: www.graciliano.com.br
  Design de capa: Rafael Nobre sobre foto de Darren Greenwood intitulada "Cowboy hat and rope on fence at dusk, close-up" (Getty Images).
  Nota do editor: Esta edio de bolso teve como base a edio publicada pela Editora Record em 2002, que seguiu a 3a edio do livro publicada pela Editora Jos Olympio, com as ltimas correes feitas por Graciliano Ramos. Os originais esto no Fundo Graciliano Ramos, Arquivo do Instituto de Estudos Brasileiros da Universidade de So Paulo. As obras de Graciliano Ramos reeditadas pela Record tm a superviso de Wander Melo Miranda, professor titular de Teoria da Literatura da Universidade Federal de Minas Gerais.
  Todos os direitos de traduo e adaptao reservados. Proibida a reproduo, no todo ou em parte, sem autorizao prvia por escrito da editora, sejam quais forem os meios empregados.
  Direitos exclusivos de publicao em lngua portuguesa para o Brasil em formato bolso adquiridos pelas Edies BestBolso um selo da Editora Best Seller Ltda. Rua Argentina 171  20921-380  Rio de Janeiro, RJ  Tel.: 2585-2000.
  Impresso no Brasil
  ISBN 978-85-7799-293-5

  Um  
  Adrio, arrastando a perna, tinha-se recolhido ao quarto, queixando-se de uma forte dor de cabea. Fui colocar a xcara na bandeja. E dispunha-me a sair, porque sentia acanhamento e no encontrava assunto para conversar.
  Lusa quis mostrar-me uma passagem no livro que lia. Curvou-se. No me contive e dei-lhe dois beijos no cachao. Ela ergueu-se, indignada:
   O senhor  doido? Que ousadia  essa? Eu...
  No pde continuar. Dos olhos, que deitavam fascas, saltaram lgrimas. Desesperadamente perturbado, gaguejei tremendo:
   Perdoe, minha senhora. Foi uma doidice.
    bom que se v embora, gemeu Lusa com o leno no rosto.
   Foi uma tentao, balbuciei sufocado, agarrando o chapu. Se a senhora soubesse... Trs anos nisto! O que tenho sofrido por sua causa... No volto aqui. Adeus.
  Retirei-me aniquilado. Na rua considerei com assombro a grandeza do meu atrevimento. Como fiz aquilo? Deus do cu! Lanar em tamanha perturbao uma criaturinha delicada e sensvel! Tive raiva de mim. Animal estpido e lbrico.
  E que escndalo! Naturalmente ela avisaria o marido. Adrio Teixeira com certeza ia dizer-me: "Voc, meu filho, no presta? E mandaria balancear a casa Teixeira & Irmo, onde eu era guarda-livros e interessado, para afastar-me da sociedade. O inventrio  rpido num estabelecimento que s vende aguardente, lcool e acar. Vitorino Teixeira, acavalando os culos de ouro no grosso nariz vermelho, abriria o cofre, contaria o meu saldo com lentido e, pondo o dinheiro sobre a carteira, deixaria cair, naquela voz morosa e nasal, que d arrepios, este eplogo arrasador: "Tome l, Joo Valrio, veja se confere. Ns julgvamos que o Valrio fosse homem direito. Enganamo-nos:  um traste." E eu sairia escorraado, morto de vergonha.
  Segredo que quatro pessoas sabem transpira: alguma coisa havia de propalar-se na cidade. D. Engrcia teceria mexericos; o Neves forjaria uma calnia; Nicolau Varejo narraria mentiras espantosas. Assim pensando, eu experimentava grande mal-estar, menos pelos dissabores que as chocalhices me trariam que por antever misturado a elas o nome de Lusa.
  Eu amava aquela mulher. Nunca lhe havia dito nada, porque sou tmido, mas  noite fazia-lhe sozinho confidncias apaixonadas e passava uma hora, antes de adormecer, a acarici-la mentalmente. At certo ponto isto bastava  minha natureza preguiosa.
  s quintas e aos domingos ia aos chs de Adrio. Ficvamos tempo estirado cavaqueando  e era para mim verdadeiro prazer tomar parte em duas conversaes cruzadas sobre moda e cmbio. Algumas vezes Lusa falava de contos, versos, novelas. O marido ferrava no sono. Ou ento, com enormes bocejos, l se ia claudicando, a lamentar que a enxaqueca no lhe permitisse saborear um enredo to filosfico. Ele entendia bem de comrcio; o resto era filosofia.
  Quando vinha o advogado Barroca, srio, corts, bem aprumado, a sala se animava. Tambm aparecia com frequncia o tabelio Miranda, Miranda Nazar, jogador de xadrez, com a filha, a Clementina. E o vigrio, o dr. Liberato, Isidoro Pinheiro, jornalista, pequeno proprietrio, coletor federal, tipo excelente. Lusa, ao piano, divagava por trechos de operetas; Evaristo Barroca, com os olhos no livro de msicas, tocava flauta.
  Uma estranha doura me invadia, dissipava os aborrecimentos que fervilham nesta vida pacata, vagarosamente arrastada entre o escritrio e a folha hebdomadria de padre Atansio. Os velhos mveis, as paredes altas e escuras, quadros que no se distinguiam na claridade vaga das lmpadas de abat-jour espesso, que uma rendilha pardacenta reveste, tudo me dava sossego. Fugiam-me os pensamentos e os desejos. A religiosidade de que a minha alma  capaz ali se concentrava, diante de Lusa, enquanto, entranhados nas combinaes de partidas rancorosas, Adrio grunhia impertinente e Nazar piscava os olhinhos de plpebras engelhadas, coava os quatro pelos brancos que lhe ornam o queixo agudo. Vitorino dormia. E Clementina, de cabea  banda, procurava os cantos e esfregava-se nas ombreiras das portas.
  Coitada. Nunca achou quem a quisesse. Tenho pena dela. No a tornaria a ver encolhida  sombra do piano, fascinada pelos bigodes de Evaristo, negros e densos. Nem veria as cortinas pesadas, os montes de revistas, a mesa do xadrez. Tudo perdido.
  Percorri  toa as ruas desertas, envoltas num luar bao, tentando achar tranquilidade no p e no calor de janeiro. Mais tarde, na hospedaria de d. Maria Jos, curti uma insnia atroz, rolei horas no colcho duro, ouvindo os roncos dos companheiros de casa e conjecturando o que me iriam dizer no dia seguinte os irmos Teixeira.
  Dois
  No disseram nada que se referisse ao desastroso sucesso. Logo que abri o dirio, com mo trmula, to perturbado que receei baralhar as partidas, Adrio chegou-se  minha carteira, folheou o contas-correntes, mexeu os dedos, calculando, e ordenou:
   Escreva a d. Engrcia, Joo Valrio. Saiu-me um peso do corao.
   Escreva que o que tem c em depsito est s ordens, pode mandar receber.
   E que se quiser deixar por mais um ano... atalhou Vitorino.
   No senhor, fez Adrio. Apenas isto: principal e juros  disposio dela. E d a entender na carta que no nos interessa a renovao do negcio.
   Mas interessa muito, exclamou Vitorino mostrando o caixa. O mano sabe que interessa. Olhe estas entradas.
   De acordo, concluiu o outro. Se ela mandar retirar, que no manda, oferea quinze por cento em vez dos doze que pagamos. No retire no tem em que empregar capital. Levou muito calote ultimamente, os gneros esto caros, a febre aftosa deu no gado. No retira.
  Por um instante esqueci as minhas inquietaes e admirei o tino de Adrio. No serei um comerciante nunca. Eu teria, inconsideradamente, mandado propor os quinze por cento a d. Engrcia.
  Fiz a carta com inveja. Ora ali estava aquela viva antiptica, podre de rica, morando numa casa grande como um convento, s se ocupando em ouvir missa, comungar e rezar o tero, aumentando a fortuna com avareza para a filha de Nicolau Varejo. E eu, em mangas de camisa, a estragar-me no escritrio dos Teixeira, eu, moo, que sabia metrificao, vantajosa prenda, colaborava na Semana de padre Atansio e tinha um romance comeado na gaveta.  verdade que o romance no andava, encrencado miseravelmente no segundo captulo. Em todo o caso sempre era uma tentativa.
  Quinhentos contos, seiscentos contos, nem sei, dinheiro como o diabo nas mos de uma velha intil. E a afilhada, a Marta Varejo, beata e sonsa,  que ia apanhar o cobre. Mundo muito mal-arranjado.
  Arrumei as contas no dirio, escriturei o razo, passei os lanamentos do borrador para os livros auxiliares. Pouco a pouco vieram afligir-me as preocupaes da vspera. Lusa guardara segredo. Provavelmente confessaria tudo depois. Senti uma espcie de frenesi. Quase desejei que ela falasse e os Teixeira me mandassem logo embora.
  Afinal eu no tinha culpa. To linda, branca e forte, com as mos de longos dedos bons para beijos, os olhos grandes e azuis... De Adrio Teixeira, um velhote calvo, amarelo, reumtico, encharcado de tisanas. Outra injustia da sorte. Para que servia homem to combalido, a perna trpega, cifras e combinaes de xadrez na cabea? Eu, sim, estava a calhar para marido dela, que sou desempenado, gozo sade e arranho literatura. Nova e bonita, casada com aquilo, que desgraa!
  Trs
  Passei uma semana inquieto, e na quinta-feira no tive um momento de sossego. Ao fechar o armazm, Adrio despediu-se de mim:
   At mais tarde, Joo Valrio.
  At mais tarde! Como se eu pudesse l voltar. Precisava inventar uma desculpa.
  Encontrei os companheiros de penso a jantar, sob o sorriso de d. Maria Jos, gordinha e mida.
   Uma novidade! gritou Pascoal quando desdobrei o guardanapo. A Clementina vai casar.
  Era a eterna pilhria: no se cansavam de forjar casamentos para a pobre da Clementina.
   Quem  o noivo? inquiriu o dr. Liberato erguendo os grossos vidros das suas lunetas de mope.
   No se sabe, respondeu Pascoal. Foi um esprito que deu a notcia na ltima sesso. Clementina ficou atuada...
   Ento isso continua? interveio Isidoro Pinheiro. Essas sesses tm dado gua pela barba a padre Atansio. Ainda ontem estava arengando com o Neves por causa das materializaes.
  Falaram de espiritismo, de pessoas conhecidas que se desgarravam da Igreja. Aqui e ali apareciam timidamente alguns adeptos. Na opinio do dr. Liberato, eram eles os verdadeiros crentes: tinham uma convico que faltava aos outros.
   Crentes? exclamou Pascoal. Ento o Neves  crente?
   Com certeza. No  o chefe dessa mixrdia?
   Um safado  o que ele .
   E que tem isso? fez o doutor.
  Interrompeu-se, engolindo o pigarro. Isidoro Pinheiro endireitou-se, ia decerto defender o Neves, quando Nicolau Varejo entrou na sala:
   Espiritismo?  a nica verdade que h neste mundo.  Como  que o senhor sabe? perguntaram.
   Pelos sonhos. Coisa que eu sonho  um evangelho. No falha, nunca falhou. Assim que enviuvei... Nem gosto de pensar,  um caso triste. E aqui para ns: eu me lembro da minha ltima encarnao.
   O senhor se lembra... atalhou Pascoal.
   Positivamente. Sou reservado porque h muito incrdulo, mas juro, meto a mo no fogo.
   Extraordinrio! bradou Isidoro Pinheiro, srio, oferecendo-lhe uma cadeira. O senhor era homem ou mulher?
  Nicolau Varejo olhou-o por cima dos culos de vidros rachados, sentou-se, franziu as narinas, disse em tom confidencial:
   Homem.
   Brasileiro?
   Brasileiro, carioca. Como os amigos no ignoram, lembrar-se a gente do que foi noutra vida  comum. E eu apelo aqui para o doutor.
   Certamente, confirmou o dr. Liberato. V contando.
   Pois l vai. Eu era tipgrafo no Rio de Janeiro, um bom tipgrafo, mas naquele tempo a minha vocao era para militar. Na guerra do Paraguai fui voluntrio, entrei na dana e andei pelo Sul quase at o fim da campanha. Como tinha vocao...
   Chegou a general?
   No senhor, cheguei a sargento, na batalha de S. Bartolomeu. S. Bartolomeu ou S. Bonifcio. No me recordo, uma batalha importante. Enfim cheguei a sargento. Ora, por arte do diabo, um oficial puxou questo comigo e tirou a espada para me bater no lombo. E c no meu lombo ningum bate. Matei o oficial com uma estocada, porque eu era feroz, e fugi para a Repblica Argentina. Depois larguei-me para a Europa, para a sua terra, seu Pascoal. No  na Europa a sua terra?
    isso mesmo. Continue.
   Pois eu estive l, numa cidade grande. Onde foi que o senhor nasceu?
   Em Turim.
   Turim, exatamente. Morei trinta anos em Turim e ganhei o po como tipgrafo. No h uma tipografia em Turim? Aprendi o italiano. Ainda sei algumas palavras: Marconi, macarroni, massoni... Tudo em italiano acaba com oni. Terra boa, Turim. Cada pedao de mulher!
   Morreu l? perguntou o dr. Liberato.
   No, tive saudades da ptria. Voltei quando o crime prescreveu.
  Em roda louvaram aquela memria admirvel.
   O senhor devia publicar isso, aconselhou Isidoro Pinheiro. Um furo.
   Publicar? No seria mau. A dificuldade  escrever. Ideias no me faltam, mas de gerndio no entendo. De mais onde queria voc que se fosse publicar uma histria assim? No jornal de um padre?
  Todos lamentaram que a Semana, folha catlica, no pudesse propagar aquela revelao tremenda.
   Que informaes preciosas sobre a histria do Brasilli opinou o dr. Liberato.
   Que triunfo para o espiritismo! E que baque para as outras religies! ajuntou Pascoal.
   Sem contar que a reputao do autor garantiria a veracidade do fato, acrescentou Isidoro. A sua vida... Diga a um adjetivo, doutor.
   Impoluta.
   Impoluta... v l, vida impoluta. Que idade tem o senhor, seu Varejo?
   Sessenta, meu filho. Sessenta anos na corcunda. Tenho muito janeiro.
   Como! bradou o dr. Liberato. Sessenta anos? No  possvel. Setenta com trinta... Caso o senhor tenha morrido e nascido logo que voltou da Itlia, no pode ter mais de 26. E se ainda viveu algum tempo e andou vagando no espao... No  por l que vocs andam quando morrem? Se se calcular isso direito, o senhor est morto, seu Varejo.
  Uma gargalhada estalou na sala. Nicolau Varejo, que ia pegar uma xcara de caf, deixou pender a mo suja e embatucou. Depois, ressentido:
   Ento, pelo que vejo, no acreditam.
   Acreditar? Acreditamos, afirmou o doutor. Mas sessenta anos  que o senhor no tem.
  Nicolau baixou o caro trigueiro, coberto de marcas de varola, ajeitou os culos, tomou o caf e declarou com lealdade:
   Parece que me enganei. No foi na guerra do Paraguai, foi noutra mais velha. No houve outra antes? Pois foi nessa. Tinha graa eu esquecer o que me aconteceu no exrcito! Eu at me chamava Cunha, o sargento Cunha. Est a uma prova.
  Levantou-se e saiu.
   Magnfico! exclamou Isidoro Pinheiro.
   E a filha  a herdeira mais rica da cidade se a d. Engrcia deixar a fortuna, observou o dr. Liberato.
   Deixa, asseverou Isidoro. O Miranda me disse. O Miranda sabe. Herdeira rica, sim senhor. Por que no se engata com ela, Joo Valrio?
   Obrigado, respondi. Com um pai deste! E a carolice, os bentinhos, a fita azul... Antes a Clementina.
   O pai no existe, o pai est morto, pelas contas do doutor. A pequena  da d. Engrcia, nunca viveu com ele. Bonita como o diabo. Eu, se no tivesse trinta e oito anos, um emprego to besta e um desconchavo no corao, atirava-me a ela.
  Falaram novamente na Clementina, coitada, nos ataques que a fazem morder, rasgar, despedaar. O dr. Liberato receava que aquilo acabasse em loucura.
    pena que no lhe arranjem um homem.
   Um homem? Credo! Pois o doutor queria dar um homem  moa? E isso lhe traria sade?
   Talvez trouxesse.
  Citou autores, empregou termos arrevesados e a conversa morreu com trs respeitosas inclinaes de cabea.
   Por que ser que ele inventa sempre essas histrias? murmurou Isidoro Pinheiro.
  Tirei o relgio, impaciente. Que haveria quela hora em casa de Adrio?
   Ele quem? O Nicolau?
   Sim, o sargento Cunha.
   Necessidade, explicou o doutor. Com certeza julga que os outros o tomam a srio. Em todo o caso tem muita imaginao.
  Que estariam fazendo na sala do Teixeira? Ele, com a calva brilhando sob um foco eltrico, o beio cado, a plpebra meio cerrada, os culos na ponta da venta, percorria a parte comercial dos jornais. Lusa lia um romance francs; ou tocava piano; ou pensava indignada nos beijos que lhe dei no pescoo.
   Necessidade de mentir, doutor? objetou Pascoal.
   De mentir, de matar, de beber gua, de abraar algum, de roer as unhas, tudo  necessidade.
  Puxei de novo o relgio. Sete horas. Por que no teria ela exposto ao marido o meu procedimento ruim? Compaixo. Inspirar compaixo, que misria! Levantei-me:
   Com licena, meus senhores. Boa noite. Vou deitar-me.  Deitar-se? Que diabo tem voc para dormir to cedo? exclamou Isidoro.
  Acharam-me aptico e murcho. D. Maria Jos perguntou, solcita, se as comidas me desagradavam. Maada. As comidas eram timas, respondi, mas o estmago e a cabea no me iam bem. O dr. Liberato indicou um remdio. Agradeci e recolhi-me.
  Deitei-me vestido, s escuras, diligenciei afastar aquela obsesso. Inutilmente. Ergui-me, procurei pelo tato o comutador, sentei-me  banca, tirei da gaveta o romance comeado. Li a ltima tira. Prosa chata, imensamente chata, com erros. Fazia semanas que no metia ali uma palavra. Quanta dificuldade! E eu supus concluir aquilo em seis meses. Que estupidez capacitar-me de que a construo de um livro era empreitada para mim! Iniciei a coisa depois que fiquei rfo, quando a Felcia me levou o dinheiro da herana, precisei vender a casa, vender o gado, e Adrio me empregou no escritrio como guarda-livros. Folha hoje, folha amanh, largos intervalos de embrutecimento e preguia  um captulo desde aquele tempo.
  Tambm aventurar-me a fabricar um romance histrico sem conhecer histria! Os meus caets realmente no tm verossimilhana, porque deles apenas sei que existiram, andavam nus e comiam gente. Li, na escola primria, uns carapetes interessantes no Gonalves Dias e no Alencar, mas j esqueci quase tudo. Sorria-me, entretanto, a esperana de poder transformar esse material arcaico numa brochura de cem a duzentas pginas, cheia de lorotas em bom estilo, editada no Ramalho.
  Corrigi os erros, pus um enfeite a mais na barriga de um caboclo, cortei dois advrbios  e passei meia hora com a pena suspensa. Nada. Pacincia. Quem esperou cinco anos pode esperar mais um dia. Atirei os papis  gaveta.
  Naquele momento Adrio devia estar com o Miranda Nazar defronte do tabuleiro de xadrez.
  Caciques. Que entendia eu de caciques? Melhor seria compor uma novela em que arrumasse padre Atansio, o dr. Liberato, Nicolau Varejo, o Pinheiro, d. Engrcia. Mas como achar enredo, dispor as personagens, dar-lhes vida? Decididamente no tinha habilidade para a empresa: por mais que me esforasse, s conseguiria garatujar uma narrativa embaciada e amorfa.
  De repente imaginei o morubixaba pregando dois beijos na filha do paj. Mas, refletindo, compreendi que era tolice. Um selvagem, no meu caso, no teria beijado Lusa: t-la-ia provavelmente jogado para cima do piano, com dentadas e coices, se ela se fizesse arisca. Infelizmente no sou selvagem. E ali estava, mudando a roupa com desnimo, civilizado, triste, de cuecas.
   Por que foi que ela no contou aquilo?
  Veio-me um pensamento agradvel. Talvez gostasse de mim. Era possvel. Olhei-me ao espelho. Tenho o nariz bem-feito, os olhos azuis, os dentes brancos, o cabelo louro  vantagens. Que diabo! Se ela me preferisse ao marido, no fazia mau negcio. E quando o velhote morresse, que aquele trambolho no podia durar, eu amarrava-me a ela, passava a scio da firma e engendrava filhos muito bonitos.
  Embrenhei-me numa fantasia doida por a alm, de tal sorte que em poucos minutos Adrio se finou, padre Atansio ps a estola sobre a minha mo e a de Lusa, os meninos cresceram, gordos, vermelhos, dois machos e duas fmeas.  meia-noite andvamos pelo Rio de Janeiro; os rapazes estavam na academia, tudo sabido, quase doutor; uma pequena tinha casado com um mdico, a outra com um fazendeiro  e ns amos no dia seguinte visit-las em So Paulo.
  
Um co uivava na rua; os galos entraram a cantar. O dr. Liberato pigarreava; Isidoro Pinheiro roncava o sono dos justos; esmoreciam no corredor as pisadas sutis do Pascoal e um rumor, tambm sutil, na porta do quarto de d. Maria Jos.
  Excelente criatura. Depois que enviuvou, no consta que haja conhecido outro homem. Aqui pela hospedaria passam dezenas deles. Nenhum lhe agrada. O italiano, robusto, sanguneo e de bigodes, satisfaz-lhe plenamente as necessidades do corpo e da alma. Boa mulher. Deus a conserve por muitos anos.
  Quatro	
  Entre, respondi  sem saber quem batia.
  Evaristo Barroca entreabriu a porta de manso.
   Ia sair, seu Valrio?
   No senhor, cheguei agora.
   Vinha roubar-lhe dez minutos, disse ele com uns modos excessivamente corteses, de que no gosto. Mas se sou importuno...
   Importuno? No senhor. Entre pra a.
  Retirei uma pilha de jornais da cadeira, abri a janela que d para a rua:
   Ento, que  que h?
  Evaristo avanou com gravidade, ps o chapu e a bengala sobre a mesa empoeirada, olhou com desconfiana a palha da cadeira e sentou-se, sem se recostar, com medo de sujar a roupa. Maneiras detestveis.
  Ia para seis anos que eu conhecia aquele tipo, encontrava-o quase diariamente. Horrvel. Empertigava-se para largar trivialidades abjetas, e o pior  que s muito depois de as ter dito me vinha a compreenso de que aquilo no valia nada.
   Vamos l, doutor. Que  que h? perguntei de novo.
   H isto, respondeu o visitante. Primeiramente necessito a sua opinio a respeito de um assunto que requer minucioso exame.
   Assim de importncia... ia eu interrompendo.
  Mas Evaristo continuou, aprumado, com os olhos fixos em mim, movendo lentamente, num gesto de orador, a mo bem tratada, onde um rubi punha em evidncia o seu grau de bacharel:
   Em segundo lugar venho solicitar-lhe um obsquio. 
   Perfeitamente. Vamos ver.
   O senhor se d com o Fortunato?
   O padeiro? Dou-me. O Fortunato  bom homem. Na opinio de padre Atansio...
   No, no  o padeiro. O Mesquita, o Fortunato Mesquita, prefeito. O senhor se d com ele?
   Com o prefeito? Que tenho eu com o prefeito? Isso  poltica. Eu entendo de poltica?
   O Fortunato  exemplar. Como funcionrio  um modelo; como chefe de famlia, um espelho.
  Afagou o queixo largo, ficou algum tempo em silncio, esperando o efeito daquele acar todo. Depois tornou, e foi a que percebi que ele tinha dito trs vezes a mesma coisa.
   No possui talvez inteligncia muito lcida, mas o corao  de ouro. O protetor dos pobres, absolutamente desinteressado. Sem aludir  nobre parentela...
   J sei. Ele diz que  bisneto de Matias de Albuquerque, ou tataraneto. Vamos ao resto.
   Pois sim. Pareceu-me... ( sobre isto que o consulto. Expresse-me o seu pensamento com franqueza.) Pareceu-me obra meritria demonstrar publicamente a gratido do municpio...
   Ao Mesquita? Que fez ele pelo municpio, doutor? 
  Evaristo recolheu-se um momento, disse com lentido:
   Tem feito pouco, mas sempre tem feito. E se o apoiarmos, o senhor compreende, se o estimularmos, far muito mais. Foi por isso que tracei uns artiguetes... Sim, no falo em capacidade para administrar. Deixemos isto de parte. Mas os atributos morais, pondere, os atributos morais so de fato dignos de encmio. E aqui est o favor que venho pedir-lhe.
  Meteu a mo no bolso e entregou-me uns papis:
   Eu desejava obter a publicao dos artigos no jornal do vigrio. Mas no me posso dirigir a ele. Foram intrigar-me: que sou ateu, livre-pensador  calnias.  um desaguisado que pretendo desfazer, pois nada me inspira mais respeito que o catolicismo. O papado, que instituio, o papado! Eu tenciono...
   Espere l, doutor. Elogio ao Mesquita? No convm. O Mesquita  uma besta.
   No senhor,  exagero. Antes de tudo...
   Um quartau. Quando diz sim, balana a cabea negativamente; quando diz no, afirma com a cabea. No h no mundo inteiro um sujeito mais burro. E o doutor vem cantar loas ao Mesquita? De mais a mais padre Atansio  levado do diabo...
   Por qu? No seja irrefletido nos seus julgamentos. Fale com o reverendo. Uma questo de interesse geral!
  Eu ia desculpar-me, recusar, mas o bacharel prosseguiu:
   Escrevi os artigos de um flego. Tm imperfeies, evidentemente. No me sobra tempo para cultivar a lngua verncula. A s se aproveita ideia, a forma  incorreta. Emendem. E adeus.
  Deixou-me espantado. Sim senhor. Maneira interessante de forar a gente a prestar um servio. Loquaz, amvel, espichado, sem se apoiar no encosto da cadeira  que impertinncia! At logo, adeus. Que descaramento!
  J agora, porm, era feio correr atrs dele para restituir-lhe a papelada. Desdobrei as tiras e li burrices considerveis em honra do Mesquita, recheadas de adjetivos fofos. A famlia do Mesquita, que ia entroncar na de fidalgos lusos; a caridade do Mesquita, um largo rio de benefcios inundando Palmeira dos ndios; o pedao k rua que o Mesquita andava a calar, sem pressa; a roupa branca Mesquita, o asseio do Mesquita, os banhos, as ensaboadelas, a barba escanhoada. Uma chusma de sandices.
   V l. Isto no tira nem pe. Se fosse desaforo, podia render desgosto; como  adulao, se bem no fizer, mal no faz. Sempre vou ver se padre Atansio quer publicar esta porcaria. 
  Era domingo. Eu tinha entrado em casa para escrever algumas pginas no meu romance, e a tarde voara com as sabujices daquele imbecil. Olhei o relgio: quatro horas.
  Ia aguentar um jantar em casa do Vitorino. Na ausncia de Josefa, aquilo  fnebre.
  E que negcio tinha comigo Isidoro, que me fora pela manh procurar  tipografia?
  L dentro arranjavam loua.
   Dia perdido. Vamos com esta cruz ao Vitorino. Cheguei  porta do corredor:
    d. Maria Jos, o Pinheiro est a?
   No senhor. Venha para a mesa.
   Obrigado, d. Maria. No espere por mim.
  Ao sair, refleti com espanto na insensatez que Evaristo revelava engrossando o Fortunato. Que maluco! Empenhar-se para meter na Semana aqueles rapaps indecentes.
  A rua dos Italianos estava deserta. Quando atravessei a praa da Independncia, o antigo Quadro, tambm deserto, a campainha do cinema comeou a bater. Demorei-me  esquina da padaria, vendo um cartaz encostado a um poste. De repente lei uma palmada na testa:
   O idiota sou eu. Ali h interesse, ali h cavao. Descendo pela rua Floriano Peixoto, admirei o talento do Barroca.
  Sim senhor,  um alho, pensei. Faz seis anos que aqui chegou, pobre, sado de fresco da academia, sem recomendaes, com os cotovelos no fio e os fundilhos remendados. E l vai furando, verrumando. Grande clientela, relaes com gente boa. Construiu uma casa, comprou fazenda de gado e terra com plantaes de caf, colocou dinheiro nos bancos e veste-se no melhor alfaiate da capital. Improvisa discursos com abundncia de chaves sonoros, dana admiravelmente, joga o pquer com arte, toca flauta e impinge s senhoras expresses amanteigadas que elas recebem com deleite. Tem recursos para reconciliar dois indivduos que se malquistam, ficando credor da gratido de ambos. Como advogado, sabe captar a confiana dos clientes e, o que  melhor, a confiana das partes contrrias.	
   Boa tarde, doutor.		
  Era uma prova da percia do Barroca: o administrador da 	recebedoria, que passava pela calada fronteira, macilento, com a mulher d' banda, enorme, apertada num vestido de xadrez.	
  Ofereceram a Evaristo aquele cargo de administrador. Rendimento pequeno. Agradeceu e indicou para o lugar um colega cheio de necessidades. Naturalmente ganhou com a indicao, pois os negcios lhe andaram sempre de vento em popa. E estava  bica para deputado estadual.	
   Sim senhor, disse comigo. Deputado!	
  Cinco	
  O diretor da Semana mourejava na extrao de um dos seus complicados perodos, que ningum entende. Tinha aberto o dicionrio trs vezes. Soltou o livro com desnimo, olhou de esguelha para a banca de Isidoro e perguntou-me em voz baixa:	
   Eucalipto  com i ou com y? Estou esquecido, e o dicionrio no d.	
   Eucalipto... eucalipto... respondi indeciso. Tambm no sei, padre Atansio.  Pinheiro, como  que se escreve eucalipto?
   Com p, ensinou Isidoro, solcito.
   No  isso. Ns queremos saber se  comi ou com y.
   Deve ser com i. Ou com y. Uma das duas, penso eu. O y sempre  mais bonito. Para que eucalipto?
   Para plantar na beira do aude, explicou o vigrio. Um conselho ao prefeito. Faltava um pedao da segunda pgina.
  Ajeitou a volta, abotoou a batina, passou o leno pelo rosto vermelho e suado, coou o queixo enorme, enterrado entre os ombros, que lhe chegam quase s orelhas, e atirou de chofre uma das suas falas embaralhadas:
   Pois, meninos, no foi seno isto. Quem havia de supor, hem? Estes dicionrios midos no prestam. Faltava um pedao da segunda pgina.  cavador. Parece que o eucalipto seca os pntanos. A gente abre e no encontra nunca o que procura. E d beleza. Vem o sargento: "Quarenta linhas."  cavador,  cavador.
   Quem  que  cavador, padre Atansio? inquiriu Isidoro ::m um sorriso que lhe mostrava os largos dentes brancos. 
  O diretor da Semana pregou nele os grandes bugalhos dos olhos surpreendidos, sacudiu a cabea com um gesto de nervoso e engrolou uma explicao:
   O advogado, homem, esse Barroca. Tambm voc no percebe nada. Foram os artigos, Joo Valrio, aqueles artigos.  cavador. Deputado, hem? No foi seno isto. Os artigos. Quem havia de supor?
   Eu conheci logo que ele me mostrou os originais, acudi. Aquilo no mete prego sem estopa. No lhe invejo o gosto. Tanta chaleirice, tanta baixeza, por uma cadeira na cmara de Alagoas.  um pulha. Antes ficasse aqui, explorando os matos, que fazia melhor negcio. Um idiota.
   Est enganado, retorquiu Isidoro. Tem talento. Entra deputado estadual e sai senador federal. Vai longe. Em trs anos ser para a um figuro. Quem for vivo h de ver. Inteligncia, e muita,  que ningum lhe pode negar.
    O vigrio, que mordia de leve os beios grossos, passou a mo pela testa, arrancou uma ideia:
   Talvez seja boato. No h certeza. Era conveniente dar uma notcia, mas no h certeza.
   H, fez Isidoro. Foi o Neves que me contou. O Neves est no segredo da poltica.
   Esse  outro, resmunguei. Voc se d com essa pstula? Mas Isidoro, que defende toda gente, defendeu o Neves:
   Por que, homem? O Neves,  inofensivo.
   Um canalha, um maldizente.
   Como sabe voc disso? No priva com ele?
   Nem desejo.
   Pois ento?  injustia.
   Um caluniador, um miservel.
  Isidoro Pinheiro franziu a cara, com desconsolo, e padre Atansio, que no gosta do Neves, censurou a violncia da minha linguagem:
   Leviandade, Joo Valrio. No se ofende assim uma pessoa ausente. Deixe para dizer isso a ele, se tiver razo para dizer. Razo e coragem. A ns, no.
  Interrompeu-se, gritou para a saleta da tipografia:
   Sargento, traga uma segunda prova dessa besteira.
  O tipgrafo, sargento reformado, sujo, magro, de casquete, entrou e ps sobre a mesa do reverendo duas provas muito manchadas. Padre Atansio conferiu uma com a outra, corrigiu, continuou:
   A ns, no. Sapeque logo essa trapalhada, sargento. A ns, no. Que eu lorotas de espiritismo no tolero. E o Allan Kardec...
  Concentrou-se um instante, os olhos arregalados, o beio pendente. Depois acrescentou:
  - O Allan Kardec e essa cambada, o William Crookes, o Flammarion, o Joo Licio Marques, um que apareceu agora... Como se chama ele? Que o Neves tem a lngua um bocado comprida, tem, eu reconheo. Tem, ora essa, seu Pinheiro! Tem, e o William Crookes  um parlapato. Onde foi que j se viu defunto conversando com gente viva?
  Abracei o diretor da Semana, um amigo, sem ressentimento pelo que ele me havia dito:
  - Est bem, padre Atnasio, fica o resto para outro dia. Ande l, Pinheiro, isto  quase meia-noite.
  Isidoro levantou-se, vestiu o jaqueto preto, ps o  chapu de grandes abas.
  -Esperem a, bradou o vigrio. Vamos deitar esse negcio de reencarnao em pratos limpos. Vejam vocs o Plato. Aquilo  coisa sria, ningum pode contestar. Dizem vocs...
  -No dizemos nada, padre Atansio. Boa noite.
  E deixamos o excelente eclesistico remoendo Plato.
  Andamos algum tempo em silncio, na rua mal iluminada. Para as bandas do quartel da polcia um trovador afinava o violo. No cu negro uma coruja passou alto, piando.
  -Diabo! Exclamou Isidoro, supersticioso, estremecendo. No gosto de ouvir estes amaldioados gritos. Justamente por cima da casa do Silvrio, que est de cama, esta peste voar, rasgando mortalha.
  Levantou a gola, arrepiado, baixou a voz:
  -Pensou no que lhe disse ontem?
  - Hem? No me lembro.  o emprstimo?
  Tnhamos chegado ao fim da rua de Baixo, estvamos em frente s balaustradas do paredo do aude. Tomamos pela direita, deixamos atrs a pracinha.
  -No, no  o emprstimo. Que horas so?
  Consultou o relgio da usina eltrica:
  - S onze? Julguei que fosse mais tarde. Vamos para diante, quebrar as pernas pelos buracos do Pernambuco-Novo.
  Olhei a frontaria da casa de Adrio, fechada. Hesitei receoso.  No h ningum, tudo deserto. Vamos dar um passeio, insinuou Isidoro.
  Penetramos cautelosamente no Pernambuco-Novo, o bairro das meretrizes.
   No era ao emprstimo que eu me referia. Mas j que tocamos nisto, voc falou aos homens? 
   Esqueci, Pinheiro, respondi com acanhamento. Falo amanh. Que nem sei se eles podero. Muitas obrigaes a pagar... Talvez no aceitem.
   E a hipoteca do stio, criatura? Uma propriedade que me est em mais de cinco contos! Afinal se no fizer com eles, fao com outro.
  Era um emprstimo que desejava contrair com os Teixeira, por meu intermdio, operao regular, com efeito; mas Teixeira & Irmo no tinham fundos suficientes para dedicar-se  agiotagem.
   Fao com outro, prosseguiu Isidoro, invisvel nas trevas da rua. Fao com o banco, fao com o Monteiro.  um usurrio, um ladro, esfola a gente com juro de judeu, mas no recusa nunca, tem sempre dinheiro,  um excelente velho. E no recebo favor. Que diabo! Para uma transao de um conto e quinhentos garantia de cinco contos!
  Calou-se, amuado. Acendeu um cigarro. E,  luz do fsforo, surgiram  direita caladas altas e desiguais.  esquerda, entre sombras confusas de arvoredos, a mancha negra do aude avultava. Formas vagas, cheiro de aguardente, injrias obscenas, sons de pfano.
  Subimos o alto dos Bodes. Isidoro Pinheiro deitou fora a ponta do cigarro, deu um trambolho, agarrou-me um brao e berrou:
   Que lembrana a sua de vir passear, com uma noite assim, neste inferno!
  Depois, calmo, j perto da igreja do Rosrio, na indecisa claridade que vinha da rua de Cima:
   Boa caminhada, sim senhor, isto por aqui  pitoresco. Que fim ter levado a Maria do Carmo? Gosto dela. Se no fosse to descarada... Enfim cada qual como Deus o fez, que a gente no  rapadura, para sair tudo igual. Voc viu esse anjo?
  Torceu o caminho para no perturbar um noivado de ces. Entramos no Quadro. Eu no tinha visto anjo nenhum. E que ire queria dizer o amigo Pinheiro l embaixo? O amigo Pinheiro no se recordava.
   Foi o emprstimo que me esquentou o sangue. No admito que desconfiem de mim. Acabou-se, vou falar com o Monteiro.
  Estacou:
   Ah! sim! a histria de ontem, esse infeliz que anda morrendo de fome.
   O sapateiro?
   O sapateiro. Vive quase nu, uma indecncia. E imundo que faz nojo. Uma penca de filhos! Vamos ver se ajudamos esse desgraado, que tem vergonha de pedir esmolas. A mulher tsica, no catre, lanando sangue, homem!
  Ps-se a caminhar, triste. De repente apontou a casa de d. Engrcia, grande como um convento, defronte do armazm dos Teixeira:
   E se voc casasse com a Marta?
  Casar com a Marta? Recuei, desconfiado:
   Que interesse tem voc nisso, Pinheiro?
   Interesse? Nenhum. Mas acho...
   O que no compreendo  essa preocupao de me querer amarrar  fora. J me deu trs vezes o mesmo conselho.
    que desejo a sua felicidade, rapaz.
   E quem lhe disse que eu seria feliz casando com ela?
   Quem me disse? E por que no seria? A pequena  bonita, bem-educada, toca piano, esteve no colgio das freiras. Onde se vai achar outra em melhores condies? Se aquela no lhe agrada. s mandando fazer uma de encomenda.
    Interrompeu-se, bateu-me no ombro, exclamou com admirao e energia, quase engasgado:
   Olhe aquilo, veja que prdio. Vale vinte contos. Pedra e madeira de lei. E terras, cada zebu de trinta arrobas, libra esterlina por desgraa, fortuna grossa, meu filho, e tudo da Marta, que o Miranda me contou. Atraque-se com a moa.
  No contive o riso. Estava ele certo de que a Marta Varejo aceitava o arranjo?
   Por que no? Que diabo pode ela querer mais? Voc  bem-apessoado, tem boas relaes, sabe escriturao mercantil e um bocado de aritmtica. Oh! demnio! L se apagou a luz.
  Chegamos  rua dos Italianos. A porta da penso, quando ia introduzir a chave na fechadura, ouvi rumor l dentro. E Isidoro Pinheiro soprou-me ao ouvido:
   Espere a, no abra agora.
   Que ?
   O Pascoal que vai entrar no quarto de d. Maria.  bom demorar um pouco.
  Seis
  No escritrio dos Teixeira, passando para o razo os diversos a diversos em bonita letra apurada, pensei naquela insistncia de Isidoro.
   um oficio que se presta s divagaes do esprito, este meu. Enquanto se vo acumulando cifras  direita, cifras  esquerda, e se enche a pgina de linhas horizontais e oblquas, a imaginao foge dali. Organizar partidas e escrever a correspondncia comercial so coisas que a gente faz brincando. E para molhar o papel de seda, enxug-lo, pr a fatura ao lado, apertar o livro na prensa no  necessrio esforo de pensamento. Dedicava-me s minhas ocupaes singelas  e as ideias esvoaavam em redor de Marta Varejo. 
  Realmente no era feia, com aquele rostinho moreno, grandes olhos pretos, boca vermelha de beios carnudos, cabelos tenebrosos, mos de mulher que vive a rezar. E alta, airosa, simptica, sim senhor, tima fmea. Se ela me quisesse, eu no tinha razo para considerar-me infeliz. 
  Queria. Na segunda-feira do carnaval, defronte do cinema, fora muito amvel comigo. Olhadelas, sorrisos, um provrbio embaraado, em francs. Aquilo prometia. Estava acabado, ia atirar-me a ela, como diz o Pinheiro. E se a d. Engrcia lhe deixasse a fortuna, bom casamento, negcio magnfico. No que me preocupe exclusivamente com o dinheiro, pois se Marta fosse vesga e coxa, no a aceitaria por preo nenhum. Mas era bonita, e os bens da viva davam-lhe encantos que a princpio eu no tinha descoberto.
  Tocava piano. Naquele momento reconheci no piano um caminho seguro para a perfeio. Falava francs. No havia certamente exerccio mais honesto que falar francs, lngua admirvel. Fazia flores de parafina. Compreendi que as flores de parafina eram na realidade os nicos objetos teis. O resto no valia nada.
  No seria difcil travar na igreja um namoro com ela, na missa das sete, e mandar-lhe, por intermdio de Casimira, umas cartas cheias de inflamaes alambicadas, versos de Olavo Bilac e frases estrangeiras, dessas que vm nas folhas cor-de-rosa do pequeno Larousse. Talvez, com algum trabalho, conseguisse completar para ela um soneto que andei compondo aos quinze anos e que teria sado bom se no emperrasse no fim. Depois obteria umas entrevistas  noite,  janela, e, conversa puxa conversa, pregava-lhe, ao cabo de uma semana, meia dzia de beijos. Ficvamos noivos, casvamos, d. Engrcia morria. Imaginei-me proprietrio, vendendo tudo, arredondando a uns quinhentos contos, indo viver no Rio de Janeiro com Marta, entre romances franceses, papis de msica e flores de parafina. Onde iria morar? Na Tijuca, em Santa Teresa, ou em Copacabana, um dos bairros que vi nos jornais. Eu seria um marido exemplar e Marta uma companheira deliciosa, dessas fabricadas por poetas solteiros. Atribu-lhe os filhos destinados a Lusa, quatro diabretes fortes e espertos. Suprimi radicalmente Nicolau Varejo, ser intil.
  Achava-me em pleno sonho, num camarote do Municipal, quando Adrio se abeirou da carteira:
   Diga-me c, por que foi que voc no apareceu mais l em casa?
  Abandonei a representao e voltei  realidade, com um n na garganta. Vascolejei o crebro  cata de uma resposta.
   Vamos ver, continuou Adrio. Detesto mistrios. Fizeram-lhe alguma grosseria por l? Se fizeram...
   No senhor, no fizeram. No fazem. Que  que haviam de fazer?
   Ento que sumio foi esse? Eu perguntei  Lusa. No sabe, ningum sabe. Voc gostava de conversar com ela essas embrulhadas.	
  Procurei mostrar-me tranquilo:
   Sempre me distinguiram com amabilidades que no mereo.
   Lambanas, homem. Deixe-se disso, fale direito, atalhou Adrio.
   Justamente. O senhor compreende, eu gosto de escrevinhar. Assim de noite, quando a gente no tem sono...
   J sei, j sei. Essas filosofias so prejudiciais.  o padre Atansio que lhe anda metendo bobagens no quengo.
   De mais a mais a minha presena no serve de nada. Com franqueza...
   Ora! ora! ora! Vai para cinco anos que voc est c na casa, e s agora pensou nisso. Mas eu hei de decifrar essa charada. E diga ao dr. Liberato que mude aquela receita. No pude dormir ontem, com uma dor de cabea dos pecados. Uma peste.
 
etirou-se claudicando, a amaldioar os mdicos. Fiquei atordoado, perguntando ansiosamente ao cofre,  prensa, ao copiador,  mquina de escrever, como me sairia de semelhante dificuldade. Adrio Teixeira queria descobrir o motivo do meu afastamento. Se ele apertasse com Luisa, era possvel que ela se aborrecesse e contasse que lhe tinha dado dois beijos no pescoo. Marta, o soneto e os quinhentos contos de d. Engrcia num instante se evaporaram.
  Resignei-me a ir domingo ao casaro dos Italianos. Uma impertinncia, mas calculei que poderia, finda a atrapalhao do primeiro momento, esgueirar-me para a varanda e esconder-me por detrs das cortinas. Talvez Luisa nem reparasse em mim. Excelente corao. Outra qualquer teria feito da minha tolice um cavalo de batalha  e desmantelava-se este honesto rapaz que arranca um po inspido s folhas das costaneiras; ela no: provavelmente julgara aquilo uma ligeira ousadia que apenas lhe tocara a epiderme, Blindada contra os sentimentos de um miservel Joo Valrio, com certeza erguera os ombros: Deix-lo, Pobre-diabo.
  Sentia-me terrivelmente perturbado. Tanto que, durante o jantar, nem dei ateno a duas perguntas de Isidoro. O dr. Liberato ajeitou as lunetas, tossiu, disse com impacincia:
  -Mexa-se, homem. Que tem voc?
  - Eu? No tenho nada, no houve nada, no me fizeram nada.
  Compreendi o disparate e emendei:
  - Estava distrado. Uns clculos. E por falar em clculos, doutor, l o patro mandou pedir outra receita. Anda  com a cabea doendo. A cabea, a bexiga e as pernas.
  Exploraram o Teixeira.
  - Qual  a doena dele? Perguntou Isidoro, inquieto. Quando ouve qualquer referncia a enfermidades, murcha e apalpa o corao.
   Um bando de vsceras escangalhadas, explicou o dr. Liberato. Vida sedentria, poucas precaues... 
  - Temos viva, interrompeu o Pascoal. Quanto tempo durar ele ainda? Liquidado. Qual  a fortuna, Joo Valrio?
  Ningum respondeu. Isidoro apalpou novamente o corao, e d. Maria Jos referiu o caso medonho de uma preta que morrera queimada na semana anterior. Espalhou-se pela mesa uma sombra de morte. Baixei a cabea, com pena da negra. O dr. Liberato interrogou d. Maria com exagerado interesse, pedindo minudncias, o que me trouxe aborrecimento e nojo. O italiano, que  robusto, tomava caf e sorria.
  A mulher tinha perdido no fogo os braos e as pernas, e do nariz corria um grude esverdeado.
  -  d. Maria, exclamou o Pinheiro, repelindo a xcara e fazendo uma careta, para que vem contar essas histrias? 
   Levantou-se, desesperado. Eu e Pascoal levantamo-nos tambm. Samos a passear pela rua.
  - Preciso ver a Maria do Carmo, grunhiu Isidoro.
   Entramos na farmcia do Neves. Encostado  grade, um sujeito escondia no leno manchado de pus o rosto meio comido por uma chaga. Fugimos. O italiano ps-se a cantarolar entre dentes coisas aflitivas com mamma e tara repetidas muitas vezes.
  s nove horas estvamos na redao da Semana. No encontramos padre Atansio.
  - Foi confessar mestre Simo, que deu uma queda do andaime e vomitou sangue, informou o sargento. Os senhores querem escrever a noticia?
  No quisemos. Ficamos sentados, carrancudos.
  - Com os demnios! bradou Isidoro, erguendo-se. Isto por aqui est fnebre. 
  Subimos a rua do Melo. L para o caminho da Ribeira ouvimos rumor de vozes. Aproximamo-nos. Eram cantos, rezas, choros, ladainhas  uma sentinela de defuntos. 
  - Vamos ver, convidou Pascoal, interessado. A gente s vezes acha nas sentinelas muito boas mulheres. Vamos ver. Talvez esteja. l a Maria do Carmo. 
   Ora plulas! berrou Isidoro, furioso. Antes ir passear no cemitrio.
  Sete  
  Sbado pela manh Evaristo Barroca partiu para a capital. Ia furar, cavar, politicar. Depois que sara deputado, andava sempre por l, farejando. Bem diz o Pinheiro, aquele vai longe. Ao meio-dia Clementina teve um ataque, meteu as unhas na cara do pai, fez um alarido que atraiu os vizinhos, bateu com a cabea nas paredes, gritou, espumou, ficou estatelada na cama. De sorte que no domingo era provvel haver poucas pessoas em casa de Adrio.
  Como me sentisse inquieto, resolvi distrair-me aproveitando parte da noite a trabalhar no meu romance. Fui  sala de jantar:
    d. Maria, d-me uma xcara de caf, por favor.
  Bebi o caf, tranquei-me no quarto, tirei o manuscrito da gaveta:
   Vamos a isto.
  E descrevi um cemitrio indgena, que havia imaginado no escritrio, enquanto Vitorino folheava o caixa. 
  Desviando-me de pormenores comprometedores, constru uma cerca de troncos, enterrei aqui e ali camucins com esqueletos, espetei em estacas um nmero razovel de caveiras e, prudentemente, dei a descrio por terminada. Julgo que no me afastei muito da verdade. Vi coisa parecida quando os trabalhadores da estrada de ferro encontraram no caminho do Tanque uns vasos que rebentaram. Havia dentro ossos esfarelados, cachimbos, pontas de frechas e pedras talhadas  feio de meia-lua. O meu fito realmente era empregar uma palavra de grande efeito: tibicoara. Se algum me lesse, pensaria talvez que entendo de tupi, e isto me seria agradvel.
  
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   Est muito ocupado, seu Valrio?
  Abotoei a camisa, vesti um jaqueto e fui abrir:
   No, d. Maria Jos. Ora essa!
  Ela entrou de manso, com uns modos acanhados, acercou-se da mesa, os olhos baixos.
   Alguma novidade, d. Maria?
    que... O senhor poder tirar-me de um aperto? No falei l dentro porque tive vergonha. J lhe devo tantas obrigaes...
  Ora sebo!
   Vergonha? E por qu? No h razo, fiz eu com um sorriso amarelo, esperando o golpe.
   Tenho preciso de cento e cinquenta mil-ris. Venho importun-lo ainda. 
   Cento e cinquenta mil-ris, d. Maria? Agora  impossvel, e amanh no se abre o armazm. S l para segunda-feira. 
   Eu queria hoje.  at o ms vindouro.
   Perfeitamente. Mas onde vou buscar? Talvez na segunda-feira... E nem sei se poderei arranjar. Tenho quarenta. Servem-lhe quarenta?
  Ela aceitou, com um gesto de resignao desalentada. Retirei a Bblia da gaveta e procurei dinheiro entre as pginas do Eclesiastes, que  o meu cofre.
   Muito agradecida, suspirou d. Maria, recebendo as duas notas, meio desapontada.  por pouco tempo.
   No se preocupe, respondi acompanhando-a. Se no puder pagar, fica a como adiantamento, no tem dvida.
  Voltei ao trabalho interrompido. No pagava. J me devia mais de quinhentos mil-ris, devia tambm ao dr. Liberato e ao Pinheiro. Ns sabamos que aquilo era para o italiano, que vive a engan-la, vai aos bordis do Pernambuco-Novo, mas no tinha-nos coragem de recusar. To boa, to amvel! Era pena que tivesse aquela desgraada ligao com um traste como o Pascoal.
  Embrenhei-me novamente nas selvas. Li a ltima tira e balancei a cabea, desgostoso. Catei algumas expresses infelizes e introduzi na floresta, batida pelo vento, uma quantidade considervel de pssaros a cantar, macacos e saguis em dana acrobtica pelos ramos, cutias ariscas espreitando  beira da caiara. Mais isto veio espremido e rebuscado. Tudo culpa do Pascoal.
  De mais a mais a dificuldade era grande, as ideias minguadas recalcitravam, agora que eu ia tentar descrever a impresso produzida no rude esprito da minha gente pelo galeo de d. Pero Sardinha. Em todo o caso apinhei os ndios em alvoroo no cenho da ocara, aterrorizados, gritando por Tup, e afoguei um bando de marujos portugueses. Mas no os achei bem afogados, nem achei a bulha dos caets suficientemente desenvolvida.
  Com a pena irresoluta, muito tempo contemplei destroos flutuantes. Eu tinha confiado naquele naufrgio, idealizara um grande naufrgio cheio de adjetivos enrgicos, e por fim me aparecia um pequenino naufrgio inexpressivo, um naufrgio reles. E curto: dezoito linhas de letra espichada, com emendas. Pr no meu livro um navio que se afunda! Tolice. Onde vi eu um galeo? E quem me disse que era galeo? Talvez fosse uma caravela. Ou um bergantim. Melhor teria feito se houvesse arrumado os caets no interior do pas e deixado a embarcao escangalhar-se como Deus quisesse.
  E no sei onde se deu o desastre. Para os lados de S. Miguel de Campos, ou Coruripe da Praia, por a. Talvez o dr. Liberato soubesse. Levantei-me, bati  porta do quarto dele. Ningum. Atravessei o corredor, despertei d. Maria Jos, que dormitava encostada  mesa da sala de jantar:
    d. Maria, que  do dr. Liberato?
  Tinha ido  casa do Mendona, que era dia de anos de d. Eullia.
  - E o Pinheiro? O Pinheiro tambm foi?
    O Pinheiro tambm tinha ido. Que diabo! Fugirem todos,  justamente na ocasio em que eram necessrios! Lembrei-me de padre Atansio. Dez horas. Bem, devia estar acordado, decidi consult-lo. Voltei ao quarto, mudei a roupa e sa, satisfeito por ter achado um pretexto para abandonar aquela estopada.
  Na redao da Semana encontrei o reverendo sentado  banca, s, pregando um boto na batina.
  -  padre Atansio, diga-me c. O senhor conhece Coruripe da Praia?
  - Conheo.  uma boa cidade. Muito sal, muito coqueiro. E ento o povo... Voc tem algum negcio em Coruripe da  Praia?
   No,  outra coisa, a novela que estou escrevendo, o romance dos ndios. Preciso dos baixios de d. Rodrigo. O senhor conhece os baixios de d. Rodrigo?
  - No. Onde fica isso?
  - Era o que eu queria saber. Fica por essas bandas, em Coruripe, em S. Miguel, no sei onde. O senhor nunca ouviu falar? Vem na histria. Coruripe... Julgo que foi em Coruripe que mataram o bispo.
  Padre Atansio soltou a agulha, assombrado, e esbugalhou os olhos:
  - O bispo? que bispo?
  - O Sardinha, padre Atansio. Aquele dos caets, um sujeito clebre. O d. Pero. Vem nos livros.
  O diretor da Semana retomou a agulha, a linha e o boto: 
  - Ah! sim! Pensei que fosse o d. lonas. Ou o d. Santino. Que susto! O d. Pero... Nem me lembrava.
  Oito
  Domingo  noite fui  casa do Teixeira. Quando Zacarias abriu o porto, havia rumor l em cima. Atravessei o jardim, subi a escada, cheguei  sala, aturdido.
   Ora sim senhor, disse-me Adrio. Veio arrastado, mas veio. 
  Lusa acolheu-me como se me tivesse visto na vspera. Cumprimentei, com as orelhas em brasa, Vitorino, padre Atansio, Miranda Nazar. Vi Clementina escondida entre o piano e a parede. Balbuciando, pedi informaes sobre a sade dela.
  No ia bem.
  Sim? Pois no parecia. Tanta vivacidade, to boas cores... Ela atirou-me um olhar de agradecimento e encolheu-se. Eu ia encolher-me tambm, por detrs das cortinas, mas Adrio se levantou, convidou:
   Vamos para a mesa.
  Entramos. Pelo corredor o vigrio prosseguiu numa arenga interrompida com a minha chegada. Era acerca dos nomes esquisitos que agora do s crianas. Ao sentar-se, estava indignado:
   Palavras estrangeiras. Vocs j viram? Pronncia errada. Eu reclamo: "Besteira, homem! Ambrsia Guilherme, Ricardo, isto  que . No querem. Extravagncias. De Jernimo e Amlia fazem Jerlia. Vocs j viram?
    Serviu-se o ch. E todos asseguramos que aquilo efetivamente era atroz.
   Est claro. Eu s vezes me zango: "Gregrio, ponham-lhe Gregrio, pelo amor de Deus." No querem.
  Calou-se.
   Por que no tem aparecido ultimamente, Joo Valrio?
  Num sobressalto, larguei a torrada, ergui os olhos ansiosos para o outro lado da mesa, tornei a baix-los, perturbado, e gaguejei:
   Nem sei, minha senhora. Por a,  toa... Ocupaes.
   Vi ontem, disse Vitorino, duas figurinhas do Cassiano aleijado: um mendigo com a sacola e um S. Miguel com balana. Muito bonitas.
  Mas Nazar interrompeu-o. No se capacitava de que os trabalhos do aleijado prestassem:
   Um ignorante, um analfabeto.
   S por isso? murmurou Lusa, que protege o Cassiano. 
   Naturalmente. Ele no aprendeu escultura.
   Eu achei as figurinhas engraadas, arriscou Vitorino. E quanto a no saber ler...
   Quem  bom j nasce feito, apoiou o reverendo. Vejam o Miguel ngelo. Agora mesmo, no livro de um francs... 
  Investiu contra Nazar:
   E Tubalcaim, homem, e Jubal, No, essa gente da Bblia? Quem ensinou o No a fabricar vinho? Ora, o livro do francs... E a torre de Babel, a embrulhada das lnguas? So fatos, esto nas escrituras.
   Que diz o livro? perguntou Adrio.
   Diz muito, respondeu o diretor da Semana.  de um francs extraordinariamente instrudo. Sabe tudo. Aquelas embromaes do Laplace. Nebulosas, potocas. Porque o Gnese... Enfim uma sabedoria imensa. Trata do sol, da lua, das estrelas, de uns bichos brabos que existiram antigamente. Dinossauros, seu Miranda?  isso mesmo. E outros: megatrios, gliptodontes. Um monumento.
  - Mas afinal, objetou Nazar, que relao tem isso com os bonecos do aleijado?
  - Relao? fez o vigrio, espantado. Ora essa! Tem relao. Eu ainda no acabei.
  Coou a testa, aflito, tentando recordar-se. De repente, com uma alegria infantil:
  Ah! sim. E que h no livro umas estatuetas desenterradas l por onde Judas perdeu as botas, uns bises que tm muitos milhares de anos. timos.
  O dr. Liberato afirma que as imagens do Cassiano tambm so timas, observei eu.
  O dr. Liberato? inquiriu Adrio com azedume. Que entende disso o dr. Liberato?
  - Que entende? Deve entender. No  mdico? Se as imagens estivessem erradas, ele sabia.
   Pois era melhor que entendesse de medicina, replicou Adrio, descontente. Ainda no me deu uma receita que prestasse.
  E com o beio cado, cheio de amargura, grande murchido no rosto enxofrado, mastigou improprios em voz baixa. Em redor informaram-se do estado dele, com solicitude. No melhorava. Uma peste. Referiu achaques complicados e deteve-se numa dorzinha renitente que se alojara debaixo da ltima costela esquerda. Houve um silncio compungido. 
  E eu pensei que o conhecimento daqueles pequeninos bises de terracota afeioados pelos dedos rudes de um brbaro, h milnios, numa caverna lbrega entre penhascos, era para mim aquisio preciosa. Talvez eu pudesse tambm, com exgua cincia e aturado esforo, chegar um dia a alinhavar os meus caets. No que esperasse embasbacar os povos do futuro. Oh! no! As minhas ambies so modestas. Contentava-me um triunfo caseiro e transitrio, que impressionasse Lusa, Marta Varejo, os Mendona, Evaristo Barroca. Desejava que nas barbearias, no cinema, na farmcia Neves, no caf Bacurau, dissessem: "Ento j leram o romance do Valrio?" Ou que, na redao da Semana, em discusses entre Isidoro e padre Atansio, a minha autoridade fosse invocada: "Isto de selvagens e histrias velhas  com o Valrio."
   Que h de novo sobre Manuel Tavares? perguntou Adrio depois de um longo suspiro. Parece que est provado que foi ele, hem?
   Provadssimo, confirmou Nazar. Vo ver que ainda desta vez o jri manda para a rua aquele bandido. 
  E pormenorizou a novidade de resistncia: um sujeito assassinado enquanto dormia, enterrado num quintal, exumado depois de um ano, por acaso.
   Que a polcia nunca teve inteno de prender Manuel Tavares. A polcia no tem inteno. Foi um parceiro do assassino que brigou com ele e veio denunci-lo. O mvel do crime? Vinte mil-ris falsos e uma roupa de mescla. Tem a o padre Atansio matria para escangalhar no seu jornal a polcia, Manuel Tavares e o conselho de sentena que o absolver.
   Se absolver, resmungou o vigrio. Um caso to monstruoso... 
   Absolve, no h dvida. Est na rua,  protegido do Evaristo. E que me dizem desses artigos que esto saindo na Gazeta contra o Mesquita?
   Terrveis! exclamou Vitorino. Toda a sorte de ridculos. Afinal o pobre homem no tem culpa de ser estpido, se  estpido. Levantamo-nos. E amos chegando  sala quando a campainha retiniu e pouco depois soaram na antecmara os passos apressados do dr. Liberato. Entrou, distribuiu apertos de mo, recusou o ch que Zacarias lhe trouxe, quis saber da preciosa sade dos seus bons amigos. Apoderou-se do tabelio e dissertou abundantemente. A chegada de Isidoro interrompeu, mui to a propsito, a amolao dele. 
  O Pinheiro trazia um jornal enrolado:
   Leram?
  Todos tinham lido, menos as senhoras.
   Tremendo! opinou Adrio.
   Horroroso! acrescentou Vitorino. Estvamos falando nisso quando o doutor chegou. E eu dizia que o Fortunato no tem culpa...
   Esplndido! atalhou Nazar erguendo os ombros, o que lhe aumentava a corcunda. Soberbo!
   Voc  inimigo do Mesquita? perguntou Isidoro.
   No, no sou inimigo de ningum. Mas gosto daquela maneira de achincalhar um tipo. A famlia do Mesquita... Magnfico! Heris que lutaram com os holandeses! A generosidade do Mesquita... Impagvel! Empresta cinco tostes a juro de cento por cento e espalha que fez favor. E as camisas do Mesquita, os colarinhos do Mesquita, a navalha de barba do Mesquita...
  Como Lusa e Clementina estivessem afastadas, dirigiu-se ao dr Liberato e ao Pinheiro, baixando a voz:
    - A navalha de barba... Repararam? Uma brincadeira safada. Perceberam? Uma pilhria de arrancar couro e cabelo. 
  - Voc no tem corao, exclamou Isidoro.
   Eu? retorquiu Nazar alegremente. Tenho um corao razovel. Agora viver lamentando os males do vizinho, no, principalmente se o vizinho  tolo. E os artigos esto bons. Muito progrediu ele depois que publicou os outros.
  - Os outros? Ento o senhor conhece o autor dos artigos? estranhou o mdico.
  - Conheo.
  - Quem ? interrogamos todos, excitados.
  Nazar estudou as caras em roda, com pachorra: 
  - No sabem?
  - No.
  - Nem suspeitam?
  - Suspeitar o qu! bradou Vitorino. No h suspeita. Provavelmente aquilo  da redao: algum dinheiro que o Fortunato recusou ao Brito.
   O Brito? Qual Brito! O Brito, coitado, meteu aquilo na Gazeta, mas nem leu.
   Quem foi? gritou padre Atansio j com raiva. Se no queria dizer, no comeasse.
  E eu no ia dizer, resistiu Nazar.  segredo. Enfim, como os senhores insistem e estou aqui entre amigos... foi o Evaristo. 
  Houve um momento de estupefao. Em seguida atacamos o Miranda: 
   No  possvel! 
   Absurdo! 
   Que lembrana!
   Foi ele, murmurou Nazar sem se alterar. Juro por todos os santos...
   No jure em vo, homem, retrucou padre Atansio. O Barroca fez elogios daquele tamanho ao Mesquita.
   Perfeitamente, concordou Nazar. Mas foi ele. Lambeu os ps do Mesquita e chegou a deputado. Hoje procura derrub-lo. Derruba.
   Tem certeza? indagou Isidoro.
   Como tenho certeza de que dois e dois so quatro, como tenho certeza de que o som diminui  medida que a distncia... 
   Deixe l o som, deixe a distncia, atalhou Adrio. O que nos interessa  o Barroca. Se foi ele,  um miservel.
   Nem por isso. No precisa mais do outro.
   Talvez o senhor se engane, aventurou o mdico.
   Qual nada! O Mesquita est no cho. No dou trs vintns por ele. Se o Evaristo visse que no o deitava abaixo, no escrevia aquilo. 
  Calamo-nos impressionados, menos pelas palavras de Nazar que pela maneira como ele as dizia. Vendo-lhe a cabecinha calva, os olhos inquietos, brilhando como contas de vidro, a ponta da lngua a remexer-se, umedecendo os beios delgados, recuei instintivamente, como se ele me pudesse morder.
  Fugi para a varanda. Veio do piano um tango arrastado. Acendi um cigarro. As notas diluam-se no barulho da usina eltrica.
  Na calada do armazm fronteiro duas mulheres iam e vinham;  direita vultos esquivos esgueiravam-se para o Pernambuco-Novo;  esquerda um automvel rodava silencioso; em frente, alm da estrada da Lagoa, negra quela hora, tremiam ao longe pequeninos pontos luminosos. 
  Voltei-me. Tornava a contemplar Lusa, oculto por detrs das cortinas, enlevado, enquanto l dentro as conversaes zumbiam.
   Joguem uma partida de xadrez, pediu o dr. Liberato. Vamos apreciar isso.
  Adrio sentou-se  mesa pequena, sob o lustre, e comeou a dispor as peas no tabuleiro; Nazar, defronte dele, estendeu-lhe as mos fechadas, a sortear as cores:
   Peo de dama, hem?
  L estava, grande e loura, correndo os dedos pelo teclado, indiferente e esquecida, como se, em vez de me achar ali, trincando um cigarro, eu me conservasse arredio, num quarto de penso, compondo crnicas para a Semana ou sonhando com o bergantim de d. Pero. Via-a  e os desejos acordavam. 
  Nazar e Adrio volviam as peas com rancor. O dr. Liberato seguia os lances da partida sem interesse. Padre Atansio e Isidoro cochichavam. Vitorino dormia.
  Agora no era tango, era mazurca. Se Lusa me amasse, eu daria por ela de bom grado um milheiro de Martas, um milho de Clementinas.
   Essa  boa! gritou Adrio. Dois bispos nas linhas brancas! 
    verdade. Que descuido! exclamou Nazar tentando justificar-se.
  E houve em redor do tabuleiro um debate medonho. Aproximei-me, afetei uma curiosidade desenxabida: 
   Ento? Dois bispos?
   Em casas brancas! trovejou Adrio. Viu que ia perder e tirou um bispo do lugar.
  Nazar, sem se ofender, alvitrou que se reconstitusse o jogo.
   No  possvel. Quem sabe l em que ponto foi isso? 
   Um engano.
   Que engano! Voc  cego?
  Deram a partida como nula, iniciaram outra. E logo no princpio Adrio, irritado, deixou sem defesa um peo do centro, perdeu-o, moveu a dama expondo o rei a xeque de cavalo antes de rocar e soltou uma praga.
    Pinheiro, recite uma poesia, pediu Vitorino, bocejando. 
  Isidoro desculpou-se, estava rouco.
  Lusa interrompeu a mazurca e quis ouvir Clementina. Todos aplaudiram, menos Adrio, que rosnava, e Nazar, que amiudava os xeques. Mas Clementina relutava, debatia-se, enroscava-se. Enfim cedeu. Encostada ao piano, plida, sussurrou uma cantiga lamuriante. Foi at o fim sem um gesto, e logo que terminou, j alheia ao compasso, voltou a sentar-se, agradeceu com os olhos midos as palmas que lhe demos e enroscou-se mais.
  Eram dez horas. Zacarias entrou com uma bandeja. Adrio, que s tinha duas peas grandes, levantou-se furioso:
   Abandono. Vamos ao caf. Dama e torre. Mate de torre e dama. No passa da.
   Temos ento o homem definitivamente grudado a Palmeira, hem Miranda? perguntou Vitorino recebendo a xcara 
   Quem?
   O Barroca. Se  verdade o que voc pensa, naturalmente h de rebentar por aqui qualquer dia, desmantelar esta geringona, fazer de novo. Agarra-se como sanguessuga. Eu s tenho pena do pobre do Xavier.
   Aqui  que ele no fica, disse Nazar. Vem, toma conta das posies, coloca os amigos, deixa um testa de ferro, o Cesrio ou o administrador, dirigindo a entrosa e volta. Depois aparece, d uma vista s propriedades, ao gado, aos eleitores e torna a voltar. No fica. Aquilo  ambicioso, trepa. E se os senhores tiverem alguma pretenso, peguem-se com ele. Aceitem o meu conselho: peguem-se com ele.
  Estava satisfeito com a queda do Mesquita e desesperado com a vitria do Barroca. Falava cortando as palavras, constrangido: o xito dos outros acabrunha-o.
  Nove
  Voltei. s quintas e aos domingos l ia encontrar os mesmos Indivduos discutindo os pequeninos acontecimentos da cidade, to constantes que a ausncia de um deles prejudicava a harmonia do conjunto.
  s vezes, tempestuosa, surgia d. Engrcia, de vastas roupas negras, botinas de elstico, mantilha e guarda-chuva. Como tinha trinta contos em depsito no armazm dos Teixeira, dispensavam-lhe atenes especiais. Terrivelmente indiscreta, censurava, diante de Lusa, os decotes baixos e os cabelos curtos, imoralidades, e dizia a Clementina que histerismo  descaramento. Esquadrinhava tudo, metia em tudo o rosto de fuinha, e se alguma coisa via que lhe desagradasse, desembuchava logo. Agressiva e espalhafatosa, falava como se quisesse espetar a gente com o nariz em bico. Detestavam-na, mas temiam-lhe a lngua. E era geralmente respeitada. Quinhentos contos em terras de caf e algodo, prdios, letras, aes da Cachoeira e da Ferno-Velho.
  Vinha sempre com ela a pupila, sria, de colarinho alto e mangas que lhe chegam aos pulsos. Veste-se assim por causa da madrinha. Percebe-se que no revela o que tem dentro. Confrontando-a com Lusa, eu notava entre as duas uma diferena enorme.
  Luisa era franca  movimentos decididos, riso claro, grandes olhos azuis que lhe deixavam ver a alma. Tive a impresso extravagante de que ela andava nua. Saam-lhes nus os pensamentos. E os vestidos escassos apenas lhe cobriam parte do corpo, belo, que se poderia mostrar inteiramente nu.
  Lusa era boa, de uma bondade que se derramava sobre todos os viventes. Sou apenas um inseto, mas, para inseto, recebi tratamento exagerado.
  Lusa era pura. Imaginei que nunca um desejo ruim lhe havia perturbado os sonhos.
  Foi assim que pensei. Entretive-me durante um ms a orn-la com abundncia de virtudes raras. Alm das que ela possui, e que so muitas, dei-lhe as outras. E lamentei que o meu esprito minguado no pudesse conceber perfeies maiores para jogar sobre ela. Nisto se exauria o esforo de que sou capaz. Devaneava  e nem sabia exprimir-me. Enquanto o amigos em volta da mesa parolavam, eu ficava em silncio, recolhido, sem nada ouvir, contemplando-a.
  Pouco a pouco a minha confuso se dissipou. Lusa me dizia coisas lindas, que eu escutava enlevado, procurando um alcance que no tinham e que cheguei a descobrir.
  Diante das visitas, era reservada: no ia alm de uma o outra frase risonha lanada na conversao. Em famlia, tornava-se expansiva.  o que se observa entre as senhoras do Nordeste. Como os homens aqui so indelicados e no raro brutais, elas se esquivam, tmidas.
  s vezes Lusa se revoltava. E era sempre em razo de uma desgraa que no podia suprimir. Atirava tumultuosamente expresses confusas, que traduziam ideias justas, com certeza, e bons sentimentos, porque eram dela. Falava do sapateiro que tem a mulher tsica e uma ninhada de filhos:
   Est l na tripea, batendo. E os pequenos esfarrapados, sujos... Ouo daqui as pancadas do martelo e a tosse da mulher. Vocs no ouvem?
  Ningum ouvia.
  - Os ps inchados, to amarelo, as roupas imundas! 
  Adrio erguia os ombros com enfado:
  - Que nos interessa isso, filha de Deus? O homem ganha a vida,  natural. Deix-lo.
   Mas  que morre de fome. Vocs sabem l o que  ter fome?
  - Manifestei-lhe um dia minha surpresa:
  -  No sabemos. Com efeito, no sabemos. Mas a senhora tambm no sabe. Deve padecer muito. Faz pena. Afinal no  o nico.
  Levou as mos ao estmago, deitou-me uns olhos que me espantaram, e julguei que at as dores fsicas do desgraado passavam para ela.
   Aquilo di, deve doer muito. Uma casa nojenta!  duro. H l crianas nuas.
  Compreendi a razo por que Lusa no confessou ao marido a minha temeridade. Uma criatura como ela no agravaria nunca o sofrimento alheio.
  Dez	
  Uma noite de lua cheia, no banco do jardim, Vitorino me acirrou a pacincia com a exposio arrastada e nasal dos mritos da filha, que deixara o Corao de Jesus, onde ensinava pintura. Estive a escut-lo uma hora.
  Lusa veio descansar numa cadeira ao p de ns. Quando Vitorino se retirou, depois de uma extensa relao de quadros, disfarcei o meu enleio a observar as manchas dos tinhores. Mudo e constrangido, levantei-me tambm.
   J se vai embora, Joo Valrio? perguntou Lusa com tanta simplicidade que tornei a sentar-me.
  Sobre os canteiros espalhou-se a sombra de uma nuvem. Lembrei-me dos beijos que dei no pescoo de Lusa, imagine que nunca teria coragem de lhe falar naquilo. Reapareceu luar. E, sem preparar-me, balbuciei, com os olhos na platibanda do armazm fronteiro:
   Eu lhe devo uma explicao. Veja a senhora...
  Calei-me, perturbado, tentei moderar a violncia do corao.
   Nem sei como principiar. Nem sei o que vou dizer. 
   Pois no diga, murmurou Lusa.
  Procurei decifrar-lhe a inteno, o que no consegui. Per feitamente sossegada.
   Tem razo.
  E senti um imenso desalento.
   Mas essa generosidade  terrvel, desabafei quase colrico. 
   O Valrio est exaltado. No pensemos mais nisso. 
   No pensar?  o meu pensamento. A senhora depositou confiana em mim... Sou um canalha. O que eu queria era saber por que me trata dessa forma. Por que ?
  Ela no respondeu. Olhou desatenta as grades do jardim, as folhas das palmeiras, o lago do centro pequenino, que tem  margem a estatueta desconsolada de uma gara.
   Quando voltei, no esperava ser recebido assim. Fala comigo como se eu prestasse. Por qu?
  Esqueci a explicao a que me havia referido, fazia-lhe perguntas que nunca supus fazer. Ela pareceu acordar, passou a mo pela fronte:
   O Valrio  uma criana,  como se fosse nosso filho. E desde que est arrependido...
   Quem lhe disse isso? Filho! Que brincadeira! Somos da mesma idade. No me entende. O desgosto que lhe causei... Vivo acabrunhado. E foi aquele o nico momento feliz que tive.
   Essa confisso  uma indignidade, exclamou Lusa com rigor que no achei natural.
   , concordei. E a senhora vai perdoar, j perdoou. Era melhor que me expulsasse de sua casa. Vejo-a, e no me canso de v-la. Antes de dormir, sonho... Nem sei. Sonho que morreria contente se lhe desse um beijo.
   Cale-se, fez ela com leve tremor na voz.
   E a senhora sorri quando eu chego. Acha-me to miservel... Nenhum ressentimento...
   Pobre rapaz, disse Lusa baixinho. Deve ter sofrido muito. 
  Brilhavam-lhe nas pestanas traos de lgrimas, o que me causou violenta comoo.
   Por que havamos de ficar inimigos? prosseguiu. Uma leviandade sem consequncia. Vive aqui h cinco anos.
   No, no  isso. Eu me explico.
   Decerto, atalhou ela rapidamente. Vou auxili-lo. H por a muita moa. A Clementina, coitadinha...
   A Clementina? Quem lhe pediu essa substituio?  a senhora que eu amo, a senhora, a senhora.
  Ela ergueu-se de chofre:
   Fiz mal em ouvir essas loucuras.
  Afastou-se quase sufocada. Compreendi ento que estava num banco de jardim. E espantei-me de encontrar em redor tudo em ordem. A lua andava brincando com as nuvens, como se aquele extraordinrio acontecimento no alterasse a harmonia do universo. Moviam-se lentamente os tinhores. A fachada do armazm fronteiro no se tinha desmoronado. E a gara de bronze,  beira da gua, levantava a perna intil com displicncia, mostrava-me o bico num conselho mudo, que no percebi.
  Na rua, apesar da aparncia calma do mundo exterior, pareceu-me que havia em qualquer parte um cataclismo.  possvel que naquele momento alguma operao se realizasse no meu crebro. No tive disto nenhuma conscincia, apenas sei que duas ou trs frases me feriam os ouvidos, com obstinao.
  Ouvi distintamente algum invisvel dizer-me: "Pobre rapar Tem sofrido muito." Passados instantes, a mesma voz continuou: "Por que havamos de ficar inimigos? Uma leviandade sem consequncia."	
   entrada do Pinga-Fogo, o administrador da recebedoria cumprimentou-me, parou:
   Faz o obsquio de me dar o seu fsforo?
  No retribu o cumprimento e atentei naquele ser fantstico, alto, magro, de preto e de gravata branca.
   Pedi-lhe fsforo. Faz favor...
  Meti a mo no bolso, maquinalmente, dei-lhe a caixa de fsforos.
  "Pobre rapaz. Deve ter sofrido muito..." martelou-me a voz aos ouvidos. E pensei nas marteladas do sapateiro, que Lusa ouve.
   esquina da rua Floriano Peixoto, o Neves farmacutico, apertado num velho fraque de gola ensebada e rodo de traas, perguntou-me se no ia ao baile da prefeitura. Balancei a cabea negativamente e achei o Neves absurdo.
   Festana grossa, resmungou o boticrio com animao frouxa no caro chupado.  conveniente ir, agradar o Barroca. Esse sarapatel de poltica... Vai o mundo abaixo. O Mesquita passou o exerccio ao Mendona.
  O Mesquita, sim. Era possvel que houvesse um Mesquita um Barroca, um Mendona, outros indivduos talvez. No sabia para onde me encaminhava. Ia provavelmente  redao da Semana, mas, ouvindo msica para os lados da praa da Independncia, endireitei para l, sem me despedir do Neves.
   entrada do beco do Leite, Nicolau Varejo e Silvrio comentavam a mudana do destacamento policial e a demisso do promotor.
  Havia agora alguma ordem nas minhas ideias. As palavras de Lusa acompanhavam-me. Consegui dar a elas uma significao, o que ainda no tinha podido fazer.
  No largo, muito tempo fiquei encostado  esquina da padaria, olhando as portas fechadas dos estabelecimentos comerciais, as bandeiras de papel esvoaando em honra de Evaristo Barroca, a frontaria salpicada de luzes do pao municipal. 
  Nas trevas do meu esprito faiscavam milhares de vagalumes. Por que me deixara Lusa entrar, depois de longa ausncia, na intimidade do casaro dos Italianos? Que podia ela esperar de mim? "O Valrio  como se fosse um filho." Despropsito. Depois a lembrana de querer impingir-me a Clementina. E hesitao, ambiguidade. 
  Aproximei-me vagarosamente do local da festa, cheguei-me a uma das janelas, onde o sereno aflua. Poucos pares. Nas cadeiras, senhoras graves, de ar bicudo: d. Eullia Mendona e as duas filhas, as xifpagas, como lhes chama o dr. Liberato, porque andam sempre juntas; a mulher do juiz de direito; d. Josefa Teixeira, miudinha, lourinha, a nica que parecia  vontade, linda muchacha, conversando com uma criatura agreste, sardenta e de tromba; Clementina, outras. Pelos cantos, indivduos contrafeitos numa elegncia precria: Miranda Nazar, mais magro, mais curvado, de queixo mais agudo; o juiz de direito; Vitorino, cabisbaixo, sonolento; o Monteiro agiota, com a barba crescida; Mendona pai, que  Cesrio, e Mendona filho, que  Valentim; eleitores bisonhos, Os membros do Conselho, sujeitos desconhecidos, de Quebrangulo e Santana do Ipanema. Aprumado e encasacado, Evaristo Barroca discorria com o delegado regional. 
  No aperto que havia na calada, Maria do Carmo asseverava ao regente da filarmnica:
   Todo o mundo sabe que eu sou uma mulher honesta.
  O regente da filarmnica afastou-se dela e perguntou a Xavier filho se o Mesquita estava na fazenda. Xavier filho explicou que ele se havia metido em casa, porque d. Guiomar adoecera, que no precisava de poltica para viver e que aquela mudana era um beneficio que lhe tinham feito. O outro concordou. E quis saber se eu pertencia ao partido do dr. Barroca.
   Uma mulher honesta, repetiu Maria do Carmo. No sou disso, todo o mundo sabe.
  Retirei-me, atravessei o Quadro, entrei no caf Bacurau. Por que me dissera Lusa aquelas palavras equvocas?
   Que  que vai, seu Valrio? gritou Bacurau, que estava trepado numa escada, desceu quando me viu. Cerveja?
   Conhaque.
  Ele trouxe a garrafa e voltou-se para Isidoro, que entrava: 
   Conhaque, seu Pinheiro?
   Caf, bacurnico amigo, respondeu Isidoro sentando-se  minha mesa.
  E logo me interpelou com azedume:
   Ento no vai, hem?
   No.
   Pois  tolice. Podia encontrar ocasio de falar com a Marta, que deve ir para l. Olhe.
  Apontou Marta Varejo, que saa do convento, em companhia da madrinha.
   Para que diabo quer a d. Engrcia um guarda-chuva a esta hora, com um luar deste?   perguntou noutro tom. 
  Bebeu o caf, levantou-se:
   No nos poder arranjar uma beberagem menos indecente, Bacurau? A vida inteira este caf marca peste para dar aos fregueses, homem! Muito perde voc, Joo Valrio.
   No perco nada. Que me importa essa corja?
   Quem? O Evaristo...
   Todos. Uns malandros.
   Que entende voc disso? exclamou Isidoro com severidade. Poltica  escriturao mercantil? Ainda hoje me dizia o Miranda... No venha com os seus modos de troa, que o Miranda est no segredo da poltica. Conhece tudo, tem faro, fique sabendo. E adeus, vou meter-me naquele foxtrote. Eu dou o cavaco pelos fostrotes. Arrivedeci, como diz o Pascoal.

  Onze
  O dr. Liberato, de perna estirada, mostrando a meia de seda preta, a esmeralda no ndice pedaggico, acabava de contar a histria de um colega dele que, em exame de anatomia, tinha dito do tero:  o laboratrio da humanidade.
  No achamos graa, esperamos que o narrador continuasse a anedota, e quando vimos que estava concluda, afetamos um risinho inexpressivo. Nazar, que ouvira distrado, riu fora de tempo, e padre Atansio, encostando as orelhas aos ombros, declarou que a definio no deixava de ser justa: o tero era aquilo mesmo. O doutor, meio desorientado, com as lunetas faiscando de indignao, tentou explicar-nos que o tero  um rgo situado...
  Calou-se, porque  portinhola da grade assomou d. Josefa Teixeira, gordinha, com duas covas no rosto vermelho, risonha e cumprimenteira, em companhia da rapariga sardenta que estivera com ela antes no baile da prefeitura. Vinha encomendar um cento de cartes.
  - Cartes? Disse o reverendo levantando-se. Perfeitamente. Cartes! Sargento. Faam o favor de sentar-se.
  Como as cadeiras eram insuficientes, eu o vigrio ficamos de p. O sargento trouxe a coleo de amostras.
  Enquanto as senhoras escolhiam, aproximei-me de Isidoro, olhei a notcia que ele preparava: Deu-nos o prazer da sua encantadora visita a senhorita Josefa Teixeira, dileta filha do abastado comerciante e nosso particular amigo Vitorino Teixeira, que nos encantou em deliciosa palestra com os sublimados dotes do seu esprito?
  O noticiarista levantou a pena e atirou-me ao ouvido:
   Este sublimados aqui no est mau, hem?
   Est timo. Est igual ao Cames. Mas como voc fez, parece que a conversa foi com o Vitorino.
   Ora essa! Realmente, exclamou Isidoro desapontado. Desmanchar tudo!
   No  preciso, sussurrou padre Atansio, que se acercara, lera o perodo. Deite um ponto no Vitorino Teixeira, corte o que e meta depois A visitante. Pronto. A visitante sem vrgula,  melhor sem vrgula.
  Louvei sinceramente a inteligncia de padre Atansio e aconselhei tambm:
   Acho bom suprimir o encantou, que j h uma encantadora atrs. Ponha cativou, fica esplndido. E a senhorita, risque a senhorita, para no rimar com visita. Escreva d. Josefa Teixeira, como ns chamamos. Deixe a senhorita para a outra.
  O jornalista aceitou os conselhos.
   E a outra? Quem  a outra?
  Abeirei-me da mesa, onde a escolha se eternizava. No descobriam tipo que agradasse.
   Como se chama essa sua companheira? perguntei em voz baixa  Teixeira moa.
  Do-lhe este nome para distingui-la de uma criatura que tambm  Teixeira, mas de famlia diferente: d. Emiliana Teixeira, a Teixeira velha.
  D. Josefa ps termo  encomenda e apresentou d. Priscilla Fernandes, professora do Corao de Jesus. Isidoro, que no ouviu, interrogou-me com a cabea.
   Priscilla, segredou-lhe o diretor da folha. D. Priscilla Fernandes, d. Priscilla com dois II.
  A Teixeira, que se ia embora, voltou da porta, convidou sorrindo:
  J me ia esquecendo. Vo jantar todos l em casa amanh. 
  Nazar estranhou o convite:
  - Todos? Que  que h no Pinga-Fogo?  festa?
  -  o aniversrio do papai.
  - Essa agora? bradou o Pinheiro com uma palmada na testa. Que memria a minha! Pois eu tenho tudo isto anotado. 
  Abriu a gaveta da banca, tirou um registro, folheou-o: Exatamente, vinte e um de dezembro, est aqui. Onde eu com a cabea? A senhora caiu do cu, d. Josefa.
  Ps um linguado sobre a pasta e entrou a redigir vagarosamente.
  - s quatro horas, acrescentou a Teixeira. Um cento, reverendo, com envelopes. Quatro horas.
  Despediu-se mostrando os dentinhos brancos. D. Priscilla Fernandes tambm nos deu um sorriso trombudo. E partiram.
   Era o que faltava! exclamou Isidoro. Deixar de publicar o aniversrio do Vitorino, um amigo! 
  Apanhou sorrateiramente o dicionrio e, com ele nas pernas, fez uma consulta rpida. Emendou a ltima linha e chamou o compositor:
  - Sargento, olhe isto. Entrelinhado, corpo dez, no princpio das Sociais.
  O tipgrafo calculou:
  - No h espao. Esto impressas trs pginas. No h espao. Salvo se eu retirar o anncio dos calos.
  - Retire, concordou padre Atansio. O anncio dos calos  pequeno, no serve de nada. Retire o anncio dos calos. 
  - Como ia dizendo, recomeou o dr. Liberato, o tero... 
  - O doutor j disse, atalhou Nazar. rgo da gestao. Isto mesmo, em forma de pera, o doutor j disse.
  E quis saber de quem era o artigo sobre a caridade que sara . no domingo anterior. Como no era de nenhuma das pessoas presentes, achou aquilo, com franqueza, um disparate.
   Exagero, opinou Isidoro. O artigo est bom, o autor conhece gramtica.
   Quem se importa com gramtica? O fabricante daquela xaropada  um idiota.
   Por que defende a caridade?
   Por tudo. Um fongrafo.
   Mas a caridade... arriscou padre Atansio.
   Os senhores so incoerentes, gritou Nazar. No mesmo nmero vinha uma coluna reclamando a interveno da polcia contra a mendicidade. Reclamao justa, porque enfim todos ns reconhecemos... Nada disso, padre Atansio. Que prstimo tem essa gente?
  Como a coluna havia sido feita por mim, achei o tabelio Miranda um sujeito de senso.
   Que utilidade tem essa rcua? prosseguiu ele. Eu queria ver tudo morto. Pode ficar tranquilo, no se perdia nada. A eutansia...
  Mas o dr. Liberato se declarou inimigo da eutansia. Abusou de expresses cientficas e alegou a fragilidade dos conhecimentos humanos. Nazar, que escutara esbrugando o polegar com os dentes, aplicou-lhe, quando ele se calou, razes desconcertadoras. Embrenharam-se numa discusso difcil, e ningum os pde acompanhar. Isidoro rabiscou um pedao d( papel, escondeu-o no bolso, e o Vigrio, que examinava pensativo a cabeleira revolta do mdico, aproveitou uma brecha na polmica, manifestou-se:
   Tudo isso est muito bem, mas, digam l o que disserem; a caridade  a caridade, e ningum me tira disto. Os senhores no ignoram que o Evangelho... Perfeitamente, o Evangelho, e por que no? O Evangelho! Uma revista que li... Afinal a revista no influi no caso. Mas veja a histria da mulher adltera, seu Miranda. Veja a cena em casa de Simo, o fariseu. Veja o bom samaritano.
   Qual fariseu! bradou Nazar. Qual samaritano! No h samaritano, o que h  uma scia de vagabundos que exploram a gente e merecem cacete. E chegou a propsito o Nicolau Varejo, que vai falar sobre o bom samaritano.
   Hem? que samaritano? inquiriu Nicolau Varejo entrando. Quem  ele?
   Um bodegueiro que mora na banda de l do aude, explicou o Miranda. Existiu antigamente na Palestina e forneceu assunto a So Lucas. Mas faz muito tempo, foi noutra encarnao.
  Nicolau, que tem medo do Vigrio, no gostou da pilhria e enrugou. a cara, resmungando evasivas covardes. No conhecia So Lucas, sempre fora bom catlico, assim Deus o ajudasse, e espiritismo era com o farmacutico.
  Padre Atansio encarou-o erguendo os ombros, mas ns o acolhemos ruidosamente. Isidoro deu-lhe a cadeira e sentou-se na mesa. Por que se estava vendendo to caro? A presena dele naquela casa era uma necessidade para todos, era como um banho de alegria que a alma da gente tomava. Ouvindo falar em banho, olhei as mos de Nicolau, horrivelmente sujas.
    bondade dos senhores, fez ele j desanuviado, escanchando-se na cadeira, cruzando os braos sobre o encosto. Que vale um pobre como eu?
  - Modstia! gritou Isidoro. O senhor tem uma imaginao baita. Ia agora contar aos amigos aquilo de ontem  noite, no Bacurau. Fiquei impressionado, seu Varejo.
  Sim? acudiu Nicolau radiante. Pois eu apenas repeti as informaes dos jornais. Foi um caso divulgado, rolou por este Brasil todo. Os senhores com certeza leram. O Correio da Manh, o Estado de S. Paulo, outro de nome arrevesado, publicaram. E eu, que no gosto de propaganda, at me acanhei. 
  - Conte l isso, pediu Nazar.
  - J vocs comeam, intrometeu-se o vigrio, incapaz de zombaria.
  Ningum lhe deu ouvidos. 
   Vamos, tornou o Miranda. 
  Nicolau Varejo tornou a palavra:
   1922 foi um ano safado, o princpio dessa encrenca de revoluo. O tempo que passei no Rio...
   Esteve no Rio? inquiriu o dr. Liberato. 
  - Em 1922. Fui vender papagaios. Garantiram-me que era bom negcio, mas a bordo morreu tudo. Papagaio a bordo morre,  um bicho desgraado para morrer depressa. Desembarquei com o bolso limpo e no pude ganhar dinheiro para voltar. Andei por l uns meses, de tanga, procurando passagem, comendo na banda podre. Veio o furduno. E, como no tinha que fazer da vida, peguei no pau-furado. 
   O senhor entrou na revoluo? perguntei.
   No forte de Copacabana. Estava mesmo disposto a suicidar-me. A bandeira cortada, lembram-se? Os jornais publicaram. Quando os rapazes saram da fortaleza, eu ia na frente com um pedao de pano amarrado no brao. Ordem e Progresso, imaginem. Aqui, no brao direito. J viram algum combate? 
  No, graas a Deus.
   Ento no fazem ideia. As balas choviam por toda a parte: zum, zum, zum... Depois da briga, apanharam um bando de alqueires delas. Os senhores devem ter lido. 
  Ningum tinha lido. E o resto? 
   Ah! Foi o diabo, por detrs dos sacos de areia. Matamos soldado  bea. Caam s pencas, nunca vi tanto defunto. S deixei de atirar quando no tinha fora no dedo para puxar o gatilho. 
  Acendeu um cigarro.
   Findo o combate, deitaram-me na padiola. Mais de cinquenta ferimentos. Aqui por cima no, mas da barriga para baixo era uma peneira. Nem sei como escapei. O Calgeras, que estava junto, segurou-me a cabea e recomendou: "Cuidado com o homem." No dia seguinte o Epitcio visitou-me no hospital e repreendeu-me: "Pois voc, seu Nicolau, um sujeito de coragem, virar maluco!" E eu respondi: " verdade, seu Presidente, o mundo  um pau com formigas." Os senhores no leram nas folhas?
  - Espere! atalhou o dr. Liberato. Assim  demais. Isso foi com o Siqueira Campos.
  - O Siqueira Campos? replicou o heri indignado. Ento o senhor no leu a Gazeta de Notcias. Foi comigo. O Siqueira Campos! Tinha graa. Ele tambm andou l, bom camarada, valente como cachorro doido. A est uma prova.
  E deu as costas.
  - Que prazer sentem vocs em bulir com essa criatura? disse o vigrio.  uma falta de caridade. Ora vejam. Estvamos falando de caridade.
  - No sei, padre Atansio, respondi. Gosto dele. E tenho a impresso de que tudo aquilo  verdade. 
  - Talvez seja, murmurou Nazar. Talvez seja uma verdade como as outras. 
  - An! grunhiu Isidoro.
  E olhou com ar enfastiado as biqueiras dos sapates quarenta e dois. O tabelio e o doutor embrenharam-se numa cavaqueira cerrada. O reverendo escutava com os bugalhos Atentos fixos neles, balanava a cabea, diligenciando compreender. Achei a conversa muito filosfica, pensei em Adrio, despedi-me, arrastei o Pinheiro, que estava quase a dormir. 
  Acenderam-se as lmpadas da iluminao pblica. 
  - Preciso fazer um brinde amanh, no jantar do Teixeira, rosnou Isidoro. Que palavras esquisitas eles arranjam!
  Tirou do bolso um papel, chegou-o aos olhos:
  - Que diabo quer dizer eutansia?
  Eu tambm ignorava.

  Doze
  Quando me ia acabando de vestir para o jantar de Vitoria Isidoro entrou, j pronto:
   Descobri agora que o Pascoal esqueceu o italiano. Esqueceu tudo.
  Pascoal, zangado, gritou do quarto que ainda se recordava de sporco, vigliacco, birbante. E para demonstrar melhor os seus conhecimentos, largou-lhe uma expresso obscena, em italiano tambm. Isidoro, timo, sorriu sem se ofender e ps-se a escovar as abas imensas do chapu. Avivou o lustre dos sapatos com uma camisa que encontrou num canto e penteou-se, puxando para a testa os cabelos, que lhe vo escasseando. Depois chegou  porta:
   O dr. Liberato j veio, d. Maria? 
   No senhor. O Xavier diz que a moa est pior. 
   Que diabo! exclamou Isidoro. Um companheiro de menos, um companheiro to bom! E no preparei o brinde. Falo de improviso. Voc no acabar de amarrar essa gravata, homem? 
   O doutor no vai?
   Julgo que no. Est em casa do Mesquita.  por causa da Guiomar, que adoeceu. Tenho pena do Mesquita, boa pessoa Fizeram-lhe muita picuinha, muita canalhice. Poltica  um desgraa. Voc est pronto? 
   Samos. Quando dobrvamos a esquina da padaria, Isidoro quis ir ao Bacurau, comprar cigarros. L chegando, sentou -se, consultou o relgio, pediu conhaque. E, emborcando o clice: 
   Que  que eu digo no improviso? D-me uma ideia, estou inteiramente oco. Uma sugesto qualquer. No? Que maada! E eu que desde ontem tinha o projeto de escrever o diabo do brinde! Acabou-se, fica para o ano vindouro, se o Vitorino for vivo.
  - Maada vamos aguentar l, que os jantares dele so fnebres. A mulher paraltica, e tudo escuro, tudo fechado... 
  - Isso  quando a d. Josefa no est a. Agora que veio do colgio  outra coisa. A propsito, voc viu como a Teixeira voltou bonita? Sim senhor, um pancado. Isto de saias eu conheo bem. Cada perna!
  - Deixe as canelas da moa, devasso. 
  E, levantei-me.
  Espere a. Ainda faltam quinze minutos. Bacurssimo amigo, traga tambm cigarros. Este conhaque  uma infmia. Ponha tudo na conta. E estes cigarros esto furados. No tem outros a com menos buracos? No tem? Vamos l, seu Valrio. 
  Na rua acendeu um cigarro, deitou fora, acendeu outro, tornou a deitar fora, acendeu o terceiro:
   Pois, menino, aquilo  um femo. A cara, os braos, com os diabos! E as pernas so bonitas, palavra, que eu ontem reparei. At fiquei entusiasmado, homem! 
  A entrada do Pinga-Fogo encontramos Adrio e Lusa. 
   Vo ao jantar? perguntaram. 
   Vamos ao jantar.
  E senti um baque no peito. Retardamos o passo, acompanhando a marcha claudicante de Adrio. Procurei debalde uma palavra, e o Pinheiro, que entende bem de saias, mas no sabe falar com senhoras, gaguejou:
   Como vai o sapateiro, d. Lusa?
   Mal, coitado. Andam com uma subscrio para ele.
  Fora ela que sugerira a subscrio e dera quase tudo. Na vspera eu a tinha visto entrar sorrateiramente na oficina do desgraado, com Zacarias preto, que levava um pacote. 
   Creio que somos os ltimos, observou Adrio quando chegamos.
  Havia l dentro um rumor de conversaes misturadas.
  No se perde nada com a falta do meu brinde, sussurrou-me o Pinheiro. Est c o Barroca, temos falao na mesa, que aquele diabo nasceu para discursador.
  Realmente Evaristo Barroca, cercado, em evidncia na sala cheia de flores, explicava a padre Atansio que a s poltica  filha da moral e da razo. Recuei um pouco para deixar livre a passagem ao casal Teixeira:
  - Eu j lia quilo. Voc sabe de quem  aquilo?
  - O qu? A s poltica?  dele, - respondeu Esidoro. - O Barroca tem inteligncia, tem cultura.
  Entramos. E a nossa presena quase passou despercebida entre as efuses com que rodearam Lusa, Adrio, um sujeito gordo e moreno que surgiu logo depois. Evaristo dispensou-me um acolhimento protetor, muito de cima para baixo, e eu me senti humilhado.
  Evitei-o bruscamente e fui dizer a Vitorino que o Dr. Liberato estava em casa do Mesquita.
  - Jantar em casa do Mesquita?
    - No, doena da filha.
  Houve um rpido silncio de constrangimento. E foi Evaristo que o quebrou lamentando-o, em tom de grande mgoa, o desagradvel acontecimento que eu havia noticiado. Asseveras, sempre asseverara, que Fortunato Mesquita, como particular, era um cidado de conduta irreprochvel. Gravei na memria esta palavra, para procurar a significao dela no dicionrio, e aproximei-me de um grupo de moas, pedi informaes sobre a sade de D. Mariana.
  - Assim, assim, na cama  respondeu a Teixeira, com desconsolo.
  Em seguida, movendo o brao rolio carregado de aros, cobras de couro que tilintaram, repreendeu-me com o dedinho erguido, lembrou-me que fazia um ms que viera do colgio e ainda no me vira ali.  Quando se resolvia o senhor adversos a deixar de ser ingrato?
  - Diversos eu, D. Josefa? Sou apenas um, infelizmente. Se fosse ao menos quatro, ficava muito bem, entre as senhoras.
  E mostrei as outras: Marta Varejo, coberta de panos, Clementina, que se derretia para o sujeito gordo, d. Priscilla Fernandes, carrancuda. Refleti um momento e, em falta de ob- frio melhor, joguei d. Engrcia na conversa. Estava l dentro, com Lusa, em visita  d. Mariana. 
  A Teixeira pediu licena para ir dar uma vista  mesa. Marta  chegou-se ao piano, comeou a remexer msicas.
  E veio-me  lembrana uma noite de fevereiro, cheia de movimento e doidice, com automveis rolando no Quadro, a arrastar longas fitas de serpentinas, folies invadindo o teatro, numa algazarra dos demnios. Nessa noite de carnaval derramei no pescoo de Marta um lana-perfume, e ela me disse qualquer coisa em francs a respeito da facilidade com que se juntam as pessoas que se assemelham. No atinei logo com o sentido da frase; depois julguei perceber uma aluso  semelhana que talvez exista entre mim e ela. Passados alguns dias, encontrei uma resposta que podia ter aplicado. Histria velha. J l iam dez meses.
  D. Priscilla desfranziu a tromba, exps a dentua a Clementina, achou por condescendncia a cidade encantadora. Olhei com agrado os beios vermelhos de Marta, bons para morder, e, atrado por um sorriso, acerquei-me dela, perguntei-lhe se se tinha divertido muito no baile da prefeitura. Respondeu-me que aguentara trs horas de insipidez medonha. Baixou a voz. S houvera l basbaques, quase tudo gente idosa, sisuda. Desembaraava-se da circunspeco que a mascara: 
   A nica pessoa com que me entretive foi o Monteiro, que discorreu sobre oramentos.
  Disse que no danara, no tolerava as danas modernas.  a madrinha que lhas no consente, mas persuadi-me de que estava diante de mim uma criatura pudica em excesso. Contou que Nazar tinha tomado um pileque. Reparando em Clementina,  interrompeu-se, mostrou na parede um quadro com um palcio, um canal e uma ponte, falou em Marino Faliero, que no sei quem foi.
  D. Engrcia apareceu e, vendo-nos juntos, farejou de longe Marta puxou a manga, cobriu quatro dedos de pele que lhe ficavam  mostra. Nisto avistei Luisa perto de ns, ligeiramente plida, e notei-lhe no rosto uma expresso que me deixou sucumbido.
  Que lhe fiz eu, santo Deus? Dei um passo para ela, furtei-me s amabilidades de Marta, que me oferecia um romance por emprstimo, timo romance, publicao do Centro da Boa Imprensa.
   voz fanhosa de Vitorino, todos se levantaram. Atravessei o corredor, desesperado. Mulher incoerente, ora pelos ps, ora pela cabea. E arrependi-me de haver atendido quele convite idiota. Era melhor ter ficado em casa, trancado no quarto, de pijama. Instintivamente, esquivei-me  companhia de Marta. E ouvia, nauseado, a dissertao do Barroca sobre a diferena que existe entre um governo moral e um governo imoral.
  O sujeito gordo arreliava-se com o Miranda:
   Mas eu escrevi aquilo porque est no artigo 39, senhor.  do cdigo.
  E o tabelio, apaziguando-o com um gesto da mo aberta, um pouco trmula:
   Pois muito bem. Eu julguei que fosse engano. Desde que est convencido... Se tem certeza de que  do cdigo...
   Certeza absoluta.
   Deve ser isso mesmo.
  Quando me sentei  mesa, procurei os olhos de Luisa. Parecia nervosa, com o rosto coberto de sombras, os beios franzidos, uma ruga na testa. E respondeu distraidamente a um desconchavo amvel que padre Atansio lhe endereou. 
   Nunca entro aqui, disse Evaristo Barroca, sem evocar aqueles homens antigos, aqueles vares austeros da conquista, os precursores da raa.
  Palanfrrio reles e postio, de dar engulhos. Era a reproduo quase literal de um dos perodos enfunados em honra do Mesquita. Mas o vigrio gostou, falou nos patriarcas, em Abrao, em Jac. O sujeito gordo, impressionado, articulou qualquer coisa que ningum entendeu, confessou que Vitorino tinha muita semelhana com Abrao. Nazar interrompeu-o alegremente. Abrao era um cavalheiro de nariz em arco, grandes barbas e cabelos compridos, adorava Jeov e vestia saia. De mais a mais a gente do tempo dele trincava o gafanhoto, no cho, de pernas cruzadas.
  - E a comparao do dr. Barroca tambm no  justa. Esses vares de outras idades, uns brutos, comiam com os dedos, de mangas arregaadas, em alguidares de barro, e esvaziavam enormes canjires, bebendo em copos de chifre. Creio que eram como os fazendeiros sertanejos, que jantam em camisa e ceroulas, cortando a carne a faco e batendo o osso corredor a macete. Tudo aqui  diferente. No h semelhana nenhuma.
  E mostrou a mesa, onde flores punham nos vidros uns tons rosados:
   Quem se importava com flores naquele tempo?
  O sujeito gordo concordou, limpando a boca. Tudo era diferente, na verdade, e antigamente no havia flores.
  Tinha-se acabado a sopa. Aquele indivduo me intrigava. que intrigava. Dirigi-me  vizinha da direita:
  - Quem  aquele homem moreno, d. Clementina, l na ponta ao lado da professora?
  -  o dr. Castro.
  Que significa o dr. Castro?
  - Promotor, chegou h dias, parente do dr. Barroca.
  Serviram um prato que no pude saber se era peixe ou carne, fatias desenxabidas em molho branco. Evaristo iniciou um palavreado sonoro, em que de novo encaixou a s poltica filha da moral e da razo, mas a frase repetida no produziu efeito. Apenas o promotor balanou a cabea e rosnou um monosslabo aprobativo. Evaristo queria eleitores conscientes, uma democracia verdadeira. Procurei pela segunda vez os olhos de Lusa, e, no os encontrando, declarei com averso que a democracia era blague.
   Por qu?
  Naturalmente porque Lusa estava amuada. Mas julgue este motivo inaceitvel e perigoso: recorri a outros, que o deputado inutilizou com meia dzia de chaves. Vitorino disse que no votava, tinha rasgado o ttulo, achava que eleio era batota. E no compreendia o empenho do dr. Barroca em aliciar eleitores:
   Tendo quatro soldados e um cabo, o senhor tem tudo. 
  O dr. Castro reconheceu que os soldados e o cabo eram de grande eficincia:
   Ora, a fora do direito... isto , o direito da fora... Afinal os senhores me entendem.
   Que diz aquele sujeito, d. Josefa? perguntei  vizinha da esquerda. 
  A Teixeira teve pena dele, quis saber se se dera bem na cidade, se tencionava ficar aqui definitivamente. Adrio, Vitorino padre Atansio, interessaram-se tambm. E o dr. Castro, radiante, soltou o garfo, tomou o copo, falou da sua pessoa, dos seus gostos, da sua instalao provisria em casa de Cesrio Mendona. 
   Muito hospitaleiro, muito simples. No tem orgulho; apesar de ser rico. E traz tudo num arranjo admirvel: despensa enorme, pomar, biblioteca... E a mulher, as meninas, umas prolas. Creio que estou bem l, enquanto espero que o Monteiro me alugue casa.
  Mas j ningum se importava com o promotor, voltavam-se todos para Evaristo, que agora preconizava o esclarecimento das massas, governadas por uma elite de gnio.
   Mas como  que o povo aprende, se os senhores no ensinam? perguntou o reverendo com acrimnia. 
  Andava indignado contra a ignorncia depois que a tiragem da Semana baixara de mil e duzentos para oitocentos nmeros. Evaristo Barroca, modesto, retirou-se dentre os governantes, encolheu-se na cadeira, fez-se pequeno.
  As garrafas esvaziavam-se. Havia agora animao na sala. As senhoras, livres do constrangimento do princpio, tagarelavam com desafogo: risos, sussurros, gestos familiares, perguntas e respostas desencontradas, cruzavam-se. D. Engrcia referiu ao Pinheiro a cura milagrosa de umas sezes que trouxera de Passo de Camaragibe, cura realizada em virtude da promessa de seis velas ao So Sebastio de Maria Quebra-Unha. Clementina, passando o brao pelo encosto da minha cadeira, mexeu no ombro de d. Josefa. Maria descreveu ao Miranda a entronizao do Sagrado Corao de Jesus em casa de D. Emiliana Teixeira.
  - O colgio do Corao de Jesus? - Informou-se D. Priscilla.
  - Uma entronizao, ontem, festa de muita piedade.
  Tinha os olhos baixos. E eu lembrei-me do que ela me havia dito em frente do livro das msicas, cobrindo pudicamente cinco centmetros de brao com gatimunhas de embeiar a gente, metendo na conversa, fora de propsito, o Marino Faliero. Que sonsa!
  - Em poucos anos apanha os quinhentos contos da velha  disse comigo.  O Pinheiro acertou. Quem ter sido o Marino Faliero?
  Nazar absorveu dois copos de vinho e atacou o Barroca:
  - Isso de liberdade  pilheria, doutor. No precisamos de liberdade, precisamos de cassete. Foi assim que sempre governaram e assim vai bem. Gostamos de levar pancada. Veja como admiram por a os bandidos do Nordeste.  a instruo, para que serve instruo  canalha?
  - Se tem isso em conta de novidade...  interrompeu Evaristo.
  - No senhor  retrucou o tabelio, ressentido.   coisa corriqueira, mas as suas ideias tambm so do tempo da pedra lascada.
  E tornou a beber.
   Exatamente o que eu estava pensando, gritou o dr. Castro.  isso, ideias antigas. Aprecio as ideias antigas, percebem? 
  Evaristo defendeu o ensino obrigatrio e, sem fazer caso da observao do Miranda, surripiou um perodo de Victor Hugo. O dr. Castro aplaudiu ruidosamente: 
    claro, no h dvida. Necessitamos luz, muita luz. 
   Com miolo de po? perguntou Clementina.
   Com miolo de po, respondeu d. Josefa. Miolo de po, goma-arbica e tinta. Tambm se faz com papel machucado na gua. 
   O senhor  o presidente da junta escolar? 
  O dr. Castro confessou que estava na presidncia, infeliz mente, e que aquilo era uma espiga. Mapas todos os meses, atestados, um horror de professoras e inspetores rurais, informaes  diretoria e obrigao de visitar escolas. Ele, graas Deus, nunca tinha entrado em nenhuma. 
  Com o olho vivo, Nazar dizia ao Barroca:
   Sim senhor, mas tudo isso  lria. Quando o nosso matuto tem um filho opilado ou raqutico, manda domestic-lo a palmatria e a murro. O animal aprende cartilha e fica sendo consultor l no stio. Torna-se mandrio, fala difcil, l o Lunrio Perptuo e o Carlos Magno,  noite, na esteira, para a famlia reunida em torno da candeia. Qual  o resultado? A primeira garatuja que o malandro tenta  uma carta falsa e: nome do pai, pedindo dinheiro ao proprietrio. 
  Evaristo achou aquilo um exagero evidente, o outro jurou que era verdade. 
   Pois se  verdade, a culpa deve ser do ancilstomo. Que mal pode fazer a leitura?      
  Mas Adrio, que estivera calado, distrado e murcho, afagou devagar a careca, declarou que dos matutos que ele conhecia os melhores eram os analfabetos:
   O roceiro que soletra tem vergonha de pegar na enxada.
   A senhora passa aqui as frias?
- Psso. Fico at meado de janeiro, disse d. Priscilla. Vim um pouco adoentada. E como o clima  bom...
  - Que vem a ser este prato, d. Josefa? perguntou Isidoro.
  - Um caruru com muita pimenta. 
  - Ah!
  E acrescentou:
  - Que pena no estar aqui o dr. Liberato! Para entender de caruru, vatap, essas trapalhadas da Bahia, no h outro. 
  Evaristo reconheceu que saber ler, simplesmente, era com efeito pouco. 
  - A educao religiosa... lembrou padre Atansio. 
  - A educao profissional.
  - Aqui no h disso, atalhou Nazar com voz trpega. E como a que temos no presta e a que poderia servir no vem, era melhor que no houvesse nada.
  - Apoiado! exclamou o presidente da junta escolar. O senhor parece que adivinha os meus pensamentos. Tem razo. Exatamente o que eu estava pensando, compreende? 
  - A educao religiosa... aventurou novamente o padre. 
  - A educao religiosa, decerto, ecoou o presidente da junta escolar. A educao religiosa  o suco.
  - No serve de nada, balbuciou o tabelio com a lngua perra. 
  E encheu o copo.
  - Por que no serve? bradou o reverendo. Isto  muito srio. Na Idade Mdia... Sim, perfeitamente, no  s balanar a cabea. Diz um grande filsofo... creio at que  um santo... Deixemos o santo. Essa corja que o senhor admira, esses Nietzsche, esses Le Dantec, o outro demnio, como  o nome dele, meu Deus? Esqueci. Um alemo, um tipo conhecido, que escreveu muito livro sobre coisas midas... Como se chamam? Clulas? Toda essa gente... Que  que o senhor ia dizendo? 
  Nazar, que se escorava por no adormecer em cima da sobremesa, levantava as plpebras com dificuldade e tinha os pelos do queixo quase tocando o prato, ergueu lentamente a cabea, passou os dedos de grossos ns pelos olhos turvos, pela testa coberta de suor. Ficou um instante atenta ,do no vigrio: como se o no conhecesse, depois gaguejou, arregaando os beios, mostrando os dentes amarelos e acavalados, num sorriso idiota:
   Ah! sim... a educao religiosa. No vale nada.
   Est pronto, murmurou Adrio.
  Padre Atansio calou-se, fez uma carranca de rigor e desprezo ao adversrio, tomando talvez aquele deplorvel estado como prova de que tudo quanto o outro havia dito em sessenta anos era erro e iniquidade. Recebeu a xcara de caf, esvaziou-a em discusso muda com uma figurinha de japonesa que tinha a cabea crivada de palitos. E, arredondando os bugalhos: 
   Ento o julgamento do Manuel Tavares foi adiado, hem? 
   Isso! confirmou Adrio em voz baixa, deitando uma olhadela de travs ao Barroca. Protetores fortes. E indignao geral. Adiaram. Na sesso vindoura o homem  absolvido.
   Ora muito bem, conversamos lindamente, exclamou o dr. Castro quando as senhoras se levantaram. Eu gosto destes assuntos...
  Agitou a mo como se quisesse agarrar um adjetivo.
   Filosficos, sugeriu Adrio.
   Exatamente, filosficos, era o nome que eu tinha debaixo da lngua. Um debate magnfico.
   Pois, menino, segredou-me Isidoro puxando-me para uma janela, este promotor no fala mal. Aquilo deve ser um orador feroz no jri. E o Miranda  levado da breca. O que est  meio fisgado. Eu no entro em conversas fundas, mas ouo com satisfao. Outra coisa: voc reparou nas pernas da Teixeira? Diabo! Parece que tambm estou bbedo.
  Afastou-se, lento e aprumado. Era noite, apareceram luzes. Fiquei ali dez minutos, fumando, ouvindo a grulhada das mulheres. Por que se havia Lusa conservado em silncio? Passou-me pelo esprito aquele olhar que fuzilara um instante e logo esmorecera. Sem relacion-lo com as palavras trocadas junto ao piano, odiei Marta Varejo. A cabea baixa, a manga o at o pulso!
  Como os outros, findos os cigarros, se retirassem, acompanhei-os. Entrei na sala com a esperana de encontrar expresso diferente no rosto de Lusa. Estava sentada no sof, escutando padre Atansio, que lhe impingia o hospital de S. Vicente de Paulo e a Pia  Unio das Filhas de Maria. Quis acercar-me, mostrar amabilidade, e s achei em mim confuso e desespero. 
   Veja que desgraa, veio dizer-me Isidoro. No fiz o brinde, ningum fez brinde. Tanta lorota, e esqueceram o essencial. Nem o Barroca, nem o Miranda, nem o promotor...
   Voc ainda me vem falar nessa besta, homem?
  E responsabilizei o dr. Castro pela indiferena de Lusa. Resolvi alinhavar uma desculpa, sair dali, meter-me em casa, arrancar os cabelos. Procurava o chapu, desejando que o teto viesse abaixo, quando o dr. Castro se achegou, afvel, numa  tentativa risonha de camaradagem:
   O amigo, se no me engano,  comerciante.
   No senhor.
   Empregado pblico, talvez.
   Tambm no.
   Estudante?
   Nem isso. Com licena.
  Dirigi-me  Teixeira, que entrava com um bandolim: 
   D. Josefa, o meu chapu... A senhora sabe?
   Para qu?
   Tinha necessidade de retirar-me.
  - No h necessidade. Ningum sai antes das dez horas.
    que estou meio doente. Se a senhora tivesse a bondade... 
  - No h bondade. Cura-se danando. Para o piano, Marta. 
  E obrigou-me a danar com d. Priscilla. O promotor deu o brao a Clementina, Lusa recusou Isidoro, pretextando enxaqueca. Depois o Barroca foi para o piano, a Teixeira desafinou o bandolim, arranjaram-se outros pares. A um convite silencioso de Marta sorri constrangido, declarei que, o jantar tinha sido irreprochvel. E abandonei-a ao Pinheiro, fugi para o jardim, fazendo teno de consultar, quando chegasse a casa, o dicionrio
  Sentando-me num banco, muito tempo fiquei a olhar os canteiros. Onde estaria Lusa, que desaparecera depois da enxaqueca? Talvez l para dentro, com a cunhada paraltica, ensinando-lhe remdios ou lendo a correspondncia do padre Ccero, que a boa senhora recebe com regularidade. Ainda espera arribar, coitada, com as receitas do padre Ccero.
  Voltou-me de chofre o sentimento que me havia assaltado um dio insensato a Marta, ao Corao de Jesus da viva Teixeira, a Marina Faliero, que est escondido no palcio do quadro, palcio de Veneza. Finda esta exploso irracional, que felizmente durou pouco, veio-me a recordao do que Lusa me disse uma noite, junto  gara de bronze. Ento, como agora, a lua vagabundeava l em cima, o vento agitava a folhagem dos tinhores. Mas quanta diferena em mim!
  Tinha recebido mais, muito mais do que desejava, e em consequncia as minhas esperanas haviam crescido. Tencionava poder um dia, com o consentimento dela, apertar-lhe as mos, correr os lbios por aqueles dedos brancos e finos, pelos braos, at o cotovelo. Em momentos de otimismo aventurei-me a chegar  espdua. No era uma aspirao demasiado e exigente, e eu punha tanto respeito nela que exclu a ideia de que aquilo constitusse uma traio ao Teixeira. Decidi logo que um homem to prtico no havia ainda babujado o brao de Lusa e que pelo menos esta parte do corpo dela no lhe pertencia, Convico idiota, evidentemente. Eu me contentava com o brao  e achava excessivo. Uma felicidade imensa. Era assim que eu dizia comigo mesmo. Julgava assentado que Lusa se conservaria perfeitamente honesta. E que eu seria perfeitamente feliz, aqui tudo se tornava confuso, nenhum pensamento claro me acudia. Porque a felicidade perfeita diferia da outra, imensa, e ento compreendi que as coisas indistintas do meu esprito destoavam dos nomes que eu lhes dava. Enfim, agitado por desejos oscilantes, deixei me arrastar.
  E vinha-me aquele olhar agudo, aquele rosto carregado. Talvez estivesse arrependida de me haver mostrado um pequenino sinal de afeio. No sei. Que entendo eu, pobre rapaz, da alma caprichosa das mulheres? Imaginei, num deslumbramento, que Lusa gostava de mim e tinha cimes. Isto me parece exorbitante. E pedia-lhe de longe que me dissesse: Vem; Ou que me repelisse: Deixa-me. Que me livrasse enfim daquela angstia demasiado intensa para meu pobre corao.
  - Pois voc est a, homem?  gritou Vitorino.  Venha beber caf.
  L em cima, ainda, esperei encontrar Lusa transformada. No a vi.
  - Que fez o senhor tanto tempo no jardim, e s!  perguntou-me d. Josefa.  Pensei que se tivesse escapulido sem chapu.
  - No senhora.  que l  mais fresco.
  Retirei uma xcara de bandeja, sentei-me no sof. Nazar, que agora tinha lngua destravada, tambm se sentou, alegre.
  - Oua  disse-me, enroscando-se num movimento felino, um gesto onduloso que a filha tem quando v homem.
  Os olhinhos de vbora brilhavam-lhe, e uma expresso de malcia banhava-lhe o rosto:
    - Imagine que o Dr. Castro escreveu num libelo, Provar que o ru cometeu o crime contra ascendente, descendente, cnjuge, irmo...
  - Mas eu j me expliquei.  assim que est no artigo 39  exclamou o Dr. Castro, que se tinha aproximado sem ser visto.  Escrevi assim porque  do cdigo.
  Nazar perturbou-se num instante. Depois, tranqilo:
  - Ah! O senhor estava a? Tem realmente certeza de  do cdigo? No haver engano?
   No senhor. Est assim, ipsis verbis, no artigo 39, pargrafo nono, entende como ?
   Ah! se est no artigo 39,  outro caso. Eu supus que fosse equvoco. Deve ser isso mesmo.
  Treze
  No dia seguinte o dr. Liberato, que passara a noite em casa do Mesquita, contava-nos, cheio de sono, o estado de Guiomar. Quando findou, depois de empregar uma chusma de termos esquisitos, o Pinheiro, sombrio, rosnou:
   Que tem ela?
  No mesmo instante Zacarias chegou, em busca do mdico.
   Foi a sinh que mandou chamar.
    ela que est doente? Fiz eu com um arrebatamento que espantou d. Maria Jos.
   No senhor.  seu Adrio, que no pde dormir. 
   Por qu? balbuciou o Pinheiro.
  Zacarias no soube informar. Devia ser coisa por dentro: por fora no se percebia nada.
   Est a! gaguejou Isidoro, sucumbido. Vejam que coincidncia.
  O doutor entrou no quarto e voltou com a bengala, o chapu, o estetoscpio. Dispus-me a acompanh-lo: 
   No vem, Pinheiro?
   Parece que no. Vou tomar um vomitrio.
  E, tentando apoderar-se do estetoscpio:
   Doutor, tenha a bondade de examinar este corao.
  - No h pressa. Fica para a volta.
  - Est direito. Pois espere, faam um sacrifcio. Amigo  para as necessidades, como diz o Anatole France.
  Um minuto depois apareceu, abotoado no jaqueto preto, o chapu desabado cobrindo-lhe as orelhas:
  - Vamos cumprir esse dever.
  Defronte do casaro topamos o Neves, que saa:
  - No h perigo. Mandaram a farmcia buscar remdios de madrugada. Vim ver. Tudo bem.
  - At logo!  exclamou Esidoro.  No precisam de mim. Volto. Vou daqui direitinho para a cama.
  L dentro cumprimentei Vitorino, d. Josefa, D. Engrcia, o dr. Castro. Encontrei Lusa  entrada do corredor, com os olhos vermelhos e despenteada.
  - Como vai ele?
  - Melhor.
  E introduziu o mdico na alcova onde Adrio arquejava recostado a uma pilha de travesseiros. Pela porta entreaberta distingui sobre a mesa da cabeceira copos, colheres e um crucifixo.
  - Ento, d. Josefa, como foi isso?  perguntei a Teixeira.
  - Nem sei, com aquela balbrdia. As 11:00 ouvimos pancadas, berros. Papai abriu, assustado. Era Zacarias a gritar  que seu Adrio estava morrendo. Imagine como ns ficamos. Eu nem pude arranjar-se, sa de chinelos.
  E mostrou o p nmero 33, coberto de seda creme. Fui com a vista acima do p naturalmente. O Pinheiro tem razo:  uma linda perna.
  - Imagine como eu fiquei  disse dr. Castro, que se avizinhara, familiar.  Logo pela manh, antes do banho, uma notcia assim. Que presente!
  - Quando chegamos  continuou a Teixeira, recolhendo a perna com agrado  Lusa estava numa aflio;
  - Ah! Se eu soubesse!  atalhou o dr. Castro.  Teria vindo passar a noite aqui, oferecer os meus prstimos.
  E, a um gesto de agradecimento da moa:
   Vinha, no tem que agradecer. Eu sou l homem para deixar um camarada morrer s? Se no servisse para mais, havia de servir para deitar-lhe a vela na mo. Comigo  isto. Vinha. 
   E depois que a senhora chegou, d. Josefa, que horror, hem? 
    verdade. Opresso, tonturas, nusea. A d. Engrcia, que apareceu por a (no sei como adivinhou), foi acordar o vigrio, trouxe um crucifixo. O papai em ocasies de aperto desanima. 
   No somos nada neste mundo, murmurou o dr. Castro.
    coisa de cuidado, doutor? perguntei ao mdico, que saa do quarto.
   Tem ainda um resto de dispneia, mas creio que no perigo por enquanto. Se no sobrevierem complicaes...
  E falou. O dr. Liberato no perde ensejo de gastar palavreado difcil.
   Posso ir v-lo?
   Pode. 
  Achei Adrio muito fatigado pelo esforo que havia feito. No pescoo, onde a pele amarelenta caa em dobras, os ossos avultavam. As pulsaes da cartida percebiam-se de longe. 
  Uma vela acabava de extinguir-se no castial, havia um cheiro enjoativo de ter. 
  Lusa, sentada  beira da cama, passava um leno pela testa! viscosa do marido, que a olhava com olho duro, quase irritado. 
   Ento, assim de repente! exclamei. Eu soube agora, pelo Zacarias. Uma surpresa. A d. Josefa esteve contando. 
   Uma peste! rugiu o doente. Aqui a acabar-me, sem um diabo que me desse um remdio. De manh, quando no havia necessidade, a casa encheu-se. Mas no momento do apuro, ningum. Bate-se o mundo todo atrs do mdico. Escondido, no inferno. Sozinho, homem, sozinho!
  Luisa baixou a cabea, sorrindo com tristeza. Adrio era egosta: no se lembrara da mulher, do irmo, da sobrinha, que se tinham modo a aturar-lhe os arrancos.
  - Felizmente de madrugada melhorei um pouco, tive meia hora de madorna. A comearam a aparecer intrusos, invadiram o quarto. O farmacutico... E esse bacharel de uma figa que ningum conhece.
  Interrompeu-se vendo o irmo  porta:
  - Vocs abriram o armazm?
  O armazm estava fechado.
  - Pois deviam ter aberto. Mande chamar os empregados, Joo Valrio.
  Vitorino ops-se. Aconselhei Adrio a que no falasse muito afastamo-nos.
  - Tudo est timo, bradou o dr. Castro quando nos viu. O nosso amigo desta vez ainda vai arriba, entendem?
   Como o acha voc? perguntou Vitorino arrastando-me para a varanda.
  - Nem sei. O doutor no se explica.
  -  o diabo! exclamou Vitorino.
  E, a um aceno da filha:
  - Ainda haver novidade? As macacoas deste homem no deixam ningum descansar.
  Entrou. Acendi um cigarro. Lembrei-me dos seres ali decorridos, recentes, mas que, em virtude das perturbaes que eu experimentava desde a vspera, se tornavam remotos e me davam saudade.  luz do dia, a sala era como se fosse outra. Os quadros pareciam ter descido um pouco nas paredes agora menos altas. Na poltrona de padre Atansio repimpava-se o dr. Castro, de braos cruzados, bochechudo, vermelho, feliz e sem testa.
  Olhei a rua.  entrada do Pernambuco-Novo um automvel parado atravancava a passagem. Uma carroa de lixo, vagarosa, rodava. Ao longe o arrabalde da Lagoa surgia em miniatura, dois renques de casas de boneca encarapitadas l no alto.
  - A sinh mandou saber se vosmec queria almoar. 
  Voltei-me. Era Zacarias.
  - Como?
  - Mandou chamar para o almoo.
  - Muito agradecido, respondi furioso.	
  E desejei despedir-me secamente de Lusa: "D-me as suas ordens.
  Fui  alcova nas pontas dos ps: Adrio dormia. Sentei-me  porta.
  - Venha almoar, Joo Valrio, disse Vitorino do corredor. 
  - Obrigado.
  Refleti com indignao naquele convite.
  O mdico e o promotor tinham desaparecido. Meio-dia.
  Sim senhor! Mandar o preto convidar-me! Era, sem contestao, uma ofensa mortal. Pois no tornava a pisar ali. Fosse tudo  para o diabo. Tambm no me fazia grande falta deixar de ouvir tocar piano e ver jogar xadrez, que no gosto de msica nem de jogo. Que me importava o xadrez? que me importava o piano?
  Do piano resvalei para Marta Varejo e para os quinhentos contos de d. Engrcia. Marta Varejo, muito bem. No andava ora a mostrar os dentes, ora de carranca. Pois casava com ela e havia de ser feliz, em Andara, na Tijuca ou em outro bairro dos que vi nos livros. Uma bonita situao. E o amor de Lusa, se ela me tivesse amor, s me renderia desgostos, sobressaltos, remorsos, trezentos mil-ris por ms e oito por cento nos lucros dos irmos, Teixeira.
  O criado preto! "Diga a seu Valrio que venha comer. Isto a mim, a mim que era... Procurei alguma coisa que eu fosse. Na era nada, realmente, mas tinha boa figura e os caets no segundo captulo. E vinte e quatro anos, a escriturao mercantil, a amizade de padre Atansio, vrios elementos de xito.
  O Zacarias! Marta Varejo me chamara na vspera com um sorriso. E dissera muitas amabilidades junto a um palcio veneziano, falara no baile da prefeitura, no Marino Faliero. 
  - Est dormindo? perguntou-me a Teixeira, que entrou em companhia de Luisa e Vitorino. Por que no quis almoar? 
  - No senhora, estou acordado. E no estou com fome. 
   Uma cara de poucos amigos. Que lhe aconteceu? 
   A mim? No aconteceu nada. Nunca me acontece nada. Aqui, matutando. 
  Ela deu um muxoxo e, brincalhona como uma garota:
  - Parece que este rapaz tem uma aduela de menos.
  - No senhora,  engano. Tenho as aduelas todas.
  E acrescentei:
  - Julgo que no sou necessrio, felizmente. O homem est fora de perigo.
  Disse isto com uns modos desconchavados, tomei o chapu, cumprimentei, sa, cheio de raiva. Ao atravessar o porto, dei uma topada e esbarrei com o Silvrio, que passava.   
  Cheguei a casa resolvido a insultar algum. No insultei, ou antes insultei mentalmente.
   Os outros j almoaram, d. Maria Jos? interroguei entrando na sala de jantar. 
   J. Esperaram meia hora. Como o senhor no veio... 
   Est bem, traga-me uns ovos, um pedao de po. No tenho apetite. Traga-me logo um pouco de conhaque. 
  Ela trouxe a garrafa. Desprezei o clice e deitei poro razovel num copo.
   O senhor vai beber isso tudo? 
  Fiz um movimento sombrio de afirmao: 
   Tenho andado com vontade de suicidar-me, d. Maria. 
  E bebi.
  Ela afastou-se rindo, com uma cova no queixo redondo, as mos nos bolsos do avental. Suportvel, apesar de madura  quase quarenta anos. O Pascoal no estava mal servido. To simptica, to simples, os cabelos muito pretos, os olhos grandes, midos... Quando, passados instantes, voltou com um bife e dois ovos estrelados, ainda ria. No acreditava que gente de juzo pensasse em suicdio. O Pinheiro, homem de juzo, tinha estado toda a manh apalpando o corao, com medo.
    verdade, amanheceu cardaco. Esse animal ainda est vivo, d. Maria Jos? gritei com a boca cheia.
   Est. Zangou-se com o doutor, almoou, tomou um ch de macela e foi jogar bilhar com o Pascoal. O senhor quer mais alguma coisa? acrescentou vendo que eu tinha devorado o bife, um po, os ovos e a sobremesa.
   No senhora. Eu julgava que no estivesse com fome, e at almocei. Deve ter sido por causa do conhaque.
  Notei ento que a clera se havia dissipado. Devia ter sido tambm efeito do conhaque. Afinal convidar uma pessoa por intermdio de outra no  desfeita. Compreendi que, se Lusa me tornasse a olhar como um dia me olhou junto  gara displicente, Marta Varejo, com os seus livros franceses, suas msicas e suas flores de parafina, rapidamente se extinguiria.
   Impostora! resmunguei deitando acar no caf. Hipcrita! "Festa de muita piedade..."
  Com a doena intempestiva de Adrio, tinha-me esquecido do jantar.
  Uma estopada. O presidente da junta escolar aprovando tudo, Clementina e d. Josefa conversando por cima de mim, Evaristo Barroca a mexer poltica, padre Atansio aperreado com a instruo, o crime de Manuel Tavares e o homem das clulas, Miranda Nazar falando nas barbas de Abrao... Isto me fez pensar no Jos de Alencar, que tambm foi um cidado excessivamente barbado.
  Da passei para Iracema, da Iracema para o meu romance, que ia naufragando com os restos do bergantim de d. Pero. No era mau tentar salv-lo, agora que, com o armazm fechado, eu podia dispor da tarde inteira. Decidi-me antes que o entusiasmo esfriasse.
   A senhora s tinha a xcara de caf que me trouxe ou ainda tem mais, d. Maria?
   Tenho, sim senhor, tenho um bule cheio. 
  - Um bule? Pois traga-me outra xcara, por obsquio. Traga o bule cheio. Estou com muita necessidade de tomar caf. 
  Enquanto bebia, esforcei-me por me colocar na situao de um sujeito que vai escrever uma obra de valor.
   A senhora conhece Coruripe da Praia, d. Maria Jos? 
  D. Maria Jos no conhecia.
  Entrei no quarto, abri a janela que deita para a rua, tirei o manuscrito da gaveta. A dificuldade era apanhar os portugueses que tinham escapado ao naufrgio, amarr-los, lev-los para a taba e preparar um banquete de carne humana. Trabalhei danadamente, e o resultado foi medocre. Sou incapaz de saber o que se passa na alma de um antropfago. De indivduos das minhas relaes o que tem parecena moral com antropfago  o Miranda, mas o Miranda  inteligente, no serve para caet. Conheo tambm Pedro Antnio e Balbino, ndios. Moram aqui ao p da cidade, na Cafurna, onde houve aldeia deles. So dois pobres degenerados, bebem como raposas e no comem gente. O que me convinha eram canibais autnticos, e disso j no h. Dos xucurus no resta vestgio; os da Lagoa espalharam-se, misturaram-se.
  Em falta de melhor, aproveitei os ltimos remanescentes dos brutos da Cafurna, tirei-lhes os farrapos com que se cobrem, embebedei-os, besuntei-os  pressa, agucei-lhes os dentes incisivos. Matei alguns brancos, pendurei-os em galhos de rvores e esfolei-os, com a ajuda do Balbino. Depois entreguei-os s velhas, entre as quais meti a d. Engrcia, nua e medonha, toda listrada de preto, os seios bambos, os cabelos em desordem, suja e de ps de pato.
  De repente levantei-me, fui  sala de jantar, chamei:
    d. Maria Jos, faa o favor. A senhora sabe como se prepara uma buchada?
  Ela veio, paciente, enxugando os dedos no avental:
   Sei. O senhor quer comer buchada?
   No. Isso  comida de selvagem. Os caets. Depois lhe conto. 
   Mas que interesse...
    histria comprida. Preciso saber como se cozinha um homem. Como , d. Maria?
   Um homem? Est a! Foi o conhaque. 
  E voltou-me as costas.
   Espere l, criatura. Quem lhe falou em homem? Um bode,  claro, um carneiro. Tira-se o couro do bicho, esquarteja-se. At a eu sei. Como  o resto? 
   Lava-se tudo muito bem lavado, comeou a hospedeira desconfiada.
   Exatamente, numa gamela, j ouvi dizer. E viram-se as tripas pelo avesso com uma vara, tambm j ouvi dizer. Mas os caets no tinham higiene. 
   Como?
   Uma observao  toa. Continue. 
    s, est pronto.
   Pronto o qu, d. Maria? A senhora no est vendo que ningum vai comer aquilo cru? 
  Ela forneceu-me algumas noes, que reputei preciosas.
   Muito obrigado, d. Maria Jos. Vou preparar o Sardinha pela sua receita e misturo tudo com piro de farinha de mandioca. Fica uma porcaria.
   O senhor no quer tomar uma xcara de caf sem acar? 
   Eu? Pensa que estou bbedo? Estou no meu tino perfeito. A propsito, que horas so?
   Cinco. Os outros no devem tardar.
  Cinco? Ser possvel? Ora veja. A arte  coisa admirvel. Com a preocupao de arranjar o jantar dos ndios, esqueci o meu jantar. Pois eles que esperem, no comem hoje. E traga-me o conhaque. Deus lhe pague, d. Maria. A senhora acaba de prestar um grande servio  ptria.
  Catorze
   noite fui  casa de Adrio, informar-me da sade dele. Encontrei-o na sala, enchumaado, cercado de amigos.
  Inquietou-me a presena de Marta, e simulei distrao, com medo de perceber-lhe algum olhar equvoco. Parecia-me que Luisa alcanava as infidelidades da minha imaginao.
  Padre Atansio, com o seu sistema de discutir por fragmentos, retomara algumas ideias embrulhadas da vspera e arremetia contra os positivistas. Na opinio dele, Augusto Comte era idiota. Por qu? Porque no tinha juzo. E interrogou-me com um movimento de cabea.
  Declarei que aquele senhor era, no obstante, um inspirado poeta, e logo me arrependi de ter falado. Sei realmente, sem nenhuma sombra de dvida, que Augusto Comte foi grande, mas ignoro que espcie de grandeza era a dele. Depois serenei, porque ningum ali, excetuando Nazar, compreendia um disparate.
  No houve contestao. Nazar arregalou o olho de vbora e padre Atansio encolheu os ombros.
  Mas a conversa arrastava-se com dificuldade. O piano fechado, o tabuleiro de xadrez esquecido, a ausncia de Isidoro, o desaparecimento do da Liberato, que, aps duas visitas curtas, voltara ao Mesquita, tudo concorria para alterar a feio do lugar. Alm disso trs personagens novas vinham aumentar a impresso de estranheza que aquilo dava: d. Priscilla Fernandes, d. Josefa, ausente o ano inteiro, e o dr. Castro, ntimo de todos.
  No silncio que se fez quando o vigrio acabou de enterrar o positivismo, o tique-taque da pndula cresceu. Procurei o mostrador: do ponto em que me achava no se percebiam os nmeros. Aguardei a primeira pancada para me retirar.
  Do sof veio o sussurro de Clementina e de Marta. Nazar, a quem o xadrez faz falta, aproximou-se da mesa, sem se atrever a convidar Adrio, que bocejou disfaradamente. D. Josefa, tresnoitada, esfregava as plpebras. Vitorino cabeceava, como sempre.
  Afinal d. Engrcia levantou-se, tomou o guarda-chuva, recomendou uma tisana infalvel, abaixo de Deus, saiu com a pupila. Num momento a sala se esvaziou. S ficaram Vitorino, a filha e d. Priscila, que dormiam l. E eu, que esperava a pancada do relgio, ergui-me tambm: 
   No sei se me v embora. Precisam descansar. Em todo o caso, se houvesse necessidade, eu tinha muito gosto...
  No havia necessidade.
   O que desejo  que sejam francos. No me custa.
   Muito obrigado, disse Vitorino. V dormir.
   Pois ento... No quero ser importuno, adeus. E se houver uma recada, o que Deus no permita, faam o favor de avisar-me. Mandem bater na janela do meu quarto. Eu tenho o sono leve.
   Perfeitamente.
  J na calada, notei que Lusa vinha fechar o porto. Estranhei v-la tomar ocupaes de Zacarias. E, numa exaltao instantnea:
   D. Lusa, que foi que lhe fiz ontem?
  Julguei descobrir-lhe uma expresso de terror nos olhos, desmedidamente abertos, e insisti:
  - Foi uma ofensa, creio. No sei. Tenho procurado ver se adivinho.
  Ela tremia.
  - Diga, pelo amor de Deus, gemi. Diga depressa. 
  - No houve nada.
  Cerrou o porto e levou uma eternidade mexendo na chave para tranc-lo.
  - Vamos! tornei com desespero, o rosto colado  grade. Para que me trata desse modo? Que lhe fiz eu?
  - Nada. V-se embora, bradou Lusa com uma voz irritada que eu nunca lhe tinha ouvido.
  E, metendo a mo entre os vares de ferro, empurrou-me a cabea e fugiu.
  Dei alguns passos cambaleantes, a experimentar ainda no rosto o contacto dos dedos dela. Passados minutos, reconheci que, em vez de me dirigir a casa, andava para o lado oposto, estava  beira do aude. Encostei-me a uma das balaustradas que limitam o paredo. Mas no era a gua negra que eu via, nem os montes que se erguiam ao fundo, indistintos. Na escurido surgiu um colo decotado, o vento agitou uns cabelos louros, uns olhos azuis brilharam. Longos dedos brancos tocaram-me o rosto. Recuei titubeando.
  Dois sujeitos que desciam do alto do cemitrio, afinando violes, pararam curiosos a pequena distncia, riram, como se eu estivesse embriagado. Presumo que estava realmente embriagado. Tartamudeava:
  - O fim das coisas...
  Esta frase foi repetida muitas vezes.
  Subitamente increpei-me com amargura por me no haver apoderado daquela mo que me repelia, no a ter coberto de beijos. Sou um desastrado. 
   E era o que eu ambicionava, era s o que ambicionava, disse baixinho, depois mais alto, para convencer-me de que no mentia.
  Embalei-me com a cadncia das palavras suponho ter ficado com o crebro entorpecido.
  Despertei com uma ideia esquisita, que me fez rir: o Balbino transformado em caet de 1556. O Balbino, um pobre diabo coxo e bbedo, esfolando um homem pendurado por uma perna. Mas logo enxotei este pensamento mesquinho que toldava a passagem mais brilhante da minha vida.
   Aurora! aurora! aurora! gritei s casas vizinhas, s sombras das rvores, a um co vagabundo que passava. 
  Nada em redor pareceu compreender que havia uma aurora e que aquelas trevas eram absurdas. 
  Olhei os astros. No conheo nenhum, mas precisei comunicar com eles, repartir com a imensidade uma aventura que me esmagava. Bradei: "Lusa me ama! Estrelas do cu, Lusa me ama!" Imaginei que as estrelas do cu ficavam cientes e isto me deu satisfao. Uma delas tremeluziu mais que as outras, respondeu-me de l, vermelha e grande. Desejei saber o nome daquele sol complacente. Belatriz? Altair? Aldebar? No conheo nenhum. Se eu fosse selvagem, met-lo-ia entre os meus deuses. No estava ali ningum que me pudesse informar. 
  Os violes tocavam longe, para os lados da rua de Baixo. 
  Afastei-me cheio de uma vaga tristeza por no ser selvagem.  porta da penso encontrei o dr. Liberato, que me perguntou:
   Vem l do Adrio? Como vai ele? 
   Bem, creio que vai bem.
    isso. Por ora no h perigo. 
  E atacou-me:
   A aorta...
  - Espere a, doutor, atalhei com medo da exposio. Como  que se chama uma estrela vermelha que est agora por cima dos morros do Tanque?
  - Que interessa isso? fez o mdico ligeiramente desconcertado. Voc quer aprender astronomia?
  - No,  c uma dvida. Muito grande, muito brilhante... Ser Aldebar? Uma vermelha. O doutor sabe?
  - O dr. Liberato confessou com secura que no entendia de estrelas.
  Quinze
  Estvamos sentados  mesa, fumando, quando bateram palmas l fora. D. Maria Jos foi ver e tornou logo:
  -  a criada de d. Engrcia que tem negcio com o senhor. 
  - Comigo?
  - Sim senhor.
  Levantei-me, atravessei o corredor vagarosamente.
  - Que  que h? perguntei a Casimira, que esperava  porta, grave, barbada, o rosto cheio de verrugas.
  - Um livro que a menina mandou.
  Entregou-me o volume.
  - Um livro? Ah! sim! sei o que , um romance. Muito obrigado, diga a d. Marta que estou muito obrigado. Isto  uma obra excelente, do Centro da Boa Imprensa, uma obra importante. Edifica. Amanh devolvo.
  Casimira arregaou os beios num sorriso escuro e gaguejou frouxamente, com modos de cumplicidade:
  - Ela quer saber se o senhor vai ao cinema... se vai  missa.
  - O cinema... respondi atarantado. A missa... No posso, estou com febre.
  -Talvez fosse melhor escrever. 
  Ia oferecer dez mil-ris a Casimira e pedir-lhe que esquecesse o recado, mas considerei que ela havia sido ama de leite de Marta e era uma alcoviteira honesta.
   Escrever? Para qu? Basta isto: doente, gripado. No posso ir, sinto muito. A senhora no est vendo que sinto muito? E estou agradecido pelo romance. Amanh devolvo. Diga a ela. 
  Entrei no quarto, joguei a brochura em cima da cama, voltei para a sala de jantar.
   Que tinha com voc a d. Engrcia? inquiriu o Pascoal, indiscreto.
   Negcio l do escritrio, uma questo de juros. Nem sei, um desastre. 
   Prejuzo para voc? 
   No,  transao com a firma, uma conta corrente. 
   Pois endireite essa cara, homem, fez Isidoro. Ns no temos culpa da conta corrente da d. Engrcia. Vamos  novena. 
  Fomos todos. Mas quando penetramos no Quadro, cheio de luz e rumor, pensei em retroceder. E, ao passar pelo Bacurau:
   At logo. A igreja, com este calor,  fornalha. Uma cerveja bem gelada, amigo Bacurau. Tornem cerveja. 
  Recusaram e deixaram-me. Fiquei refletindo naquele procedimento de Marta. Um namoro, evidentemente, com o auxlio de Casimira. No me convinha. E dizem que Deus d o frio conforme a roupa! 
   No carnaval estive meia hora a tagarelar com ela e ouvi um provrbio que me atrapalhou, em francs. Desejei-a depois, por insinuaes do Pinheiro. Nesse tempo ela andava com a cabea virada para o Mendona filho, que vale mais que eu. Voltava agora, infelizmente fora de propsito. Censurei-lhe o mtodo. Um romance emprestado, a interveno de Casimira, que estragava tudo. Pulhices. Sem se comprometer, pedindo-me de longe que lhe escrevesse. Tive pena. E mastiguei as evasivas que usamos no armazm para evitar fregueses importunos: No pode ser, minha querida senhora. Estou aflito, acredite. Se tivesse aparecido antes, ali por maro ou abril... Agora  inteiramente impossvel. No disponho de meios."
  No dispunha. Toda a minha alma estava empregada em adorar Lusa. E Lusa havia subido tanto que muitas vezes me surpreendi a confundi-la com a estrela amvel que avultara em cima do morro, na antevspera. Altair? Aldebar? No conheo as estrelas. Nem conheo as mulheres. Que ser Lusa? que haver nela? No sei.
  Emergi destas filosofias ordinrias e gritei ao rapaz: 
  - Traga a cerveja, Bacurau. Que demora! Acorde. 
  - Um minuto, seu Valrio. 
  Com os cotovelos na mesa de ferro, enquanto esperava que Bacurau se desenroscasse l dentro, olhei distrado o largo, que se ia enchendo. Nas lojas, exposies de objetos vistosos. Os cavalinhos comeavam a rodar. Pejavam a praa longos renques de barracas. A iluminao pblica estava aumentada. Na frontaria da casa de d. Engrcia penduravam-se lanternas de papel, e as janelas, que nunca se abrem, escancaravam-se.
   Que  que h pelo convento de d. Engrcia, Bacurau? perguntei quando o rapaz trouxe a cerveja.
   Um prespio. A d. Marta encomendou ao Cassiano aleijado trs reis magos, um boi e uma jumenta de barro. D. Josefa Teixeira passou o dia l, ajudando. Fizeram um rio com areia da praia e seixos midos em cima de um espelho. Pronto, seu Nicolau. Genebra?
   Que genebra! Eu bebo genebra! Conhaque, disse Nicolau Varejo arrastando uma cadeira para a minha mesa. Um conhaque bom. Que histria de rio esse sujeito estava contando, Joo Valrio?
  Expliquei que era uma obra de ate realizada pela filha dele, com areia e pedras. Nicolau Varejo ficou encantado.
  Anuviou-se-lhe depois o caro trigueiro, que as bexigas picaram. Bebeu um trago de conhaque e puxou o chapu para testa. Por baixo dos culos brilharam lgrimas. Pobre homem! Adora a filha. E no pode falar com ela, que se envergonha dele, volta o rosto quando o encontra. Mas a perturbao durou pouco:
   Bonito, o prespio, hem? No podia deixar de ser bonito,  uma fada, tud quando sai daqueles dedos sai benfeito. Vo( tem cigarros a? Hei de querer admirar esse prespio. Esqueci os cigarros. D c um cigarro.
  Dei-lho. Resolvi no ler o romance do Centro da Boa Imprensa.
   Faz uma semana que ela me chama para mostrar esses arranjos de Natal, prosseguiu Nicolau Varejo. E eu, ocupado com a lavoura, o ocultismo, a poltica... Sou um ingrato. Hoje pela manh tirou-se de cuidados, foi  minha casa. Que casa! Eu tenho casa! Foi ao chiqueiro onde moro, no Sovaco, abraou-me, disse um palavreado que me entrou no corao.  um anjo. 
  Coitado! Tem Marta em conta de anjo. Esconde-se para no desgost-la;  passagem das procisses, tranca as portas, Quando est morrendo de fome, escreve-lhe uma carta, e ela manda-lhe pela Casimira vinte mil-ris.
   Todo o mundo sabe, continuou o velho, no h outra. Em instruo, Jesus!  um assombro. Como diabo pde ela aprender tanto, tendo um pai da minha laia? Que eu dessas encrencas de particpio no pego nada. Catorze lnguas! a pequena sabe catorze   lnguas! At francs, homem! at latim, suo e lngua do Mxico. Boa noite, doutor. Era o dr. Castro, que se tinha sentado perto.
   Adeus, disse Nicolau Varejo baixando a voz. No gosto da cara desse promotor. Vou ao prespio. 
  E berrou:
  - Bacurau, outro conhaque.
   Levantou-se, bebeu, meteu a mo no bolso:
  - Sim senhor. Quero apreciar esses reis de barro e esse rio de areia da praia. Veja quantas mulheres haver por a com aquela capacidade. Um rio! At parece obra da Divina Providncia. Voc pagou a cerveja?
  - Deixe l, no se incomode.
  - Pois sim. Pague tambm o conhaque.
  - Beba mais.
  - Est doido? Se beber mais, entro na carraspana e perco os bonecos do aleijado. At mais logo. Deus o ajude.
  - Quem  esse sujeito? perguntou o dr. Castro quando Nicolau se retirou.
  - Um santo.
  - Que faz ele?
  - Nada. Passeia pela Cafurna, pelo Tanque, pelo Xucuru, e dedica-se a espiritismo e esoterismo.  um vagabundo. S. Nicolau Varejo, mrtir, uma das melhores coisas de Palmeira dos ndios.
  - Vagabundo e bom homem? Ora essa!
  - Por que no? Um santo. Como vai Manuel Tavares? 
  Antes que ele respondesse, chamei os companheiros de penso, que desciam o Quadro:
  - J de volta? Que houve por l?
  - O costume, disse Pascoal. Msica, flores, cantigas... 
  Lusa teria ido? Puxei Isidoro por um brao:
  -  Pinheiro, chegue c. O Adrio foi  novena?
  - Creio que no. Quem esteve l foi a Marta com a Teixeira. Pareciam umas imagens. Eu, se fosse turco, casava com as duas. Para que quer voc o Adrio?
  -  a conta-corrente de d. Engrcia. Os juros...
  - Ah! sim! A d. Engrcia, os juros. No foi. Provavelmente vai ao leilo. Talvez o encontre no cinema.
  Eu no ia ao cinema.
  - No? Ento meta-se em casa, deite-se. Quando a gente se aborrece, o que deve fazer  dormir. Pois eu aproveito. Festa  festa, e avistei uma criatura admirvel, matutinha, quero ver s agarro aquilo. Venha at o cinema, pode ser que o programe agrade. Os senhores ficam? 
  Ficavam. O dr. Liberato j comeava a impingir anatomia ao dr. Castro, e o Pascoal preparava um grogue. 
  Samos. Diante do teatro escondi-me na multido para evitar Marta, d. Engrcia e a Teixeira.
   Voc reparou nas olheiras da Marta? perguntou-m Isidoro quando elas passaram. Est linda. Aquilo  falta de macho. Coitadinha. Eu nem gosto de pensar, fico todo arrepiado, Vamos ver o programa. 
  Aproximou-se de um cartaz:
   Vida, paixo e morte de Nosso Senhor Jesus Cristo. Voc no entra? 
   No. A que hora comea o leilo?
   O leilo? Ah! sim! Os juros. Deve ser daqui a pouco. Ciao como diz o Pascoal. Vou procurar a matuta. 
  Dei uma volta lenta na praa. Da rua Floriano Peixoto, dos Italianos, da travessa da Cadeia, dos dois buracos que vo ter a Pernambuco-Novo, escuros magotes afluam. Na padaria da esquina roceiros, encostados ao balco, enchiam as algibeiras. Na farmcia Neves, gesticulando e espumando, Balbino pedia um remdio. O boticrio, caceteado: 
   Traga a mulher, cavalgadura.  preciso examin-la. E o ndio, ranzinza: 
   Ora trazer! Se ela pudesse vir aqui, no estava doente. Vosmec no  sabido? Ento d a mezinha. 
  J comeavam a embriagar-se nas palhoas onde se vendiam bebidas. 
  Ao passar pela casa de d. Engrcia, vi na sala uma floresta de crtons, as paredes enfeitadas de palmas verdes, o prespio com um menino Jesus de biscuit, as figurinhas do Cassiano, uma estrela de lata, o clebre rio de areia da praia e vidro. Sentada, com a boca aberta, Casimira dormia.
   entrada da rua de Cima bordejava o doutor juiz de direito, cambaio.  esquina da praa da Matriz avistei d. Emiliana Teixeira velha, magrssima e coberta de sedas. 
  Ouvi os gritos de Romualdo, pregoeiro:
  - Dez tostes me do por uma penca de flores muito cheirosas, que de mimo deram a Nossa Senhora do Amparo. 
  Anatlio, outro pregoeiro, berrava tambm:
  - Afronta fao e mais no acho. Se mais achara, mais tomara. 
  Acerquei-me da mesa carregada de frutos, bolos, pssaros enfeitados de fitas, pratos de ovos e caixinhas de segredo. Cumprimentei senhoras apertadas em bancos incmodos: d. Priscilla e Fernandes e Clementina, juntas, a mulher do administrador, as xifpagas.
  Luisa no estava. Desanimado, rondei por ali, procurando alguma coisa para oferecer a Clementina. Nem um jarro, nem lua estatueta, nada. Encostei-me a um poste da linha telegrfica, reparei num grupo de rapazes e de moas que no conseguiam lugar nas bancadas e se apinhavam nos degraus da igreja. Distraa-me a contar meia dzia de namoros, quando Nazar me interpelou:
   J sabe? O Xavier foi demitido.
   Que est dizendo? Isso pode ser? Um funcionrio que vem da monarquia! Que horror!
  E falei em Xavier filho, h muito tempo estudante de medicina. Luta desesperadamente e no consegue terminar o curso.
   Que misria!
    verdade, prosseguiu Nazar. O Evaristo embirrou com ele, e com razo. Tiraram-lhe o emprego.
   Que razo! Pense na famlia do Xavier. Mais de dez filhos! Bandalheira.
   Mais de dez filhos,  exato. Quanto a isto ningum tem culpa, que a filharada foi ele que fez, ou algum por ele. Era necessrio colocar na secretaria da prefeitura um sobrinho do Evaristo.
   Outro? Deve ser como o promotor. Boa amostra.
   Sim, efetivamente  um belo moo.
   Um sendeiro.
   Sendeiro? De forma nenhuma.
   Foi o senhor mesmo que disse, em casa do Vitorino. A histria do libelo... Foi o senhor.
   Ninharia.  um rapaz simples, no tem orgulho. 
   E que orgulho pode ter um cavalo como aquele?
   Pode, respondeu Nazar esfregando o espanador que lhe adorna o queixo. Pode. Tem a carta, e isto vale um pouco. Vale muito. Ora veja. Se ns andssemos l por cima, dirigindo esta gangorra, havamos de governar muito bem, comamos tudo. E eu sou tabelio desde que nasci, e no passo disto; voc  guarda-livros...
   Mas eu acho a minha profisso melhor que a dele.
   Histria! Um bacharel  um bacharel, chega a deputado, a desembargador. V l pensar em ser ministro escriturando a cachaa do Teixeira. 
  Guiado pelo olhar dele, descobri junto  mesa o dr. Castro, feliz e papudo, mostrando os dentes e despejando sobre Clementina o brilho dos seus olhos pretos. Ela roava-se no encosto do banco e espiava-o por cima do ombro de d. Priscilla. Compreendi o reviramento de Nazar. Estava tudo em ordem. E lembrei-me do provrbio que Marta me disse uma noite: Qui se ressemble... Esqueci o resto. Era bonito e rimava, terminava em emble. Uma frase magnfica para os outros julgarem que eu digo que no sei francs por modstia. 
  Vendo Zacarias, que se afastava depois de ter deixado uma caixa sobre a mesa, despedi-me rapidamente de Nazar.
  - Olhe c, Zacarias, disse ao preto, que alcancei ao dobrar a esquina. Como vai seu Adrio?
  - Est bom, comendo castanha. 
  - Voc sabe se ele vem ao leilo?
  - No vem, no senhor. Nem ele nem ningum l de casa. A sinh mandou uma prenda, e s  meia-noite, pra missa. 
  - Meia-noite?
  Dei-lhe uma prata. Logo achei aquilo inspido e deserto. Os namoros nos degraus da igreja irritaram-me.
  Desci a rua Deodoro. Com que me ia ocupar at a hora da missa, no havia nada que prestasse.  entrada da rua de Baixo fiquei dez minutos vacilando. Fui  redao da Semana. Fechada. Adiantei-me at a Boca-de-Macei. Voltei, andei  toa pela cidade, para matar o tempo. Entrei no Pinga-Fogo, estive quinze minutos sentado num monte de dormentes. s dez horas achava-me defronte da usina eltrica, observando, atravs das grades, o motor. Seguia com interesse as rotaes do volante e tentava adivinhar a inteno de uns ferrinhos caprichosos, que sempre me intrigam, quando Maria do Carmo se abeirou de mim, pediu-me cinco mil- ris. Dei-os, perguntei-lhe se tinha recebido notcias do marido e se ainda continuava a engan-lo. Ela jurou que nunca havia enganado ningum. E roou-me as roupas, num movimento de gata. Desviei-me com uma pudiccia que no tenho e encaminhei-me para o largo.
  Perto dos cavalinhos encontrei Isidoro misturado a uma leva de matutos.
  - O negcio vai em bom caminho, segredou-me.  aquela, de vermelho. J paguei dezoito corridas, essas criaturas gostam de rodar.
  E apontou uma cabocla enorme, de venta chata.
  - Aquela?
  -  feia de cara, mas eu no me importo com a cara. Olhe o resto, veja que eu peitaria. E adeus. Nisto de cavaes a gente deve estar s.
  Sa, muito divertido com a conquista do Pinheiro.
   Onde tem estado o senhor escondido, que ningum lhe pe os olhos em cima?
  Era d. Josefa, que passava com Marta. Apanhado de surpresa e sem poder fugir, tirei o chapu, balbuciei:
   Meio adoentado, com febre. No pude ir ao cinema. 
   Mas no deve expor-se, opinou Marta. O sereno faz mal, 
   Talvez faa. Vou recolher-me de novo.
   Est plido.
  E aproveitando um momento em que a Teixeira escolhia bugigangas num bazar, sussurrou-me algumas palavras em tom interrogativo. Respondi que sim, sem compreender.
   Pois devemos ir logo, que a missa no tarda. Josefa, seu Valrio quer ver o prespio. Vamos mostrar-lhe o prespio.
   O prespio?  isso mesmo, concordei. Realmente. Vamos ver o prespio.
  Fomos.
   O senhor est muito beato, gracejou a Teixeira quando entramos. Vem tambm adorar o menino Jesus.
   No senhora, vim por curiosidade. Ouvi dizer que tinham arranjado um servio decente, quis admirar. E  um primor, com efeito, no falta nada. Boa noite, d. Eullia. Boa noite d. Isabel.
  O cumprimento foi endereado a duas velhotas, que mal o retriburam: d. Eullia Mendona, grande, e d. Isabel Mesquita, pequena, encarquilhada e quase cega, ambas de preto, extasiadas diante das figurinhas que adornavam a estrebaria.
  Marta fez um gesto de aborrecimento. E logo se apossou das visitas, com aqueles modos encantadores que sabe ter, perguntou pelas duas Mendona e pela sade de Guiomar Mesquita.
  As Mendona, por a, juntas, como sempre; Guiomar, melhor, graas a Deus. D. Isabel achou o prespio uma beleza. E voltou a contempl-lo, pondo-lhe em cima o nariz armado de culos. Marta, aflita, pareceu invocar a proteo de Casimira. E agradeceu. Aquilo era uma brincadeira, s para auxiliar o pobre do aleijado.
   Maravilha est em casa de d. Emiliana. As senhoras viram? O menino Jesus  de prata.
  As devotas safaram-se, levadas pela imagem de prata da viva Teixeira.
   Uma perfeio, o rio, murmurei. Muito branco, cheio de pedras, e largo, um rio que faz gosto.  trabalho seu, d. Marta? E aqueles patinhos de celulide do uma graa... Que rio ser esse, d. Josefa?  o Amazonas? 
  Elas aventuraram que talvez fosse o Jordo.
   O Jordo?  verdade, deve ser o Jordo. Onde foi que Jesus nasceu? Em Nazar... ou em Belm... O Jordo fica por essas bandas. As senhoras sabem se ele passa por Nazar... ou por Belm? Em todo o caso deve passar perto. O Amazonas, que doidice!  o Jordo, sem dvida. Pois sim senhoras, um Jordo excelente.
  Receberam o elogio, srias.
   E as estatuetas do Cassiano esto magnficas.
  - Padre Atansio diz que ele promete, atalhou Marta.
  - A senhora leu na Semana? Duas colunas na primeira pgina. Padre Atansio entende. E so interessantes as figurinhas. Um bocado pequenas, menores que o menino Deus.
  - Querem tomar caf? perguntou Casimira.
  Entrou. Quando voltou, com uma bandeja, a Teixeira asseverava que havia proporo nas figuras, falava em planos.
  - Planos, d. Josefa? No percebo, deve ser isso. Mais acar?
  - Isso j passa de onze horas, exclamou a Teixeira chegando a uma janela. O senhor ouviu se bateu a segunda chamada?
  - A segunda chamada... respondi tomando-lhe a xcara vazia. Ouvi tocar o sino, mas no sei se era a segunda.
  Estivemos um instante calados.
   No cinema hoje, d. Marta? perguntei para quebrar o silncio. Hoje, dia de festa de igreja! 
   Era uma fita religiosa, explicou Marta sisuda. E a madrinha queria ver a ascenso.  
  - O Pinheiro me contou, menti. Uma ascenso de chupeta e milagres muito razoveis. A multiplicao dos pes. E dos peixes. Diz o Pinheiro que foi peixe a dar com um pau. A senhora com certeza vai  missa.
   Deve ter sido a segunda, opinou a Teixeira da janela. As Mendona passaram, e a gente do Xavier, e a Clementina com o promotor de banda. Aquilo pegar? Deem-me vocs um minuto de licena. J venho. 
  Casimira tambm se retirou, levando a bandeja. 
   At que enfim! murmurou Marta, nervosa, denunciando-se inteiramente. 
  Com o cotovelo sobre a toalha branca da estrebaria, contemplei estupidamente o Jesus de biscuit, rosado e nu, a estrela de lata que servira de guia aos reis de barro. Julgo que Marta estava, como eu, embrutecida. Tremiam-lhe os dedos, escapou-lhe um suspiro, que me lisonjeou, mas no diminuiu a perplexidade em que me achava.
   Deve ter sido a segunda, arrisquei por fim. Um timo Jordo, sim senhora, com os patos. E muito obrigado pelo romance. Amanh devolvo. Que diabo faz a d. Josefa l dentro tanto tempo? 
  Ia neste ponto, esfregava as mos e procurava meio de escapar-me, quando Lusa chegou  porta, em companhia de d. Engrcia, d. Priscilla e Vitorino. A Teixeira, que veio pouco depois, apontou-me com um gesto cmico: 
   Por aqui, em adorao. Estava l embaixo, no bazar, chorando com febre. Quis por fora ver o prespio, tanto fez que o trouxemos. Sabe muito: a geografia da Palestina e o Evangelho.
  Lusa atirou-me um olhar de desprezo, tive a impresso que em mim havia um desmoronamento. Nada opus aos gracejos da Teixeira. Emergi penosamente do fundo da minha misria, dei as boas-noites, a d. Engrcia e a Vitorino, articulei tremendo:
   Como vai, d. Lusa? J me informei da sade de seu Adrio. Julgo que melhorou.
  - Vai muito bem, respondeu Lusa.
  Mas este muito bem, pelo modo como foi pronunciado, no podia ser uma resposta  minha pergunta. Era um aplauso sarcstico ao que ela, no dia do Marino Faliero, imaginara talvez haver entre mim e Marta.
  Muito bem! E ningum entendeu. Vitorino bocejava, d. Josefa ria como uma doida, d. Engrcia cantarolava um bendito. Marta acolheu com ingenuidade o sorriso estranho de Lusa. 
  - Toca para a frente! comandou d. Engrcia. E no precisam mais tinta na cara. Que despotismo de tinta! Casimira, pelo sim pelo no, traga o guarda-chuva. Marcha! Os homens atrs e as mulheres adiante, era assim que no meu tempo se fazia. 
   O senhor est indisposto? perguntou-me a Teixeira ao sairmos. Eu pensava que a doena fosse mentira.
  - E era. Estou bom, agradecido.
  Deixei-me levar pela multido, sem saber se ia para a missa ou para a forca. O Quadro se esvaziava, toda a gente subia para a igreja. Ao chegar  rua de Cima, estaquei, despedi-me. 
  - No vai? inquiriu Marta espantada.
  - No senhora.
  - Quando eu digo que o senhor no tem juzo! galhofou a Teixeira.
  E deu-me uma risada na cara. 
   isso mesmo. Boa noite. 
  Lusa nem voltou o rosto.
  Desci a praa lentamente, aniquilado, aos encontres, na turba que se deslocava em direo oposta. Nuvens de poeira levantavam-se, toldando as luzes. Uma velha interrogou-me quase chorando:
   Meu senhor, viu por a um menino de chapu de palha!
  No largo, onde s ficaram os donos de botequins, percebi um vulto junto ao convento de d. Engrcia. Era Nicolau Varejo, que esperara a ausncia da famlia para ir contemplar os objetos que as mos da filha tinham tocado.
  Dezesseis
  Recostei-me na cadeira, espreguiando-me. Quatro horas de insnia e um pesadelo. Cruzei as mos sobre a mesa e olhei os ps do italiano. Ali estava em que haviam sido empregados, muito mal empregados, os ltimos cinquenta mil-ris que d. Maria Jos me extrara. Sapatos, meias de seda para aquele malandro.
   Deitaram fora o Xavier, hem, Pascoal?
    verdade, disse Pascoal sem interromper o desenho em que se esmerava.  pena.
  Mas naquele momento no senti pena do Xavier. Acima dos desastres alheios estava a desgraa imensa que me afligira na vspera.
  Muito bem! Com duas palavras Lusa me havia suprimido. Considerei-me extinto. Ningum compreendera o movimento de repulsa. Era como se ela me houvesse ajoujado  outra.
  Abri uma revista, li versos e notei ao findar que no tinha percebido nada.
  - O  Que fez voc ontem o resto da noite, Pinheiro? Sempre conseguiu derrubar a matuta?
   Nem me fale nisso, rugiu Isidoro, que se  barbeava a um espelho pendurado  parede. Gastei cinco mil-ris nos cavalinhos, paguei nove entradas no cinema a ela e a um lote de parentes, e mais vinho, genebra, isto e aquilo, total: vinte e oito mil e setecentos. Que despesa num tempo de crise! E quando julgo a mulher segura, a miservel aproveita um momento sagrado em que tive de satisfazer necessidade urgente e escapole-se com o Silvrio. S a cacete!
  Esbocei um sorriso chocho, li novamente os versos. 
  Muito bem! Desejava esquecer, no podia esquecer. 
   Assistiu  missa, Pinheiro?
   Toda, homem, de cabo a rabo, ajoelhado na grama, com o olho no diabo da matuta. E a vida, paixo e morte de Nosso Senhor Jesus Cristo no cinema, e mais a ressurreio. E os cavalinhos ainda por cima. Voc j viu que falta de vergonha? Vinte e oito mil e setecentos! Depois de tudo combinado, a cachorra me prega aquela pea. Eu, se no fosse um indivduo pacato, ia ao Riacho-Fundo e dava-lhe murros.
  Tentei recordar a figura da cabocla, mas apenas me lembrei dos peitos volumosos e do nariz chato. Como lamentava o Pinheiro no se ter espojado num canto de muro com aquilo? Que gosto estragado!
   E eu que recusei a Maria do Carmo! suspirou raspando o queixo.
   A Maria do Carmo  bonitinha, observou Pascoal.
   , concordou Isidoro, mas muito vista, muito batida. Que est voc riscando?
   Um monograma para fronhas.
  Servio de d. Maria.  nessas miualhas que Pascoal se ocupa. Tanto sangue, tanto msculo, carcaa to rija, tudo empregado em dourar molduras de espelhos e rabiscar monogramas. Irritante. D. Maria Jos no tinha discernimento. Era melhor que se arrumasse com o Monteiro, que  velho, capitalista e vivo, homem respeitvel.
  Depois mudei de ideia. Procedia ela muito bem, se o italiano a fazia feliz. E o Pinheiro tambm andava com juzo em correr atrs da cabocla. Punham a sua felicidade onde podiam alcan-la. Eu no podia alcanar a minha felicidade: fugira na vspera, sem voltar o rosto.
   Vocs j sabem que a Clementina vai casar? disse Pascoal suspendendo o trabalho.
  A pilhria de sempre. Aquilo, assim repetido, no tinha graa. Mas o italiano afirmou que no era brincadeira: 
   Desta vez  srio.
   Outro esprito? perguntou Isidoro escanhoando o beio 
   No, foi o promotor que a pediu ontem.
  Esqueci por momentos as minhas preocupaes: 
   Como  que voc soube, Pascoal?
   Homem! essa agora! Voc tem certeza? gaguejou o Pinheiro. Se for verdade, fica um par magnfico. E eu estou contente, que gosto da Clementina. Ora sebo! Dei um talho na cara, com a emoo. Quem foi que lhe contou?
  Tinha sido o Neves.
   O Neves? Ento  certo. O Neves no mente. Sim senhor! Para alguma coisa o diabo da poltica havia de servir. Quando receber a comunicao, escrevo uma notcia de estouro na Semana. Afinal a Clementina arranjou-se. E merece,  digna. Essa coisa de histerismo... potoca! Eu, se no fosse cardaco, heptico, artrtico e sifiltico, tinha casado com ela.
  Que mudana! Nazar, junto  mesa do leilo, achara o promotor um excelente rapaz. Invejei o noivo, to alegre, to amvel, a grossa gargalhada a irromper a cada instante.    
  -  Pascoal, que  da chave ali do armrio? perguntei. Tudo trancado! Que fim levou a d. Maria? 
   Foi visitar a mulher do sapateiro. A chave? Para que chave?
   Para tirar a garrafa de conhaque.
   Vai beber agora de manh? Escangalha o estmago.
   Adeus.
  Fui buscar ao quarto o chapu e a bengala. Como tinha a eira desprovida, retirei a Bblia da gaveta, procurei dinheiro e as folhas do Velho Testamento. Enquanto me fornecia, li: E achei que  mais amarga do que a morte a mulher, a qual  lao de caadores, o seu corao rede, as suas mos cadeias."
  E a minha tristeza aumentou, porque a rede em que por muito tempo me debati deixara fugir a presa por entre as malhas. E as cadeias, que desejei arrastar, tinham-se afrouxado de repente, abandonando-me, livre e intil, junto a uma velha que chorava por um menino de chapu de palha.
  Sa pesadamente, fazendo curvas com a bengala na calada. Quando penetrei no largo, que tinha agora, com os estabelecimentos fechados e as barracas desertas, uma aparncia de acampamento abandonado, avistei padre Atansio defronte do cinema, conversando com dois matutos.
   Ora viva! gritou. Caiu-me a jeito. Ia agora... Casamento de parentes  com o bispo. Precisa tirar licena, gasta a...
   Mas, seu vigrio, replicou um dos roceiros, eu no posso pagar a licena. Se V. S.a me fizesse o favor...
   J lhe disse que  com a Diocese. Vamos descendo por aqui, temos negcio. Pois no case, filho de Deus. Se voc nem pode pagar licena, como sustenta famlia? Ou ento pegue outra. Casamento de primos  ruim. E vo-se embora, no me amolem. 
  Os matutos desapareceram.
  Entramos na travessa da Cadeia.
   Estou cansado, exclamou padre Atansio. Missa aqui, missa em Santa Cruz, missa em Caldeires. Morto de sono, no dormi um minuto. E esta cambada de tabarus azucrinando a gente. Assim mesmo uns ateus de meia-tigela acham ns no trabalhamos. Hoje  que eu queria mostrar a eles quem  parasita. A propsito de casamento, voc sabe que a Clementina foi pedida?
   Sim, pelo promotor. Qui se ressemble... Afinal, como diz Salomo...
  Lembrei-me do perodo lido vinte minutos antes:
   A mulher  lao de caador, tem corao de rede e cadeias.  do Eclesiastes.
   No Eclesiastes h isso? perguntou o vigrio espantado.
   Mais ou menos, uns belisces nas mulheres. Muito justos. 
  Padre Atansio riu grosso e extraiu do interior uma explicao que lhe pareceu aceitvel:
   Foi a sua namorada que lhe pregou alguma pea. 
   No senhor.
  Cumprimentei Fortunato Mesquita, que descia a rua Deodoro.
   E esse negcio, padre Atansio?
   O negcio? Ah! sim! No me interessa, sou apenas medianeiro. Vamos andando. Pois, meu filho, se o Salomo escreveu aquilo, no procedeu bem. Ora, dizia o doutor Anglico... (ou Santo Agostinho, no me lembro...) que todos os homens... No,  outra coisa. Enfim Salomo foi um rei femeeiro.  verdade que Santo Antnio e muitos anacoretas, na Tebaida... Mas isto no tem importncia, porque houve outros, e dos maiores... Jesus Cristo mesmo no desprezava as mulheres. Veja aquela histria do poo, a samaritana tirando gua.  bonito. Veja Marta e Maria, as irms de Lzaro, um bando delas. A redoma de blsamo!  lindo. E S. Francisco de Assis, onde foi que ele algum dia disse mal das mulheres? E S. Francisco  um mundo, S. Francisco  tudo. Quando se fala em S. Francisco, Salomo se esconde.
  Estvamos  porta do reverendo. Entramos.
   A redao hoje no se abre, padre Atansio? 
   No, respondeu o vigrio atirando o chapu para a mesa carregada de livros, papis, caixas, em temerosa mistura. Modo, meu filho, parece que levei uma surra. E vou trabalhar na igreja. Voc est satisfeito com os Teixeira? 
  - Se estou satisfeito? Por que pergunta, padre Atansio?
  -  o negcio de que falei. Sente-se. Se no  indiscrio, quanto ganha voc?
  - Nem sei. s vezes mais, outras vezes menos,  conforme o tempo. Do-me, alm do ordenado, uma parte dos lucros. O senhor quer oferecer-me o lugar do sacristo?
  - No quero oferecer nada.  o Cesrio que deseja convid-lo. Melhor ordenado, tambm promete interesse. No lhe dou conselho. Nem acho decente a proposta. Enfim, como o Mendona  camarada...
  -Muito bem! Exclamei com entusiasmo. O senhor no imagina, padre Atansio. Esplndido!
  E considerei que aquilo era bom meio de evitar Luisa. Aceitava a colocao, dava adeus aos livros do Teixeira, ao piano, ao xadrez, ao jardim e  gara de bronze. Mentalmente, vi desocupado o meu lugar  mesa; na minha cadeira, no salo, o dr. Castro, feliz, contemplando Clementina; deserta a varanda onde me recostava, oculto por detrs das cortinas, e donde se avista o arrabalde da Lagoa, um feixe de pontos luminosos. Nunca mais poria os ps naquela casa, que freqentei anos a fio, a princpio com o corao tranqilo, depois numa agitao que foi crescendo, ameaava transtornar-me a vida. Tinha-me sentido quase doido alguns dias antes, a gemer num soluo desesperado: Pelo amor de Deus, d. Lusa... Que lhe fiz eu? 
  - Ento aceita? Perguntou o vigrio. Que h de extraordinrio no que lhe disse para me olhar com essa cara de mal-assombrado?
  -  com efeito uma boa proposta, eu no esperava por isso. E, mudando de conversa, padre Atansio, como se chama uma estrela vermelha que s nove horas fica ali para as bandas do Tanque? Uma estrela grande. Como  o nome dela? Ser Aldebar?     
   Que desconchavo  esse? bradou o padre. Aceita ou no? 
   Qual aceitar, qual nada! Eu sou l capaz de fazer isso! 
   Mas onde tem voc a cabea, criatura? Disse h pouco que era um bom oferecimento.
   Foi tolice, padre Atansio. Quando andei por a, para cima e para baixo, procurando emprego, estive duas vezes em casa dele. No me deu um chifre.
   Perfeitamente, concordou o vigrio. Recusa, mas no senso comum.
   No tenho nada, nem senso nem coisa nenhuma. Sois um desgraado.
  Era um princpio de confisso. Se eu fosse crente, ter-me-ia lanado aos ps do reverendo, abrindo as portas da minha alma. No sou crente, por infelicidade, e apesar de sofrer muito, no queria dar a mim mesmo a iluso de que dividia o meu infortnio com outra pessoa.
   Desgraado? Ora essa! Que foi que aconteceu?
   No aconteceu nada. Um rapaz meio tonto, o senhor tem razo. Falta de senso comum.
   Pois se voc aceitasse o emprego do Cesrio, eu ficava desgostoso, palavra. Procedeu com honestidade. Vamos almoar. Valentina, ponha esse almoo. Com honestidade. Sim senhor. Vamos almoar.
   Obrigado, padre Atansio. Deixe l, no mereo abraa No h nenhuma nobreza no que fiz.
  Dezessete
  Estalaram foguetes na rua,  passagem da procisso.
  Soltei o livro, agarrei o chapu e cheguei  calada no momento em que desfilavam dois renques de velhos tristes, de opas, conduzindo tocheiros sem velas.
  - Vai acompanhar, Pascoal? Voc sabe o que h na igreja?
  - Sermo. Sermo e tedu. Sim acompanho.
  Vinham devagar, em filas, as crianas do catecismo, com fitinhas amarelo-verdes. Depois, duas alas de mulheres, e entre as alas uma cambulhada de anjos, rubicundos, frisados, com asas de arame e gaze. Em seguida, o estandarte das filhas de Maria dos cordes de aspirantes e veteranas. Atrs, o andor do Corao de Jesus, beatas de beio mole, caducas, d. Engrcia, a Teixeira velha. Casimira, outras criaturas hediondas e sem sexo, de roupas pretas e escapulrios como ndoas de sangue. E trs figuras simblicas, as virtudes excelentes.
  - Voc conhece aquela Caridade, Pascoal? A de l.
  - No conheo, deve ser de fora. E,  bonita.
  - Bonita? Com os diabos!  uma linda Caridade.
  Calamo-nos. Padre Atansio passava, de paramentos brilhantes, ladeados por dois eclesisticos mal-encarados, sob o plio que seguravam o juiz substituto, o dr. Castro, Fortunato Mesquita e o Monteiro.
  - Venha para c, seu Valrio, desentoque-se, disse Mendona filho, deixando a multido desordenada que rematava o cortejo. Isto aqui est bom.
  Hesitei, com a tentao de namorar a Caridade. Encolhi os ombros:
  - Vou esperar na igreja.
  Dirigi-me  praa, olhando com simulada indiferena as famlias que vinham a distncia. Quando Lusa passou, em companhia do marido, voltei o rosto e, para ocultar a minha perturbao, consolei um pequenino Jesus de trs palmos, que chorava, perdido e amuado, com uma alpercata de menos, o resplendor cado para a nuca, as chagas das mos diludas em lgrimas.
  Subi o Quadro, onde s havia duas ou trs barracas, escuras, de palha crestada. Panos vistosos nas janelas, flores e folhas juncando o cho. No convento de d. Engrcia, colchas ricas.
  Para afugentar as ideias dolorosas que a presena de Lusa me trouxera, pensei na Caridade.
  As lojas de fazenda, as barbearias, as farmcias, o Bacurau, tudo fechado.
  Defronte do bilhar encontrei Nazar, que descia. 
   O Evaristo vai para cima, hem?
   O Evaristo? Ignoro, respondi. De que se trata?
   Secretrio do Interior. Creio que vo fazer dele secretrio.
   Secretrio? No sei. Quem lhe contou?
   Os fatos. Voc no l a Gazeta? Est-me palpitando que o Evaristo entra na secretaria.
   Um sujeito que se meteu em poltica h um ano!
   No senhor. Meteu-se nela desde que lhe nasceram os dentes.  o chefe local que mais trabalha. Veja como esse velhaco organizou isto. E aqui para ns, a telegrafista me mostrou um telegrama em segredo. Peguei umas coisas por alto. Aquilo trepa, e se no for para a secretaria, do-lhe outro lugar bom, que  de elementos assim que o governo precisa.
   Safadezas! murmurei despeitado, porque no possuo o talento de Evaristo. Que sorte!
   Conversa! Que  que falta a ele?
  Mordeu os beios, contrafeito, esboou um sorriso cheio de fel:
   Tem tudo.  bacharel, faz discursos, veste-se bem e sabe furar. Tem tudo. Recebeu um bilhete de participao que lhe mandei ontem?
  Era o casamento da filha, e eu no havia felicitado o velho. Desazado.
   Perfeitamente. Distrai-me, por causa do Barroca. Nem dei parabns. Desculpe. Quando  isso? 
   At junho. Eu sou pelo sistema antigo. Quem tiver de se juntar junte-se logo, v noivar na casa do diabo: s minhas barbas no. Voc viu por ai o Neves?
  Eu no tinha visto o Neves.
  - Pois eu vou procurar o Neves. Au revoir.
  Encaminhei-me  igreja. Ao galgar os degraus, onde mendigos esperavam o regresso da procisso, vi subirem foguetes no Pinga-Fogo.
  Encostei-me  grade de ferro que circunda a calada. 
  Montes  esquerda, prximos, verdes; montes  direita, longe, azuis; montes ao fundo, muito longe, brancos, quase invisveis, para as bandas do S. Francisco. Acendi um cigarro. E imaginei com desalento que havia em mim alguma coisa daquela paisagem: uma extensa plancie que montanhas circulam. Voam-me desejos por toda a parte, e caem, voam outros, tornam a cair, sem fora para transpor no sei que barreiras. nsias que me devoram facilmente se exaurem em caminhadas curtas por esta campina rasa que  a minha vida. 
  Os telhados da cidade estendiam-se embaixo; um cata-vento gesticulava no quintal do Cesrio; a casa de Vitorino, distante, avultava, pesada e feia. Seis horas. O arrabalde da Lagoa repousava entre moitas, miudinho, como uma pintura de teatro. Para outro lado derramava-se o Xucuru, triste e seco, de areia e pedra. E o Tanque, uma srie de pomares entre morros. Ficam l os stios do Barroca, terra esplndida. Cultura de caf, gado seleto, que ladro! Aquele, sim, anda sem se deter e alcana tudo com facilidade. Vence os embaraos, corta-os, e o que vai encontrando serve-lhe de meio para avanar. Que bandido! 
  Agora os foguetes estouravam no Melo. Os sinos repicaram. Bandos apressados desembocaram das ruas vizinhas e invadiram a igreja, em busca dos melhores lugares. Xavier filho aproximou-se de mim e pediu uma informao. Dei-a e voltei-me para cumprimentar d. Eullia Mendona. 
  A procisso recolhia. Em poucos instantes a igreja regurgitou.  passagem de Lusa, afetei olhar a palmeira solitria da Lagoa, o arvoredo que se cobria de sombras. Era quase noite. Cheguei-me  porta. Dentro irromperam cnticos. A imagem de Nossa Senhora do Amparo, entre velas acesas, mostrava o seu rostinho espremido e de choro. Na multido que enchia a nave sobressaam as vestes das irmandades religiosas. Um padre gordo subiu ao plpito e comeou a falar, mas do ponto em que me achava apenas ouvi, de mistura com o rumor da calada, vagos chaves sobre o amor celeste e o amor mundano. 
  Voltei a debruar-me  grade. Surgiram luzes. Alm da campina, mancha pardacenta, as serras tornaram-se massas negras. Nos morros  direita esmorecia um resto de sol. L em cima tremelicaram estrelas espalhadas. O vozeiro do orador continuava a atroar.
   O senhor estava a? perguntei ao Miranda, que saa. J se vai embora?
   J, respondeu o tabelio com um bocejo. No suporto mais as bobagens daquele tipo.
   Que diz ele?
   Tudo: a virgindade de Maria, S. Vicente de Paulo, a constituio brasileira e as abbadas do infinito. Miservel. O infinito com abbadas! Que jumento!
  Dezoito  
  Vrias vezes peguei a Bblia para tirar dinheiro, e o livro sempre se abriu no Eclesiastes, mostrando-me a frase de Salomo enjoado. Repetindo-a, senti uma atroz amargura. Uvas verdes. Que me importava Salomo?
  Num sombrio acesso de desespero, pensei no suicdio. Tolice. Eu tenho l coragem de suicidar-me? O que fiz foi passar uns dias quase sem comer. A escriturao ficou atrasada uma semana, o que me valeu duas observaes de Vitorino, e abandonei o jornal de padre Atansio e os caets.
  Para que mexer nos caets, uma horda de brutos que outros brutos varreram h sculos?
  S Lusa me preocupava. Desejei-a dois meses com uma intensidade que hoje me espanta. Um desejo violento, livre de todos os vus com que a princpio tentei encobri-lo. Amei-a com raiva e pressa, despi-me de escrpulos que me importunavam, sonhei, como um doente, cenas lbricas de arrepiar. Quando ia a casa dela, mostrava-me taciturno e esquivo. Vinha-me s vezes uma espcie de delquio, parecia-me que o corao deixava de pulsar, e era um frio, uma angstia, sensao de vcuo imenso. Estava sempre a sobressaltar-me, como se em redor me lessem na alma. Transparecia nos meus modos uma irritao que procurei conter debalde; se algum me interrogava, respondia com palavras secas e breves. 
  E quanto disparate! Uma noite cumprimentei deste modo o reverendo, que chegava: "Adeus, padre Atansio. Divirta-se." 
  Riram em torno, gaguejei explicaes parvas e encolhi-me, rangi os dentes, sentindo a vaga tentao de estrangular o dr. Castro, que sorria para Clementina.
  Dezenove
  Em princpio de maro, Adrio foi  capital acertar contas com os fornecedores e pedir a restituio de uns ttulos resgatados. Eu havia escrito vrias cartas reclamando, e o detentor dos papis dava respostas evasivas e protelava a remessa. 
  No dia em que Adrio viajou dirigi-me a casa dele,  noite, esperando entender-me com Lusa. A voz sumida, em tremuras, interroguei o negro:
  - D. Lusa est a, Zacarias?
  - Est. Um bocado murcha, nem quis beber caf.
   Est s?
   Sim senhor. A menina d. Josefa saiu ainda agorinha. Entre vosmec, eu vou avisar.
  Penetrei na saleta de espera, gelado, a vista escura. Assaltou-me um pavor estpido. Vi no espelho do porta-chapus uns olhos atnitos e uns beios muito brancos.
   De p, Joo Valrio? disse Lusa aparecendo. Demorei-me um pouco. Desculpe.
  A Uma minha figura no espelho pareceu-me burlesca. 
   Sentou-se no sof:
   A Josefa andou por aqui, e a Marta. Comentamos os seus modos esquisitos.
   A senhora estava deitada, exclamei. Talvez doente.
   Doente? No, apenas meio aborrecida, por causa do calor. Pensa a Marta...
   Pois pensa mal, interrompi, metendo os ps pelas mos. A senhora no tem outro assunto? Vim pedir-lhe um favor. Respirei com esforo:
   Que mal lhe fiz eu? J lhe perguntei h tempo, lembra-se? Tinha confiana em mim, e de repente... No negue. Ora essa! Aproximei-me, sentei-me no sof, longe dela:
   Eu no quero saber o que os outros pensam de mim. O que me interessa  o seu pensamento. Hoje que tudo mudou...
   Eu no mudei, Joo Valrio, murmurou Lusa baixinho.
  E comeou a fazer pregas numa das fitas do vestido branco.
   No? Santo Deus! Como tem coragem de afirmar isso? Foi desde aquele amaldioado jantar. E se soubesse... Enquanto danavam, fui para o jardim, com a esperana de encontr-la. E sonhava poder um dia beijar-lhe a mo. No compreende...  horrvel!
  Ela estava lvida:
   Muito tarde, Joo Valrio, quando nos conhecemos... Era melhor que nos separssemos.
   Era melhor que no nos separssemos nunca, bradei numa exaltao. Vivemos mentindo, acovardados.
  Zacarias entrou, foi ao salo, fechou as janelas silenciosamente, voltou, rondou por ali, inquieto:
   A sinh quer alguma coisa?
   No, podem deitar-se.
  Depois que o preto saiu, contemplei Lusa, esquecido. Os meus sofrimentos se atenuaram num instante, maior que meses de angstia.
   E h cinco anos vivemos nisto! exclamei, novamente despeitado. Levo esta peste de vida e tenho de mostrar cara alegre.
  Uma serenata passou na rua. Cantos, sons de bandolim e flauta, perderam-se.
  - Fale. Pelo amor de Deus, fale.
   Que hei de dizer? sussurrou Lusa com lgrimas nas plpebras.
   Eu sei l. A duas palavras que me tirem deste inferno. Seja franca, seja boa. Por que se encolerizou no dia do jantar? E, diante do prespio, noite de Natal, por que me olhou daquela forma?
  Tomei-lhe as mos:
  - Ningum se zanga sem motivo,  claro. E ns que ramos to amigos... Aborreceu-se, amuou. Acertei?
  No posso, Joo Valrio, soluou Luisa com voz quase imperceptvel, que estremecimentos cortavam.  como se fosse uma pessoa minha. Muita amizade. Se nos tivssemos conhecido mais cedo...
  Um deslumbramento. No silncio que se fez a sala encheu-se com os rumores da usina eltrica e de automveis rolando longe.
  - E havamos de ser felizes, segredei com o intuito de completar-lhe as frases esboadas. E seremos felizes, por que no? Falou em amizade. Eu no lhe tenho amizade, o que tenho  um amor doido, como ningum lhe h de ter. Duvidou de mim julgou que me importava... Foi uma injustia. Que tortura, estes dois meses!
  Zumbiam-me os ouvidos, a respirao tornou-se-me ofegante:
  - Um beijo!
  Pancadas de relgio soaram na sala prxima e gastaram uma eternidade a escoar-se. Vi mentalmente Adrio, que era meu amigo, Vitorio, Nicolau Varejo, mentiroso, o boticrio, Neves intrigante 
  Um beijo! repeti desvairado, abrasando-a com o desejo que em mim gritava. Um beijo!
  Ela fez um o movimento para se levantar, tornou a cair no sof e desviou o rosto. 
  - Um beijo! balbuciei como um demente.
  Soltei-lhe as mos, agarrei-lhe a cabea, beijei-a na boca, devagar e com voracidade. Apertei-a, machucando-lhe os peitos, mordendo-lhe os beios e a lngua. De longe em longe interrompia este prazer violento e doloroso, quando j no podia respirar. E recomeava. As mos dela prendiam-me; atravs da roupa leve eu lhe sentia a vibrao dos msculos.
  No tive conscincia do tempo decorrido naquela noite: guardo a lembrana de que o relgio, no salo vizinho, bateu mais de uma vez.
  A posio em que nos achvamos no sof estreito era incmoda.  Senti as pernas entorpecidas.
  Veio-me depois grande lassido, o sbito afrouxamento dos nervos irritados. As imagens brutais debandaram, Lusa me inspirou imensa piedade. Achei-a pequenina e fraca, ali ca numa confuso. Ergui-a, compus-lhe a roupa, encostei-a ao peito onde ela se aninhou, trmula. No se assemelhava  mulher que me deixara aniquilado ao p da manjedoura onde repousava um Jesus de biscuit, junto a um rio de vidro. Embalei-a como a uma criancinha, passando-lhe pelos cabelos os dedos pesados, numa carcia lenta. E disse-lhe coisas infantis que se sumiram depressa nas nvoas daquela embriaguez. Assim estivemos at que as luzes deram sinal para apagar-se. 
  Cerrei as janelas e levei-a para a alcova.
  Quando, com a aproximao da madrugada, me retirei, Luisa veio acompanhar-me. Na calada, depois do ltimo ao, lembrei-me da noite em que ela me repeliu naquele mesmo lugar. Tomei-lhe as mos com arrebatamento e cobri-as de beijos.
  Afastei-me, tremendo na escurido, receando que algum me encontrasse.  porta de casa retrocedi, com a ideia esquisita de procurar a minha estrela protetora sobre o monte negro. E sorri interiormente. Fui  beira do aude, avistei-a. Tinha mudado de lugar e estava menor.
  Contemplei-a, supersticioso, quase convencido de que ela me enviava parabns l de cima.
  Vinte
  Adrio esteve ausente uma semana. Alta noite, colando-me aos muros para no ser visto, precauo intil porque era tudo treva, com o corao aos baques eu entrava no jardim, subia as escadas, abafando os passos.
  Lusa no mostrou arrependimento, despia-se como se estivesse s, nada ocultava  e eu achava nela uma alma cndida. 
  No lhe ca aos ps, com uma devoo mais ou menos fingida. A felicidade perfeita a que aspirei, sem poder conceb-la, rapidamente se desfez no meu esprito. Livre dos atributos que lhe emprestei, Lusa me apareceu tal qual era, uma criatura sensvel que, tendo necessidade de amar algum, me preferira ao dr. Liberato e ao Pinheiro, os indivduos moos que frequentavam a casa dela.
  No senti vaidade: senti estupefao. Considero-me indigno do favor recebido. Que valho eu? Considerao mortificadora, porque me trazia a ideia de que Lusa me aproveitara como aproveitaria outro nas minhas condies.
  Experimentei ento alfinetadas no egosmo, afligiram-me pensamentos de avaro, que debandavam quando, ao penetrar na alcova, eu recebia os beijos dela.
  Na intimidade rpida que se estabeleceu entre ns, Lusa me disse:
   O Valrio no compreende. Nunca imaginou...
  Sentou-se na cama, e a camisa escorregou-lhe de um ombro. Engoli em seco e lamentei intimamente tanto ano perdido, os tormentos que passei.
   A cena de novembro, ali no jardim, Valrio. No percebeu? 
   No percebi, confessei constrangido. Amor de irmo... 
  Ela sorriu.
   Eu fazia castelos, murmurei. A esperana de lhe arrancar uma palavra... Difcil. Visitas, os criados fervilhando por toda parte... Ganhei cabelos brancos.
  E ela:
   Mais cedo ou mais tarde havamos de chegar a isto. No estou arrependida, tenho at vergonha de precisar esconder-me.
  Quanto a mim nem me lembrava de Adrio. Se s vezes me espicaavam alguns espinhos, defendia-me com desespero. Que culpa tive eu? Certamente era melhor que no existisse aquela paixo; mas desde que existia, pacincia, eu no podia arranc-la. E por causa do mandamento de um brbaro, que teve a desfaatez de afirmar que aquilo vinha do Senhor, no iria eu, civilizado e guarda-livros, conservar-me em abstinncia, amofinar-me no deserto.
  Tinha-me vindo a tentao, uma tentao de olhos azuis e cabelos louros, e depois de escorregarmos, nada valia ralar-me por uma coisa que a cidade ignorava, que Adrio no suspeitaria.
   Realmente, disse comigo, que prejuzo traz ao mundo a preferncia que ela me d? E Deus liga pouca importncia a bichinhos midos como ns: tem em que se ocupe e no vai bancar o espio de maridos enganados.  impossvel que algum Deus considere as minhas relaes com Lusa censurveis. Ningum as conhece, s ns podemos julg-las  e os nossos coraes no nos acusam. Padre Atansio vive a dizer no plpito que usar mangas curtas  imoralidade. E as mulheres desnudam o colo, mostram os braos, convencidas de que procedem mal. Lusa  inocente: no se envergonha do que faz.
  Vinte e Um
  Um domingo  tarde, como o calor na cidade era grande, entrei no Pinga-Fogo, com a inteno de dar uma volta pelos arredores.  porta da casa de Vitorino encontrei Lusa, d. Josefa e Clementina.
   Para onde vai o senhor por esta zona? gritou-me a Teixeira.
   Por aqui, sem rumo. Boa tarde. Girando, em busca de um canto onde possa morrer sem ser queimado. As senhoras vo sair?
  - Vamos. Estvamos procurando um homem, e como o primeiro que passou foi o senhor, venha conosco, que tenho medo dos cachorros do Massa-Fina. Por quem esperam vocs?
  Clementina sorriu, vexada com a desenvoltura da outra, e chamou d. Engrcia, que se meteu debaixo do guarda-chuva e marchou na frente. Abrindo a sombrinha, a Teixeira disse em voz baixa:
  - Que vem fazer esta velha? Estragou o passeio.
  Como a viva pisava rijo e estava suada, inquiri, julgando ser agradvel:
   Essa roupa preta no incomoda, com semelhante quentura, d. Engrcia?
   Talvez fosse melhor andar de vermelho, retorquiu a proprietria furiosa. Era decente.
   Safa! resmunguei encolhendo-me. Que brutalidade! 
  Lusa riu-se divertida, a Teixeira deu uma gargalhada, Clementina mordeu os beios.
  Passamos o Corte. E adiante, na frescura e na sombra das rvores que marginam a estrada, as trs retornaram uma conversao a respeito do casamento de Clementina, casamento trabalhoso, adiado sem motivo. O dr. Castro no se decidia.
   Que diabo quer ele? perguntou d. Josefa. Eu, se fosse comigo, mandava-o pentear macacos.
  E a um gesto de reprovao da velha, que abominava aqueles modos, dizia que no tempo dela...
   J sei, no tempo da senhora era tudo cor-de-rosa. As meninas no sabiam ler, para no escrever aos namorados, e viam a cara do noivo pela primeira vez no dia seguinte ao casamento.
   No dia seguinte? exclamou Luisa.
   Foi a diretora do colgio quem me contou.
   Pois era um costume interessante, d. Josefa, interrompi. E difcil. A senhora aprendeu muito.
   Aprendi. Principalmente histria antiga, do tempo da d. Engrcia.
   A propsito, disse Lusa, essa sua companheira que esteve a, a professora, azulou sem se despedir, hem? Como vai essa joia?
  A joia passava bem. Tinha escrito uma carta cheia de lbias. Estava melhor dos intestinos e mais bonita.
   Uma beleza, atalhei. Ultimamente estava ficando linda. Deve ter sido influncia sua, d. Josefa. A senhora no volta para o Corao de Jesus?
   No.
  E entrou a falar no C.S.P., a sociedade de esportes que se tinha dissolvido. amos passando pelo campo de futebol, agora utilizado com o plantio de mandioca e algodo. Valentim Mendona tencionava mandar limpar aquilo, reorganizar o clube.
   Faz mal, opinou d. Engrcia. Isto assim est melhor do que cheio de vadios trocando pontaps.
   Decerto, concordou a Teixeira, incorrigvel. Antigamente no havia disso.
  A viva encalistrou e apressou o passo. Quando alcanamos o Massa-Fina, tinha transposto o riacho, subido a ladeira.
  - Voltando atrs, perguntei, como era o casamento, d. Josefa?   
   Foi a diretora quem disse. Os pais faziam o arranjo, vinha o padre e embirava o casal de trouxas. A noiva, morta de medo, no olhava para os lados. Metia-se no quarto, deitava-se, enrolava a cabea nas cobertas e via o marido no outro dia, Hoje tudo  diferente. A Clementina est cansada de ver o dr. Castro.
  Juntaram-se as trs de brao dado, formando uma cadeia para evitar algum trambolho, e desceram de corrida at a beira do riacho, que s tinha uma pinguela para a passagem.
   Como  que se vai atravessar isto? perguntou Clementina, sem se atrever a pisar naquela ponte rstica.
   Vou auxili-la, propus. Feche os olhos, se tem vertigens.
  Equilibrando-me, segurei as mos da moa e, andando de costas, cheguei  outra margem. Depois conduzi Luisa. No meio da prancha, com os braos abertos e as mos nas mos dela, como se fosse abra-la, hesitei, e foi ela que me amparou. Pareceu-me que a minha vida era uma coisa estreita e oscilante, com perigo de um lado, perigo do outro lado, e Lusa junto de mim., a proteger-me. Comprimi-lhe os dedos, toda a minha alma fulgiu para ela num olhar de ternura.
   Vocs querem ficar assim o resto da tarde? bradou a Teixeira.
  Tive um sobressalto e tirei-me dali. D. Josefa passou a travessa em quatro pernadas, trepou o monte quase a correr. 
  Clementina colhia florinhas  beira do caminho. 
   Que quer dizer aquilo? perguntei a Lusa. Ter percebido?
   Talvez tenha, fez ela pensativa, sem baixar a voz diante de Clementina, que se aproximou com as mos cheias de cajs.
  A Teixeira estava agora sisuda, sentada num tronco, reconciliada com d. Engrcia, que nos disse, interrompendo uma descrio do Senhor Morto de Palmeira-de-Fora:
   Pensei que no chegassem hoje.
   No h pressa, respondeu Lusa. A qualquer hora chegamos bem.
  E abriu a sombrinha sob as ramagens escassas. D. Engrcia atacou Clementina:
   Enfeitar os cabelos com flores de mulungu! E comer caj, uma porcaria que embota os dentes!
  Caminhamos em silncio at o lugar onde existiu o cruzeiro verde, um cajueiro com dois galhos em forma de cruz, que a gente dos stios prximos vinha adorar. Falei da multido que ali encontrei uma tarde  mendigos, mulheres com filhos pendurados aos peitos, curiosos, espertalhes que se arvoravam em sacerdotes.
  Mas ningum ligou importncia  minha histria. Chegamos ao caminho que vai dar  Lagoa, estreito e esburacado. D. Engrcia voltou a descrever o Senhor Morto, imagem terrvel, com braos de macaco e olhos de coruja.
  A Teixeira interrompeu-a e informou-se de Marta, que estava doente. Ia bem, tomando remdio de botica.
  Como Lusa, para saltar um barranco, me pediu a mo, que apertou, sorri. E lembrei-me das msicas, das flores de parafina e dos livros franceses. Pensei no soneto, no carnaval, no Centro da Boa Imprensa, no Marino Faliero e no prespio. Encolhi os ombros. Que me importava Marta Varejo? Que me importava o resto?
  Feliz e egosta, vi o mundo transformado. D. Engrca, a Teixeira, Clementina, meia dzia de crianas amarelas e beiudas preguiavam no terreiro de uma cabana, tudo minguou, reduziu-se s dimenses das figurinhas do Cassiano. E a cidade, que divisei embaixo, por uma aberta entre os ramos, era como o tabuleiro de xadrez de Adrio, com algumas peas avultando sobre a mancha negra dos telhados: as duas igrejas, o prdio da usina eltrica, tetos esquivos de chals, o casaro de Vitorino atravancando o Pinga-Fogo, coqueiros esguios, o cata vendo.
  Iamos agora pela estrada larga, plana, escura das rvores que a ladeiam. Retardando o passo, falei baixo a Lusa. E olhava os salpicos de luz nas folhas secas do cho quando, numa solta do caminho, o Neves, escanzelado, verde, de culos, passou por ns, franziu os beios, tirou o chapu.
  - No posso tolerar este indivduo, disse Lusa com repugnncia.
   Quem? o Neves? inquiriu Clementina aproximando-se.  obsequiador, delicado. Vamos at o Sovaco? 
  Tnhamos desembocado na Lagoa.
  - Eu no vou, ops-se a Teixeira. Estou com as pernas bambas.
  E desceu  direita, nem quis ouvir d. Engrcia, que sugeria uma visita a Maria Quebra-Unha. Fomos encontr-la abotoando um sapato, quase  da rua
   Que sujeito insuportvel! tornou a dizer Lusa com averso. 
  E, como Clementina estranhasse aquela antipatia excessiva:
  - No est em mim,  birra. Insuportvel!
  Mais tarde, quando nos separamos, fiquei pensando no aborrecimento que Lusa tem ao Neves. A vida ntima dele  objeta. Rosnam coisas. A mulher, robusta ao casar, tornou-se magra, plida e com olheiras.  um casal que no tem filhos. E picuinhas em cima do homem.
  Por que ser que Lusa, que no sabe nada, volta o rosto quando o v, cheia de nojo? Lembrei-me da faculdade que ela possui de sentir a misria alheia: a fome do sapateiro, os gemidos da tsica, as pancadas do martelo, alta noite. Talvez, por um misterioso instinto, a pobreza moral do Neves se lhe revelasse confusamente, provocando uma repulso que a generosidade dela no pode vencer.
  Vinte e Dois
  O Miranda Nazar andava com influenza. Fui visit-lo.
  Encontrei-o sentado na cama, os ps metidos em sapatos de banho, pijama sem botes, no peito descoberto uma grenha amarelenta, um fio de baba a escorrer-lhe nos pelos do queixo. Bebia ch e mastigava torradas que estalavam, cobriam de migalhas os lenis sujos. Numa cadeirinha baixa, Clementina olhava com olhos de co o dr. Castro.
   Veio a propsito, bradou o doente quando me viu. Eu estava pedindo a Deus uma pessoa que soubesse jogar xadrez. 
  Soltou a xcara, agarrou-me as mos, nem me deixou cumprimentar a filha e o futuro genro.
   Fao tudo para domesticar esse homem, continuou. Impossvel, no tem embocadura para o xadrez.
  O dr. Castro riu, achou aquilo um jogo encrencado que ningum entendia, pior que latim. Concordei: no me entravam na cabea aquelas combinaes embrulhadas. Afinal sempre me resignava a perder uma partida. Clementina trouxe o tabuleiro.
   Qual! histria! exclamou Nazar.	
  Encostou-se  mesinha da cabeceira, arrumou as peas:
  - Voc joga at muito bem, melhor que o Adrio. Branca? Sim senhor,  o que lhe digo, substitui o Teixeira com vantagem. Saia l, seu felizardo.
  Embatuquei, tive a impresso de que me haviam tirado a roupa, deixado nu diante de Clementina e do dr. Castro. 
  - Xeque.
  Avancei um peo. Ali estava o meu segredo babujado pela boca mole daquele velhaco. Que imprudncia tinha eu cometido? Fazia tempo que me abstinha de ir  casa de Adrio, e quando ia, ficava de parte, com medo da Teixeira, que no se arredava de l. Em ms e meio apenas me avistara com Lusa trs vezes: duas no jardim, alta noite, e uma no Tanque, ao p de grandes penhascos entre rvores. O stio era delicioso, um veio de gua gemia na relva, esvoaavam casais pelos ramos, a verdura de um lindo musgo vestia as pedras velhas. 
   Xeque.
  Pus o rei junto  dama, em casas da mesma cor, defesa idiota. Xeque de cavalo s duas. Sebo! l se foi a dama.
  Continuei, distrado, com o pensamento naquele retiro campestre, onde passei instantes que voaram, ouvindo a cantiga lenta do riacho e vendo, atravs da ramagem, pedaos de cu vermelho. Lusa havia engenhado para ir l um pretexto cheio de complicaes. Revoltava-se por ter necessidade de mentir, ela que no mente nunca. E no podamos recomear.  uma desgraa viver em cidade pequena, onde a qualquer hora podem encontrar-se pessoas conhecidas que espreitam.
  - Mate.
  - J? Foi surpresa. Pois muito boa noite, disse eu bruscamente, levantando-me.
  - Demore a, vamos jogar outra, convidou Nazar. Esta no valeu. E dou-lhe partido.
  - Obrigado. Que prazer tem o senhor em jogar comigo? Ganha sempre. Vim apenas saber da sade. Parece que est bom.
   No  tanto assim, retorquiu Nazar. Uma semana aqui de molho, a canja e ch com torradas! Veja isto. 
  Mostrou-me os dedos descarnados. Recostou-se nos travesseiros, de fronhas imundas. Que interior lastimvel! O dr. Castro fazia pssimo casamento. Ali a conversar a meia-voz com a noiva, longe do crculo de luz que havia em torno do abat-jour, sem notar a desordem do quarto, o espelho rachado, a mesa coberta de poeira. Como a gente cega! Talvez comigo se desse o mesmo. No que Lusa fosse como Clementina. Graas a Deus tenho bons olhos, bom olfato, sei o que est limpo e o que  feio. Mas todas as belas qualidades com que me entretive a enfeitar o meu dolo seriam o que eu julgava?
   E veja isto, continuou Nazar exibindo as costelas salientes, as bochechas murchas, as bambinelas do pescoo. Olhe que misria. Que fazem vocs a no escuro, taramelando? Venham para c. Ah! meu caro! se eu tivesse vinte e cinco anos, uma gripezinha no me incomodava. Vinte e cinco anos, hem? Est na idade.
  Outra aluso. O dr. Castro aproximou-se, declarou que ser novo era com efeito excelente.
   Para uma farra... Sim, para um divertimento honesto... emendou olhando timidamente Clementina. Os senhores me, entendem. Enfim quando o cidado  novo sempre tem melhor estmago que quando  velho.
   Assim falava Zaratustra, disse o futuro sogro. 
   Quem? perguntou o promotor.
  Nazar, que estava rindo, teve um acesso de tosse, levou o leno  boca e ficou algum tempo a sacolejar-se.
   Quem? tornou a perguntar o bacharel, desconfiado.
   Zaratustra, filho, respondeu o tabelio quando melhorou. Ser possvel que voc no saiba quem foi Zaratustra, um sujeito conhecido? Aqui o Joo Valrio... A propsito de Zaratustra, como vai o Adrio?
  J preparado contra aqueles remoques, encarei Nazar friamente e, simulando indiferena: 
   O senhor frequenta a casa dele tanto quanto eu, ou mais. H quinze dias que l no vou. E esse interesse... 
   Decerto. Um amigo.
    isso, concordei hipcrita. Provavelmente ele j o visitou. O senhor assim de cama...
  Nazar enfiou. Os Teixeira no o visitam. Recebem-no, admiram-lhe a inteligncia, temem-lhe a lngua e desprezam-no. 
  O doente baixou a cabea, carrancudo e Clementina entrou ingenuamente a lamentar que Lusa e d. Josefa no tivessem aparecido naquele aperto. Vencendo a timidez natural, animava-se, tinha um calor de ressentimento no fio de voz infantil, um pouco de sangue na face plida:
   No  que ns precisssemos de alguma coisa. No, no precisamos, merc de Deus. Mas a ingratido...  duro. Quando quer bem a uma pessoa, o senhor compreende, a presena dela conforta. S a presena, no  necessrio mais nada. 
  Pobre rapariga. Desmazelada e histrica, mas uma prola.
   Conforta, sem dvida, apoiou o dr. Castro. 
  Arregalou o olho convencido. No admitia que um homem vivesse neste mundo sem ser amigo ntimo dos outros:
   Conforta. Mesmo quando se tem tudo, o senhor compreende, conforta muito. Foi o que eu sempre disse. Percebe? 
   Histria! bradou Nazar aborrecido. Morremos bem sozinhos. Esta  que  a verdade: o resto  fraqueza, maluqueira. 
   Sim? exclamei com fingido espanto. Mas, se no me engano, o senhor h pouco pensava de maneira diferente. 
  Despedi-me apressado, sa, porque no podia aguentar uma discusso com ele. 
  E senti um dio violento a todos os miserveis insetos que andam a picar a dignidade alheia. Veio-me a impresso extravagante de que as mos do velho haviam tocado o corpo de Lusa.
  Desejei vingar-me, insultar Nazar  canalha, pau-d'gua, ladro; lembrar-lhe o que deve aos Teixeira e no paga, o que furtou aos rfos e os quinhentos mil-ris que recebeu para abafar um processo. Pensei em voltar a casa dele, dizer-lhe que Cesrio Mendona tinha um bilhete premiado, que padre Atansio estava  bica para cnego, que o dr. Liberato conseguira meter um artigo no Brasil-Mdico. Eram trs golpes terrveis. Ele no pode ser cnego, naturalmente, no escreve medicina nem joga na loteria; mas certas notcias irritam-no, o xito dos outros  um tormento para ele.
  Patife! Lusa j no era a santa que imaginei. Tinha descido. Mas, quando estava alguns dias sem a ver, eu descobria nela todas as perfeies.
  Andei a vagar pelas ruas. Irresistivelmente atrado, cheguei-me ao casaro dos Italianos. Fiquei de longe, rondando, com uma angstia desconhecida, o vago receio de que algum me visse entrar. Talvez os vultos esquivos, frequentadores do Pernambuco-Novo, julgassem que eu ia satisfazer necessidades torpes como as deles. Estremeci, indignado com uma comparao to absurda.
   O corpo! o corpo!  a alma que eu quero, disse a mim mesmo numa exaltao absolutamente desarrazoada.
  Com efeito a alma dela creio que sempre a tive, e nunca deixei de mortificar-me e desejar mais.
  Fui ao porto, hesitei. Toquei a campainha timidamente: ningum; entrei no jardim: deserto. Sentei-me no banco. L estava  beira do lago a gara pensativa e bicuda, com a perna invisvel encolhida sob a asa. Lembrei-me da entrevista que ali tive com Lusa, uma noite, enquanto o luar brigava com as nuvens. Agora no havia luar. As palmeiras, crescidas, iam quase ocultando a frontaria do armazm; entre as folhas dos tinhores brilhavam lmpadas escondidas; trepadeiras enlaavam as grades.
   A sozinho, Joo Valrio? bradou-me Lusa alegremente do alto da escada. Por que no chamou? Suba.
  E antes que eu subisse j ela havia descido.
   Faz muito tempo que chegou?
   Pouco tempo.
  Tomei-lhe as mos e apertei-as com fora:
   Estava pensando no que lhe disse aqui o ano passado. Isto hoje tem muita diferena. E vinha comunicar-lhe...
   Que tem voc? Est com raiva?
   Com raiva? No  possvel.
  Ela sentou-se junto a mim:
   Largaram-me. Os criados fugiram, e o Adrio, enfadado, foi jogar solo em casa do Vitorino. Adormeci. Levantei-me agora mesmo. Olhe esta cara amarrotada.
  Aproximou-se, risonha, e logo recuou:
   Est com uma carranca de ru.
  Agarrei-lhe bruscamente os braos:
   Tenho-lhe muita estima, acredite. Muita estima. Sempre tive.
   Sim, eu sei, balbuciou Lusa com desconfiana. Para que esses modos esquisitos?
   Eu ia dizer h pouco. Tenciono retirar-me daqui, vou-me embora.
  Era uma ideia que me havia surgido com a presena dela e que manifestei sabendo que a no realizaria.
   Vai-se embora? Para onde? E por qu? perguntou Lusa erguendo-se. Que resoluo foi essa?
  Fiquei um instante calado, pensando em Nazar e olhando as trepadeiras da grade.
   Fale, tornou Lusa com despeito. No  s bater as asas sem  mais nem menos.  preciso que se saiba. Que foi que aconteceu?
  -  que receio prejudic-la. Continuando como vamos... Imagine. 
  Levantei-me. Estava convencido de que tinha realmente a inteno de abandon-la. 
  - Quero que acredite...  para mim um sacrifcio, j se v. Mas se isto continuar... Reflita.
   Joo Valrio, interrompeu Lusa com voz trmula, eu no creio que esteja aborrecido de mim e procure um pretexto para se afastar.
   No. Ora essa! Que lembrana!
   Seja franco, diga-me o que h.
  - H apenas isto: teria muito pesar se fosse causa de um desastre na sua vida. Nem sei, j agora sinto remorsos. 
   Tem medo? 
  - No  isso:  que num lugar pequeno como este ho de desconfiar, ho de mexericar. H o Miranda, h o Neves...
  - Pois, meu filho, eu estou disposta a sacrificar-me para ser agradvel aos outros. Se formos ouvi-los...
  Ainda relutei francamente:  
  - Podem saber. H o Miranda, o Miranda  terrvel. Se isto se divulgar, que escndalo!
  - Se se divulgar...
  Estava plida, com os olhos quebrados, e falava precipitadamente, embrulhando tudo:
   Talvez no se divulgue... Afinal, suceda o que suceder, sofreremos as consequncias.
  - Abracei-a com furor. Sobre o banco do jardim os nossos suspiros morreram. As folhas dos tinhores agitavam-se em silncio. E a gara displicente erguia o bico no mesmo conselho mudo, invarivel, que nunca pude compreender.

  Vinte e Treis   
  Na farmcia Neves, o dr. Liberato saiu do consultrio, relendo uma receita, que entregou ao ajudante:
  - Despache isto, mande levar  casa do Teixeira.
  O rapaz, familiarizado com aqueles garranchos, decifrou  demora: faltavam duas drogas. O mdico tomou o lpis, riscou, substituiu:
  - Mande levar logo.
  E ia retirar-se quando Nazar entrou apressado:
  - O Neves est?
  Tinha ido ao Riacho-do-Mel, ver umas terras, voltava  noite.
  - Novidade? perguntou o dr. Liberato abrindo a portinhola.
  -  a reproduo de uma frmula, explicou o Miranda. O doutor estava a? Desculpe, no o vi. Muito boa tarde a todos. Vinha to aporrinhado que no vi ningum. Uma coisa que o senhor me deu o ano passado, valeriana, bromureto, no sei qu. Lembra-se?
  - Perfeitamente. Outro acesso?
  -Outro acesso! respondeu o tabelio tirando o chapu, enxugando o suor que lhe corria pela testa.
  Sentou-se no banco, junto a mim e Isidoro, que fumvamos com imensa preguia, assando ao calor das quatro horas:
  - Vejam que infelicidade. No posso ter um momento de sossego.
  - Mas como foi isso? informou-se Isidoro. H tanto tempo que ela no tinha nada...
  - H seis meses, mais de seis meses. Parecia curada, at engordava. Mas hoje amanheceu triste - algum arrufo com aquele palerma - e de repente, quando menos se espera, l vo gritos, desatinos e, zs! arranhes na cara do noivo.
   Tambm ele  culpado, balbuciou Isidoro. No ata nem desata.
    o que eu digo, concordou Nazar. Quem quiser casar case logo, v noivar no inferno. Retardando, amolando... Levou unha, ficou com o focinho escalavrado. E foi benfeito. A pequena, quando est naquela desordem, gosta de arranhar. Fora daquilo  uma ovelha, uma santa, mas gosta de arranhar Encontrou a frmula?
   Encontrei, respondeu o empregado.
   Pois eu mando buscar o remdio daqui a pouco. At logo. E saiu.
   Eu nem sei se posso aviar isto, disse o ajudante chegando se  grade.
   Outras drogas que faltam? inquiriu o doutor.
   No senhor,  que ele no paga. J levei a conta um bando de vezes. No avio: acabou-se a valeriana.  melhor assim: no se gasta nada, e amanh a moa est boa.
  Isidoro indignou-se:
   Que horror! Deixar uma pessoa sofrendo por causa de cinco mil-ris, dez mil-ris! Mande a garrafada. Espere, no me interrompa. Mande. E se ele no pagar, debite-me.
  Desculpou-se:
   Tenho negcio com o Miranda. Umas escrituras. Depois desconto.
  Pusemo-nos a rir, sabamos que era mentira.
   Extraordinrio! chasqueou o dr. Liberato dando as costas. 
  De longe, no Quadro, ainda se voltou:
   Voc faz sempre dessas transaes, Pinheiro?
  Censurei Isidoro com amizade. Que prazer extravagante! Deitar dinheiro fora! Nazar no precisava daquilo, era rico. E no obsequiava ningum.
  Isidoro Pinheiro, de cabea baixa, defendeu-se:
   Eu devo ao Miranda. E gosto do Miranda.  amigo,  leal, ouro de lei. E a Clementina, coitadinha, to alegre anteontem, jogando domin com a gente em casa do Mendona! Agora batendo, arranhando...
  Deixou aquela conversa, que lhe desagradava:
   Outro assunto: eu soube a umas histrias. No acreditei,  claro. Protestei.
  Levantou-se, foi  porta da rua, olhou para os lados, voltou, sondou o fundo do estabelecimento, certificou-se de que o empregado estava longe, manipulando.
   Como, Pinheiro? perguntei estremecendo.
   Picuinhas, cachorradas. No acreditei, est visto. 
   Diga logo. Para que esses subterfgios?
   Eu no sou de subterfgios, todo o mundo sabe, Joo Valrio. No sou de subterfgios, no ando com panos mornos. Quem me conhece... Afinal deixemos isto. O que me disseram foi que voc estava amigado com a mulher do Adrio.
   Oh! Pinheiro! balbuciei magoado com aquela palavra dura.
   Fui bruto, realmente, confessou Isidoro. Mas no tive tempo de suavizar. Repeti o que me contaram.
   Quem lhe disse? Foi o Miranda?
   No. Isso no importa. O essencial  terem dito. Ora, se h alguma verdade...
   Qual verdade! qual nada! Calnia. 
   Exatamente o que eu afirmei, calnia, que o Valrio no ia fazer canalhice to grande com o Adrio. E a mulher dele, virtude inquebrantvel, incapaz, absolutamente incapaz de um deslize. Em todo o caso fica voc avisado, porque enfim no  bonito que a pobre moa caia na boca do mundo. Eu, se fosse comigo, deixava de ir l. 
  Tive o impulso de justificar-me perante aquela alma simples:
   Deixar de ir l, Pinheiro? Mas se no tenho nada com ela! Julga que devo preocupar-me...
   Julgo que a reputao dela est sendo prejudicada por sua causa.
   Mas que culpa tenho eu? Voc  testemunha, quase sempre estamos juntos. Quando os outros jogam, conversam, tocam, recitam, nem sequer fico na sala: vou para a varanda fumar. Que foi que viram esses excomungados bisbilhoteiros? De mais a mais  que diabo!  no se quebra assim do p para a mo um hbito de seis anos, sem motivo.
   Motivo h, interrompeu Isidoro. 
   Umas suspeitas idiotas, homem, uns aleives. Que motivo! E no posso afastar-me de supeto. At o marido desconfiava. Outra coisa: imagine que eu goste dela. No como lhe disseram, mas que goste sem malcia, como nos livros. Imagine. 
   Gostar de uma mulher casada! atalhou Isidoro. Voc  capaz disso! 
   E que ela tambm goste de mim.  uma hiptese. Sem malcia, naturalmente, como nos romances. 
   Patacoadas! Que necessidade pode sentir a Lusa de gostar de voc, se j tem um homem? E deixe-se de maluqueira. No h por a tanta mulher?
  Levantei os ombros com impacincia. Para contentar Isidoro bastava usar saias e ter volume.
   Est bem, Pinheiro, exclamei de mau humor, erguendo-me. Isto no interessa.
   Como no interessa? Interessa muito. Feitas as contas...
   Voc no entende nada.
   No entendo? retorquiu Isidoro, vermelho como um pimento. Pois muito bem. Quando a pobrezinha estiver para a, abandonada da famlia, e voc, seu Don Juan de meia-tigela, de cama, com uma roda de pau no costado, veremos se eu entendo. Voc nem sabe em que se meteu. O Adrio  uma fera.
  E levantou-se, feroz, carrancudo, soprando ruidosamente, uma chama nos olhos. Passeou alguns instantes em silncio, da grade para a porta, como um bicho zangado. Depois acendeu um cigarro:
   Eu em questes de honra sou intransigente. E vou tomar baque. Quer tomar conhaque?
   No, bom proveito, agradeci despeitado.
   Est certo. Vamos ento chegando a casa, que daqui a pouco  o jantar.
  Na rua atirou disfaradamente um nquel ao bolso de um ego. Diante da penso, j tranquilo, parou, bateu-me no ombro:
   Pois, menino, o que voc me disse  o diabo. Se o Adrio morresse, seria um desastre, sem dvida, que ele  a melhor Ressoa do mundo, mas o seu caso ficava solucionado. Aquilo, sim! Casamento esplndido. Que olhos! que braos! que toitio! Voc nem sabe quem est ali. Mulher ideal, fmea sublime. Se fosse viva... Mas com o Teixeira vivo, realmente no sei.  o diabo.
  Vinte e Quatro
  Seria uma felicidade para mim, decerto, a morte de Adrio. Desgraadamente aquela criatura tinha sete flegos. Hoje quase a morrer de olho duro, vela debaixo do travesseiro, a casa cheia, padre ao lado, os amigos escovando a roupa preta  e amanh arrimado  bengala, perna aqui, perna acol, manquejando.
  Decididamente o dr. Liberato  um sujeito desastrado: deixa que se vo os doentes que fazem falta e adia o fim dos inteis. Guiomar Mesquita, com dezoito anos, flor de graa e bondade, como diz Xavier filho, depois de quatro meses ora arriba ora abaixo, l se foi em maro. E a mulher do sapateiro, a tsica, ainda vive. Enquanto, carregado de apreenses, eu tentava acrescentar uma pgina aos meus caets, ouvia-lhe a tosse cavernosa.
  Vendo Adrio estirado, a gente perguntava:
   H perigo, doutor?
   Se no sobrevierem complicaes, julgo que no h perigo. 
  No sobrevinham complicaes. A aurcula, o ventrculo, as vlvulas, continuavam a funcionar  e Adrio, combalido, existia.
  E tudo seria to fcil se ele desaparecesse! Afinal no era ingratido minha desejar-lhe o passamento, que no lhe devia favor. Conservava-me porque o meu trabalho lhe era proveitoso. Amizade, proteo, lorota. Hoje no h disso. Se eu no tivesse habilidade para sapecar a correspondncia com desembarao e encoivarar uma partida sem raspar o livro, punha-me na rua.
  Eu dava mais do que recebia, na opinio do Mendona. Em todo o caso nunca ousei descobrir a mim mesmo o fundo do meu corao. No chegaria a pedir aos santos, se acreditasse nos santos, que abreviassem os padecimentos do Teixeira. Tergiversava. As minhas ideias flutuavam, como flutuam sempre.
   noite passava tempo sem fim sentado  banca, tentando macular a virgindade de uma tira para o jornal de padre Atansio. Impotncia. O relgio batia nove horas, dez horas. O pigarro do dr. Liberato era abominvel. Na sala de jantar, Isidoro, Pascoal e d. Maria jogavam as cartas, tinham s vezes contendas medonhas.
  Danavam-me na cabea imagens indecisas. Palavras desirmanadas, vazias, cantavam-me aos ouvidos. Eu procurava coorden-las, dar-lhes forma aceitvel, extrair delas uma ideia. Nada.
  Ces ladrando ao longe, galos nos quintais, gatos no telhado, serenatas na rua, o nordeste furioso a soprar, sacudindo as janelas.
  "Jurado amigo..." Carta a um juiz de fato, mofina contra o jri, que absolveu Manuel Tavares, assassino. Depois de muito esforo, consegui descrever o tribunal, o presidente magro e asmtico, gente nos bancos, o advogado triste e com a barba crescida, o dr. Castro soletrando o libelo. No ia, emperrava. Tanto melhor, que padre Atansio, bem relacionado com o Barroca, no havia de querer publicar aquilo. E que me importava que Manuel Tavares sasse livre ou fosse condenado? Um criminoso solto. No vinha o mundo abaixo por ficar mais um patife em liberdade.
  Antes o soneto que abandonei por falta de rima. Torci, espremi  trabalho perdido. Eu sou l homem para compor versos! Tudo falso, medido.
  O que eu devia fazer era atirar-me aos caets. Difcil. Em 1556 isto por aqui era uma peste. Bicho por toda parte, mundus traioeiros, a floresta povoada de juruparis e curupiras. Mais de cem folhas, quase ilegveis de tanta emenda, inutilizadas.
  Talvez no fosse mau aprender um pouco de histria para concluir o romance. Mas no posso aprender histria sem estudar. E viver como o dr. Liberato e Nazar, curvados sobre livros, matutando, anotando, ganhando corcunda,  terrvel. No tenho pacincia.
  Enfim ler como Nazar l, tudo e sempre,  um vcio como qualquer outro. Que necessidade tem ele, simples tabelio em Palmeira dos ndios, de ser to instrudo? Quem dizia bem era Adrio: "Essas filosofias no servem para nada e prejudicam o trabalho"
  Adrio. L vinha novamente o Adrio. Que acaso infeliz amarrara quele estafermo a mulher que devia ser minha? Cheguei tarde. Quando a conheci, j ela era do outro.
  E pensar que h indivduos que tm tudo quanto necessitam! Para mim, dificuldades, complicaes.
  Tinha medo do que diziam de Lusa, encolhia-me aterrorizado, evitava os conhecidos, no ousava encarar Nazar. No escritrio, certos modos impacientes de Adrio davam-me tremuras. Santo Deus! Que teria observado aquele animal? que iria fazer quando chegasse a casa? Despropositar, martirizar a pobrezinha com uma cena de cime. Isto me revoltava. Que direito tinha ele de se mostrar ciumento? Um sujeito enfermio, cor de manteiga, com as entranhas escangalhadas...
  E eu a esconder-me, a fugir de Isidoro, que me aperreava:
   Se ela fosse viva... Isto de saias eu conheo bem. Se fosse viva...
   Mas no , homem, respondi-lhe por fim, irritado. Deixe-me em paz. Eu no posso casar com uma mulher casada.
  E a d. Maria Jos, que um dia achou inocentemente que eu era feliz, retorqui de um flego, com dureza:
   Feliz por qu, d. Maria? Que  que a senhora quer dizer?
  Ela espantou-se. Queria somente dizer o que tinha dito, mas se eu sentia prazer em ser infeliz, estava acabado, pedia desculpa. O italiano riu, Isidoro encolheu os ombros, o dr. Liberato fez uma careta e decidiu:
   Voc, meu caro, no est regulando. Vou examin-lo amanh.
  Vinte e Cinco	
  O Silvrio, baixinho, cabeudo, escovou o pano verde, limpou a tabela, trouxe as bolas e giz.
   Partida em cinquenta pontos? perguntou o italiano.
   Em cem, disse Isidoro arregaando as mangas da camisa. Saio eu?
  Jogou, saltou-lhe a cabea do taco.
   Ora...
  No conteve uma praga obscena.
   O Silvrio, por que  que no h aqui um diabo que preste? Est tudo rachado e torto.
  Escolheu o taco que lhe pareceu menos ruim. Depois tomou o giz e examinou a qualidade:
   Sim senhor, boa marca. Tambm  s o que se aproveita neste bilhar, o giz. E o dono, que no  mau. Voc quer acabar de uma tacada? Passou? Muito bem. Faa esse recuo, carcamano de uma figa.
  Marquei os pontos. E ia admirar o jogo do italiano, o mais forte de ns trs, quando o dr. Castro entrou por uma porta e Nicolau Varejo por outra.
   Seja bem aparecido, seu Varejo, gritou Pascoal. Comeamos agora. Quer jogar?
   Obrigado, respondeu Nicolau Varejo. J deixei isso. Antigamente, quando tinha a mo firme e a vista perfeita, no senhor, at carambolava. Naquele tempo havia muito bons jogadores. Eu conheci um homem...
   Sesso de jri amanh, doutor? inquiriu o italiano. 
   Se houver casa. S faltam dois processos.
   Uma desgraa essa histria de jri, gemeu Silvrio. Um dia inteiro sem comer. Ontem fui almoar s sete da noite.
   Pois foi muito bem feito, afirmei com um bocejo. Era melhor que ainda estivesse jejuando. Os senhores absolveram Manuel Tavares. Que  que ia dizendo, seu Varejo? Conheceu um homem...
   Levado da breca, jogava um ms sem parar. Caminhava tanto que o cho se cavava e a tabela batia-lhe no queixo.
   Admirvel! exclamou Isidoro. Que diabo tem esta luz que est tremendo tanto? Continue, seu Varejo.
  E perdeu uma srie bem principiada.
   Quantas carambolas fazia o homem? perguntou Pascoal.
   Todas, respondeu Nicolau Varejo. Trs, quatro, cinco, mil, tudo. Quem sabe onde tem as ventas no acaba nunca. 
  Jogamos algum tempo em silncio.
   Noventa e nove, gritou o Pinheiro. Esto fritos. 
  Procurou posio para um giro difcil, trepou-se na tabela e, quase de gatinhas, conseguiu carambolar.
   Cem, com todos os diabos! berrou saltando no cho. Eu bem tinha prometido ensinar estes pexotes.
   Continuamos ns? perguntou o italiano.
   No vale a pena, respondi. Seu Silvrio, o tempo. 
  E, recolhendo o troco:
   Sempre os senhores puseram na rua o Manuel Tavares, hem?
   Eu no! exclamou o dr. Castro. Foi o jri.
   Manuel Tavares, um caso triste, atalhou Isidoro. Um infeliz, coitado. Afinal de contas...  Silvrio, mude a gua desta bacia. Como  que a gente lava as mos nesta imundcie?
   Um caso triste, sem dvida. Mas o jri... o jri  soberano, explicou o dr. Castro. Foi o jri.
   O jri? estranhei. O senhor tambm. Est visto. O senhor apelou?
   No, no apelei, disse o promotor. No apelei porque o juiz de direito, os jurados... O senhor compreende. E um crime como aquele... Enfim no apelei.
   E ento? Foi o senhor. Manuel Tavares, um assassino, um bandido da pior espcie!
  Vendo-me exaltado, Isidoro segredou-me:
   Deixe l, homem. Que  isso?
   Mas no  verdade, Pinheiro. No foram os jurados, foi o promotor. Os jurados absolveram, mas quem soltou Manuel Tavares foi aqui o doutor, que se esqueceu de apelar. Foi ou no foi?
   Eu entendo de jri? resmungou Isidoro. O que sei  que vou para casa, tomar um suadouro, que estou constipado. 
   No quer dizer. Pois  claro. Um criminoso que matou um hspede adormecido... E para roubar!
   Estava no meu direito, urrou o promotor. No preciso que ningum me d lies.
   Livre, sem apelao, continuei. Que diz voc, Pascoal?
  O italiano ps-se a assobiar baixinho. Eu andava indignado com as perfdias de Nazar, e no podendo vingar-me dele, mais de uma vez me havia tornado agressivo contra o dr. Castro, que se defendia mal.
  O Silvrio sorria constrangido. Isidoro, da porta, chamou-me:
   Vamos embora.
  Ia retirar-me, convencido de que o promotor era um grande canalha, quando Nicolau simulou uma tentativa de pacificao, inteiramente inoportuna:
   No se afobem, meus amigos. Contenham-se. Um fuzu a esta hora, as portas abertas, gente na rua! No briguem. Amanh sabem...
   Quem  que est brigando, seu Varejo? retorqui com mau modo.
    que os senhores conversam aos gritos. E o Neves passou a em frente, parou acol na esquina. Quando andarem fuxicando, no vo pensar que fui eu.
   E o senhor julga que eu me importo com o Neves? No me importo, no tenho medo dele. Nem dele nem de ningum, bradei com falsa coragem, porque todos aqui temem o Neves.
   Exatamente o que eu ia dizer, declarou o dr. Castro. No tenho medo de ningum. Nem do Neves nem de ningum. De ningum! Tenho a minha conscincia. Era o que eu ia dizer. A minha conscincia. E sou bacharel.
   Ah!  bacharel? Meus parabns.
  E olhei-o com escrnio por cima do ombro do Pascoal, que se meteu de permeio. Aparentando calma, comecei a escovar a gola do palet, esforando-me por ter firmes os dedos, que tremiam ligeiramente.
   Joo Valrio, gritou Isidoro com raiva, voc vem ou fica?
   J vou, Pinheiro. Foi voc que perguntou ao dr. Castro se ele era bacharel? Eu no fui. Foi voc Pascoal? Foi o senhor, seu Varejo? Tambm no foi. Est a.
  O dr. Castro deu dois passos, apoiou a mo gorda na tabela do bilhar:
   Senhor Valrio!
   E discurso?
   Com mil diabos! exclamou Isidoro.
   No senhor, gaguejou o promotor, roxo. No sou nenhum tolo, est ouvindo? E no tenho medo de ningum, compreende? Nem do senhor, nem do Neves, nem de ningum. No sou nenhum tolo.
   O senhor j disse.
   J. Era o que eu queria dizer. E a minha conscincia  limpa. 
  - Qual conscincia! Soltou Manuel Tavares porque lhe mandaram que no apelasse. Ora conscincia!
   Conscincia, sim senhor. Conscincia. E no admito. Sou amigo de todos, no gosto de questes, mas no admito. Nas atribuies inerentes ao meu cargo...  isto mesmo, est certo. Tenho integridade, no vergo, tenho... tenho integridade.
   Bonito! Recebeu ordem...
  - No recebo ordens, no me submeto. Firme, entende como ? Escravo da lei, fique sabendo. Comigo  em cima do direito, percebe? Desde pequeno. A minha vida  clara. Cabea levantada, com desassombro, na trilha do dever, ali na linha reta, compreende? Ora muito bem. No ando seduzindo mulheres casadas. 
   Como?
    isto mesmo. No vivo com saltos de pulga, ningum encontra em mim rabo de palha. Amigo de todos, mas com seriedade, sem maroteiras.
   E quais so os saltos de pulga? Quais so as maroteiras que um pulha de sua laia descobriu...
   Joo Valrio! bradou Isidoro intervindo.
   Tenha pacincia, Pinheiro, isto vai longe.
  E afastei o Silvrio, que suplicava:
   Aqui no, meus senhores. Vou fechar as portas. Em minha casa no. Se vier a polcia... O promotor metido num rolo!
   Pelo amor de Deus! balbuciou Nicolau 'Varejo.  um mal-entendido. Eu explico. Calma! No tempo da monarquia... Ouam,  uma histria interessante.
  Empurrei brutalmente o Pascoal:
   Deixe-me, com os diabos! Eu sou alguma criana? O que eu quero  que este idiota me diga...
   Idiota  sua me.
   ...quais so as maroteiras minhas que ele conhece.
   As que todo o mundo sabe. Safadezas com a mulher do outro. Passeios na Lagoa, no Tanque... E o pobre do Adrio sem desconfiar.
  Com um pulo, desprendi-me das mos do italiano e agarrei um taco, resolvido a quebr-lo na cabea do promotor:
   Repita isso, canalha. Repita, seu filho de uma...
  No acabei o insulto. Isidoro segurou o brao do bacharel e cochichou:
   No repita, doutor, no repita. Porque se repetir, quem lhe parte a cara sou eu, palavra de honra. Acontea o que acontecer, juro por todos os santos que lhe quebro as costelas. E no torne a aparecer l. Sou amigo da casa e hei de achar meio... No aparea. O senhor  um caluniador. Vamos embora, seu Valrio.
   Puxa! fez o Pascoal depois de andarmos algum tempo na rua. Que falta de ordem! Um barulho sem motivo.
  Isidoro parou e pediu-me fsforo.
   Foi tolice, concordou. Que querem vocs? Eu precisava desabafar com aquele sujeito.  bom rapaz, mas portou-se mal com a Clementina. Parece que desmancha o casamento.
  Vinte e Seis
  Prezado amigo:
  No tenho nimo de assinar esta carta nem de escrev-la com a minha letra. Venho participar-lhe um ingente infortnio. Prepare-se para receber a notcia mais infausta que um homem de brio pode receber.
  Saber que servem de assunto a boateiros desocupados as relaes pecaminosas que existem entre sua esposa e o guarda-livros da firma Teixeira & Irmo. Envidei sumos esforos para reprimir comentrios desabonadores. Inutilmente. O indigno auxiliar do estabelecimento que o amigo dirige, com muita competncia, esqueceu benefcios inestimveis e, mordendo a mo caridosa que o protegeu, ao negra, condenada em estrofes imortais pelo nosso imperador, ousou levantar olhos impudicos para aquela que sempre reputamos um modelo de virtudes.
  E os sentimentos libidinosos do celerado foram bem acolhidos. Algum viu esse ingrato passeando com a amante pelos arrabaldes, na aprazvel companhia de uma respeitvel matrona e duas gentis meninas, ignorantes das maldades que pululam neste mundo de provaes. Tambm se julga com fundamento que o nefando par esteve unia tarde no Tanque,  sombra frondosa das mangueiras, como diz o poeta.
  Enfim, meu caro, o seu nome est sendo atassalhado, vilmente atassalhado em todos os recantos da urbe.
  H poucos dias, num bilhar, o sedutor teve discusso acalorada com o digno rgo da justia pblica. Foram quase s vias de fato, e no decurso da contenda surgiram referncias prejudiciais  honra de sua excelentssima consorte.
  Penalizado em extremo, trago-lhe estas informaes lamentveis. Pea ao Divino Mestre coragem e resignao. 
  Sou um dos seus amigos mais sinceros.
  Deixei cair a folha datilografada sobre o dirio. Depois senti nojo. Afastei-a com as pontas dos dedos e abri o razo. Creio que no pensava em nada. Ou talvez pensasse em tudo, mas era como se no pensasse em nada. Pus-me a tremer com violncia e a bater os dentes. Percebi que aquela atitude me condenava e esforcei-me por cerrar os queixos e dominar os msculos, o que no consegui.
   Joo Valrio, gemeu Adrio, peo-lhe que me diga com franqueza...
  Esfreguei os olhos para afugentar uma nuvem escura que flutuava entre mim e o livro aberto.
   A verdade, Joo Valrio.
  Atentei no velho com espanto: tinha-me esquecido da presena dele.
   A verdade...
  E lembrei-me de Nicolau Varejo, do dr. Liberato e do Miranda.
   Sim, Joo. Leu o papel.
   Que papel?
  Meti os dedos pelos cabelos, sacudi-me para vencer um entorpecimento que se apoderava de mim. Adrio Teixeira avanou a mo e levou uma eternidade a apanhar a carta, que me entregou pela segunda vez. Reli aquela imundicie e compreendi que era trabalho do farmacutico. Estabeleci alguma ardem nas minhas ideias e contive os nervos. Afinal Adrio no tinha visto nada.
   Ento, Valrio, no responde?
   Responder... Ora est a. De duas uma: ou o senhor no acredita, e neste caso...
  Olhei, por cima das grades do escritrio, as pipas de aguardente e os sacos de acar.
   Ningum. Foram jantar. Continue, fez Adrio. E deixemo-nos de palavrrios difceis, que no gosto deles.  verdade ou mentira?
   Mentira, naturalmente.
  Depois de longo silncio, Adrio falou desalentado:
   Sou uma besta. No vai confessar,  claro. Mas... nem sei. Desde ontem esta misria! No dormi.
  Acendeu um charuto, sentou-se, pesado, junto  mquina de escrever.
   Vamos, Joo, exclamou. Eu preciso tomar uma providncia, uma providncia razovel. Desquite, separao decente.
   No h nada, assegurei fechando os livros. Era o que eu ia dizer h pouco. Se o senhor no der crdito a esta infmia, pode dispensar a minha resposta; se der, ainda que eu jure mil vezes...
   E voc  capaz de jurar, homem?
   Com certeza.
   Ah! sim! murmurou o infeliz. No cr em Deus. No cr em nada. Ningum cr em nada. E pensar que o tive em conta de filho! pensar que... Vo-se embora.
  Interrompeu-se para falar a Vitorino e aos empregados, que entravam:
   Fechem, podem retirar-se. Cinco horas? Bem, deixem uma porta aberta. E voc, mano... Fechem isso! Por quem esperam?
  Quando eles saram, soltou o charuto apagado, cruzou as pernas e ps-se a bater com o calcanhar no tablado do escritrio. De repente levantou-se, agitou os punhos:
   E eu o julguei amigo seis anos!  duro! E tinha inteira confiana... Podia imaginar tudo neste mundo, tudo, menos isto. Ainda ontem descansado, longe de sonhar... Defenda-se.
  Por amor de Lusa, menti descaradamente:
   Defender-me? E de qu? Eu tenho l de que me defender! Uma carta annima. Isto vale nada!
   E a sua cara! Voc nem sabe mentir.
    suposio. No tem fundamento. Que foi que o senhor viu? Notou alguma transformao em sua casa? No notou.
  E ento! Quer  fina fora que eu confirme esse disparate que o Neves inventou, o Neves, um sujeito conhecido.
   O Neves?
   No foi outro. No h aqui ningum capaz de semelhante patifaria. O Divino Mestre, leia.  ele, no tem dvida. E o inundo de provaes, veja. No foi seno ele.
    exato, ciciou Adrio. Deve ter sido ele. Um malandro. Mas o caso  este: andam atassalhando o meu nome por todos Os recantos no sei de qu, pelos bilhares. E o culpado  voc.
   Eu? Eu tenho nada com isso? E um absurdo, uma acusao injusta, sem prova. No me defendo. De qu?
  E cruzei os braos. Adrio encarou-me:
    possvel que voc esteja inocente. Se estiver, perdoe-me. E  possvel que seja um traste. De qualquer maneira compreende que no pode ficar nesta casa.
   Compreendo.
    necessrio sair logo.
   Perfeitamente.
   Vamos ento balancear isto. E faa-me uni favor. Promete?  Prometo, respondi sem refletir.
   Pois bem. Eu sei que voc recebeu uma proposta do Mendona. Aceite agora a proposta. Amanh liquida aqui os seus negcios e coloca-se l. Depois de um ms, deixa o Mendona e vai para o Recife ou para a Bahia. Acho conveniente no mudar-se logo, para no dar nas vistas. O Mendona... voc entende... melhor ordenado... um pretexto. Fale com ele. Estamos de acordo? O ms vindouro, como ficou resolvido para a Bahia. Leva uma carta de recomendao.
   Muito obrigado. Estamos de acordo, mas no aceito a recomendao. Vou para o Rio.
    bom. E amanh o balano.
   At amanh.
  Sa. Entrei no estabelecimento do Mendona: Mendona no estava. E Mendona filho? Tambm no estava, fora passar uma procurao no cartrio do Miranda.
  Corri em busca de Isidoro, queria confiar-lhe tudo. 
    d. Maria, chame o Pinheiro, gritei da porta.
  Tinha ido  casa do Miranda. Respirei com alvio porque de sbito me havia aparecido um grande acanhamento de contar aquela desgraa.
  Desci a rua dos Italianos e estive de longe olhando o jardim a varanda do casaro. Senti um n na garganta, engoli um soluo e dirigi-me  rua de Baixo, como se fosse tratar de algum negcio urgente. No ia tratar de coisa nenhuma, mas precisava agitar-me, andar depressa.
  Ao passar pela rua Floriano Peixoto, achei conveniente embriagar-me: subi ao Quadro, fui ao Bacurau e pedi conhaque. Bebi um clice, pedi outro, bebi, pedi o terceiro. Acendi um cigarro e esperei o efeito do lcool. As minhas ideias tornaram-se mais lcidas; o que senti foi um aperto no corao e desejo de chorar. Bebi o ltimo clice, levantei-me e enfiei pela rua de Cima.
  Adiantei-me at o Melo. Noite fechada. Recuei, decidido a procurar padre Atansio, distrair-me conversando com ele. Dei uma caminhada ao Xucuru.
   Louvado seja Nosso Senhor Jesus Cristo.
  No se via quem falava, porque a escurido era grande. Nem se ouviam os passos: o vulto movia-se como uma sombra. Mas pela voz, muito suave, reconheci o caboclo. Que andaria ele fazendo por ali quela hora? Talvez procurando recurso para me pagar quinze mil-ris que lhe mandei quando esteve preso. Pagava. Mata para roubar, mas no deve dinheiro a ningum.
   Boa noite, Manuel Tavares. Passeando?
   Sim e no. Sim porque gosto de caminhar; no porque estou de servio. Vou levar um ofcio a Quebrangulo.
  Recordei o corpo de gigante, as mos enormes, os olhos midos, o rosto duro, a barba emaranhada, tudo a contrastar com a doura da voz.
  - Do promotor, o oficio?
  - No senhor, do doutor delegado. Eu agora estou ajudando o destacamento.
  - Ah! Voc  soldado?
  - Sou e no sou. Soldado, propriamente, no sou. Pra fazer sentinela no sou. Mas quando h diligncia, trabalho do co, e Os macacos do governo amunhecam, sou.
  - Pois  um bom emprego, Manuel Tavares. Continue.
  s nove horas entrei na redao da Semana. Padre Atansio, debruado sobre a mesa, dormia profundamente, o rosto escondido nos braos. Respirava com rudo e tinha roxas as orelhas enormes. Sentei-me  banca que foi minha, l desocupada desde janeiro. Obedecendo a um velho hbito, abri a gaveta e tirei um mao de aparas de papel.
  - Por aqui, seu Valrio? exclamou o sargento chegando  porta da tipografia. Pensei que nos tivesse deixado.  uma ingratido. O seu Pinheiro  que no falha, pontual, firme nas Sociais. Quer que acorde o patro?
  Fiz um gesto negativo com a cabea.
  - Sabe se o dr. Castro est na cidade, sargento? perguntei bruscamente, levantando-me.
  - No sei. Ele tambm aparece aqui s vezes. At escreveu uma poesia. O senhor leu? Uma histria de luar e de sapos. Saiu no fim da quarta pgina. O reverendo meteu dois versos que faltavam, mas seu Miranda diz que est tudo quebrado. Brigaram. Julgo que o casamento gorou. O senhor no traz nada?
  - No trago nada, sargento. E isso  exato, a briga deles? Adeus.
  Que azar de Clementina! Sempre os casamentos que do em ossos de minhoca! Melhor para ela. Antes continuar arranhando, que um marido como aquilo no presta. E melhor para mim: ia procurar o Pinheiro, o que no faria se receasse encontrar o bacharel.
  Ao passar pela casa do Miranda, vi Clementina  janela: 
   O Pinheiro est a, d. Clementina?
   Est, sim senhor. Fizeram um jogo l dentro, por causa do dr. Barroca, que chegou hoje.
   A senhora faz o obsquio de pedir a ele que venha at
   Ao dr. Barroca?
   No senhora, ao Pinheiro.
   Pois no. Por que no entra? Esto na sala de jantar, o Valentim Mendona tambm. Entre.
   Ah! O Mendona est a?
  Acompanhei-a. Diante da mesa de jogo falei duas vezes antes que os parceiros me respondessem: tinham os olhos em chamas e puxavam as cartas uma a uma, lentamente. Finda a partida, Evaristo Barroca estendeu-me a mo com aquele modo de superioridade protetora, que lhe fica bem e que abomino.
    Pinheiro, d-me aqui fora uma palavra?  um instante.
   Impossvel, meu filho, inteiramente impossvel. Ocupadssimo. O pquer  uma grande instituio. Faa uma perna.
  Detesto as cartas, mas naquela ocasio julguei que elas me seriam teis. Se o Teixeira soubesse que eu tinha estado a jogar, talvez se imaginasse injusto.
   O senhor entra? perguntou Evaristo baralhando. 
   Entrada de quanto?
   Cem mil-ris, disse o tabelio entregando-me as fichas. 
  Paguei e sentei-me:
   Cinco mil-ris?
   Cinco, respondeu Evaristo. O senhor joga? Pois eu sou forado a reabrir. Quer cartas?
   Duas.
  Evaristo Barroca soltou o baralho:
   Fala o senhor.
   Mesa.
  E pensei nas amarguras que me iam aparecer no dia seguinte. O que eu devia fazer era esperar o Neves  sada da sesso de espiritismo e dar-lhe uma sova. Era o que eu devia fazer, mas sou um indivduo fraco, desgraadamente.
   Para iniciar aposto apenas uma, disse Evaristo com aquela voz sossegada, aquele olhar tranquilo que nunca mostra o que ele tem por dentro.
   Vejo, doutor.
  E atirei a ficha.
   Que tem o senhor? perguntou ele.
  Mostrei uma trinca de damas.
   Ganha.
  E franziu os beios delgados.
   Homem, essa agora! exclamou Valentim Mendona. O doutor estava feito. Como foi que o senhor conheceu que aquilo era bluff? O doutor no pediu.
  Abandonei um par de ases:
   Preciso falar com o senhor hoje ou amanh cedo, seu Mendona. Com o senhor e com seu pai. Ele est a?
  Mendona filho levantou o queixo quadrado e props que fssemos procurar Mendona pai. Se era assunto de interesse, devamos ir logo.
   Corno! bradou o Pinheiro. Negcio a esta hora?  uma indignidade. Outro bluff, doutor? Muito bem. O bluff  uma grande instituio. D cartas, Mendona, que diabo! Voc est namorando com o Valrio?
  Arriscou uma reabertura com trinca branca e atacou o Miranda, que tinha sequncia:
    possvel? Voc pede duas e faz sequncia? E mxima? Abra os dedos, criatura, isso assim na mo ningum v. Confiana, naturalmente, todos ns somos de confiana, mas jogo  na mesa, e tenho visto muita sequncia errada. 
  Joguei duas horas, distrado. 
  O que eu queria era saber por que razo no me vinha o nimo de esbofetear o Neves uma tarde,  porta da farmcia. No bilhar do Silvrio levantei o taco para rachar a cabea dr. Castro. E arreceava-me de molestar o Neves. Por que ser que aquele velhaco me faz medo?
   Joga? 
   Jogo, respondi separando trs reis. 
  Evaristo reabriu. 
   Outra reabertura, doutor? Santa Maria! O senhor leva o dinheiro todo, reclamou Valentim Mendona.
  Tirei um rei. Evaristo e Mendona no quiseram cartas. 
  J que me faltava coragem, no seria mau dar cinquenta mil-ris a Manuel Tavares e mandar que ele desancasse o boticrio, no Xucuru, que  quase deserto.
   Fala voc, Joo Valrio, resmungou o tabelio. Assim, no se acaba isto.	
   Aposto duas.
   Duas e mais quatro, disse Evaristo. 
  Mendona fugiu.
   Vem ver? perguntou o Barroca.
   No senhor, reaposto. Mais quatro. 
  E deitei na salva as oitos fichas que me restavam.
   Vamos ento com mais oito, gracejou Evaristo. E desta vez, estou forte, pode crer.
   Ainda reaposta, doutor? Vejo. D-me a oito fichas, Pinheiro. Vejo com um four de reis.
   Perde, fez Evaristo calmamente. 
  E mostrou um four de ases. Levantei-me.
   Safa! exclamou Valentim Mendona. J  ser caipora. Onde estava eu metido! Deixa? Tambm vou. Os senhores continuam?
  E contou as suas fichas, apressado, entregou-as a Nazar para recolher.
    Pinheiro, chamei, quando voc voltar para casa, preciso falar-lhe, ouviu? Boa noite, meus senhores.
  Isidoro, que chorava as cartas com ferocidade, teve um grunhido que terminou numa praga:
   Ora plulas! Estas miserveis estragam tudo no fim. Vo-se embora, hem?  uma traio.
  Samos. Quando nos separamos,  esquina da padaria, Mendona interrompeu o estribilho que ia cantarolando: 
   Ento, esse negcio que tem conosco...
    isto. Os senhores me fizeram uma proposta por intermdio de padre Atansio.
   Sim, em dezembro.
   E escreveram insistindo. Respondi que no aceitava, mas que, se me desempregasse, contassem comigo. Caso ainda estejam pelo oferecimento... Deixo os Teixeira.
  Lembrei-me de que tinha prometido a Adrio s ficar na cidade um ms:
   Isto , se houver vaga. No quero prejudicar ningum. 
   H vaga, confessou Mendona. O guarda-livros de l enrascou a escriturao e levou-o o diabo. O senhor teve algum pega com os Teixeira?
   Ah! no!  que h vantagem. E ando necessitado. A crise... Adeus.
   Aparea.
  Desci at o fim dos Italianos, encostei-me  esquina do armazm.
  Vigia prolongada. Se pudesse falar com Luisa... De quando em quando surgiam sombras entre as palmeiras do jardim, mas era a minha impacincia que se distraa a criar fantasmas. Acerquei-me da grade.
  Esperana doida de encontrar Lusa. Que lhe teria dito Adrio? Imaginei-o de pijama e chinelos, coxeando pelo quarto, a bradar com os punhos cerrados: "Pensar que sempre tive confiana na senhora! Defenda-se!" E a carta, cem vezes relida, amarrotada entre os dedos magros.
  Desgraado desejo de conhecer as coisas. Melhor teria sido para ele no acreditar na denncia e continuar como ia.
  Voltei para a calada do armazm e ruminei o procedimento do Neves. Que interesse tinha ele em revelar aquilo? Nenhum. Mostrar que sabia.
   Animal infeliz! exclamei em voz alta.
  Referia-me ao Neves, a Adrio, a mim, ao Miranda Nazar, a toda a gente. Necessidade idiota de saber e espalhar o que sabemos.  Depois de muitos dias ou muitos anos de canseira e conjectura, um sujeito descobre uma lei da natureza  outro faz uma carta annima contando os amores de Lusa Teixeira com um Joo Valrio como eu.
  Vinte e Sete
  Recolhi-me tarde, deitei-me vestido e s cinco horas consegui adormecer. Antes que o despertador tocasse, Isidoro bateu-me  porta. Levantei-me precipitadamente.
   Que era isso que voc queria comigo ontem  noite? perguntou entrando.
  E, enquanto eu descerrava a janela:
   Se  o dinheiro que lhe devo, tenha pacincia, meu velho, que ontem me arrasaram. Sosseguei-o.
   No ? Pois sim. Pelaram-me, arrancaram-me duzentos mil-ris aqueles malvados. Tambm est decidido, no torno a pear em cartas. Uma lio. De madrugada quase estouro aqui, berrando. Voc estava morto? Que negcio  esse?
  Narrei a carta, o furor de Adrio, a minha promessa de ir para o Rio. Isidoro empalideceu:
   Fale baixo: o Pascoal pode ouvir.
  Andou, alvoroado, de um lado para outro, depois sentou-e na cama e ps-se a dar pancadinhas com a unha do polegar nos dentes.
    terrvel! Voc com certeza negou, hem? Naturalmente. E no h nada,  claro. Ele ter percebido alguma coisa? 
   No. Creio que no, s a carta.
   S a carta... O que voc deve fazer  procurar o autor dessa misria e quebrar-lhe os ossos. Eu queria saber...
   Que  que voc queria saber? Foi o Neves.
   O Neves? O Neves  capaz disso? Um tipo circunspecto.
   Foi ele. Havia espiritismo na denncia: o Divino Mestre e as provaes. E no dia da encrenca no bilhar, com o promotor, ele estava de parte, escutando. O Varejo notou. Foi ele.  o nico.
  Isidoro ergueu-se, aproximou-se da janela, abriu a rtula:
   Pois, menino, agora volto atrs. Se foi o Neves que escreveu isso, o caso  diferente. Eu no creio, mas se foi ele, fez com boa inteno. O Neves  um sujeito de moral muito rija. Que diabo tem aquele povo a correr desembestado?
  Acendeu um cigarro, contente por haver encontrado meio de desculpar o boticrio:
   No tenha dvida. Boa inteno, pode jurar. Os espritas so assim intransigentes.
  Debruou-se para fora e, noutro tom:
   Mas que demnio  aquilo? Todo o mundo correndo e o Vitorino em mangas de camisa! E  em casa do Adrio. O homem ter feito alguma asneira?
  Samos para a calada. O dr. Liberato passava, com um estojo na mo.
   Que foi, doutor?
  O mdico no respondeu.
   Vamos ver, balbuciou Isidoro, lvido.
   Vamos ver.
  Com o rosto por lavar, despenteado e sem chapu, acompanhei-o, aturdido, nem reconheci Xavier filho, que deu de cara comigo.
   Que diabo  aquilo, Xavier? Voc esteve l? perguntou Isidoro.
   Um tiro no peito. No ouviram? O homem suicidou-se.
   Quem? interroguei apavorado.
   O Adrio. Ainda no souberam? Est num mar de sangue. Vou buscar algodo e gaze.
  Apressamos o passo. Entramos com dificuldade, encontrando gente que ia e gente que vinha. No porto havia um comeo de rixa. Um sujeito apostava que tinha sido tiro; outro afirmava que fora uma navalhada no pescoo  e no se entendiam. As flores dos canteiros estavam machucadas. Ao pisar a escada, ouvi gritos de mulher l em cima.
  Parei, com um violento tremor nas pernas, segurei-me ao corrimo, tomei a passagem a d. Josefa, que chegava, alva como cera e com um p descalo. Naturalmente perdera um sapato no caminho. Sem pedir licena, empurrou-me e subiu.
   Pinheiro, murmurei acovardado, julgo que no devo entrar. No devo entrar aqui.
  Isidoro fez uma careta:
   Vamos sempre. Eu tambm no posso tolerar. No est em mim. Questo de nervos. Mas vamos.
  Galgou quatro degraus:
   Se voc no viesse, compreendiam logo. Uma tentativa, percebe? Salvar a reputao dela.
  Achamos o salo cheio de intrusos que tinham invadido a casa e se apinhavam nas portas, interrompendo o trnsito. Zacarias trouxe uma bacia de gua. D. Josefa veio com uma braada de toalhas e roupa branca. Depois foi Xavier filho acotovelando tudo, carregado de pacotes.
   Tudo para fora, gritou o dr. Liberato, arreliado e invisvel. Faam o favor de desocupar a sala, que no so necessrios. Para fora.
  Lentamente, a massa de basbaques refluiu. Penetramos na saleta.
   Horrvel! murmurou Isidoro. Que insensatez! Logo de manh, antes do caf...
  Vitorino, cado para um canto, o rosto escondido entre o brao e o antebrao, soluava. Tinha a roupa manchada de sangue.
   Que desastre, meu filho! exclamou padre Atansio entrando e abraando, atrapalhado, o Pinheiro. Como foi? por que foi?
   No sei, padre Atansio, gaguejou o nosso amigo. De improviso, em jejum, sem avisar ningum. Que loucura! Quando a gente menos esperava, zs! uma bala para dentro. Aqui no peito, foi o Xavier que disse. Um tiro, ningum sabia. Eu ouvi, mas pensei que fosse bomba, agora pelo S. Joo.
  O vigrio, afrontado, soprou ruidosamente, passou o leno pela testa, levantou os braos e olhou o teto:
   Deus do cu! Quem havia de imaginar! Sursum corda! No  pela morte, porque afinal todos l vamos quando chegar a hora. Mas vejam vocs, a extrema-uno... Misericrdia!
  Caiu numa cadeira, junto a Vitorino, e ps-se a chorar tambm. Fui at a porta do salo, espreitei.  entrada do corredor, d. Engrcia, Clementina e Marta gesticulavam. Dirigi-me a elas, nas pontas dos ps.
   Que diz o doutor, d. Engrcia? perguntei ao ouvido da velha.
   Eu sei l!  trabalho perdido, aquele est provo. 
  Veio da alcova um gemido prolongado.
  No senhora, sussurrou Clementina, pode ser que escape. O Neves tratou de um homem...
  Outro gemido cortou-lhe a palavra. Rumor de gua, tinir de ferros.
  O Neves tratou de um homem que fez o mesmo e ficou bom, continuou Clementina. O Neves. A senhora acredita? Estava contando  h pouco, l embaixo.
  Pode ser, concordou d. Engrcia. Mas a menina devia estar calada, que num aperto deste ningum fala. Foi assim que me ensinaram. 
  Disse isto gritando.
  Voltei para a como um sonmbulo. Coisa estranha: ainda no tinha visto Lusa, e nem uma s vez havia pensado nela, Confessei a mim mesmo que era o causador da morte de Adrio, mas no estado em que me achava esqueci a natureza da minha culpa.
  Vitorino continuava a solucionar. Num quarto vizinho, Evaristo Barroca falava com d. Josefa. Padre Atansio assoava-se de manso.
  Aproximei-me do sof onde Isidoro e Nazar conversavam em voz baixa, sentei-me ao lado deles. Mas levantei-me de sbito. Ali abracei Lusa pela primeira vez. Revi toda a sena: os beijos que lhe dei, beijos de carnvoro, o desfalecimento que ela teve. Lembrei-me de lhe ter mordido a lngua com brutalidade, senti gosto de sangue na boca.
  Olhei a roupa manchada de Vitorino e virei o rosto, refugiei-me ao p da janela que d para o jardim.
  Isidoro, espantado:
  - Como tem voc coragem de sustentar isso?
  E Nazar, docemente:
  - Fez muito bem. Doente, escangalhado, vivendo para a a vara e a remo! Antes acabar logo.
  Evaristo Barroca entrou na sala, inclinou a cabea de leve, bateu com afeto no ombro de Vitorino e levou-o para o interior.
  Olhei o renque de palmeiras, os tinhores, a gara de bronze, o banco. Voltei as costas.
   Mas um suicdio, homem! exclamou Isidoro.
  E Nazar, erguendo a voz:
   Tanto faz morrer assim como assado. Tudo  morrer. Crucificado ou de priso de ventre, em combate glorioso ou na forca  o resultado  o mesmo.
  Interrompeu-se: o dr. Liberato chegava, ainda com as mangas arregaadas, enxugando as mos. Levantaram-se todos: 
   Ento?
  O doutor no parecia contente.
   Onde foi o tiro? comeou padre Atansio.
   O percurso... ia dizendo o dr. Liberato.
  Mas Isidoro atalhou:
   No  isso, o percurso  difcil. Queremos saber se a bala foi ao corao.	
  - Que disparate! replicou o outro. Se o homem est vivo! Atingiu um pulmo,  l que ela deve alojar-se.
   Ah! o senhor no extraiu? perguntou Nazar.
   Extrair o qu? Os senhores pensam que  s meter o ferro ali dentro e ir arrancando  vontade. V mexer naquilo. Est l guardada.
   No pulmo? fez Isidoro com alvio. Ento pode ser que se salve. O Poincar tambm tem uma bala no pulmo. 
   Quem  o Poincar? disse o vigrio.
   Ficou mais calmo, acrescentou o dr. Liberato. Se no sobrevierem complicaes...
   Quem  o Poincar? tornou a perguntar o reverendo.
   Um grande homem, padre Atansio, explicou Isidoro. O senhor no conhece? Um que foi presidente da repblica na Frana... ou na Inglaterra, no estou bem certo. Tem uma bala no peito, eu li num jornal. O Poincar... ou o Clemenceau, um dos dois.
  Clementina chegou-se como uma sombra.
   Ele quer falar com o senhor.
   Comigo, d. Clementina? Quem? exclamei.
   Seu Adrio. Venha depressa.
   Mau! fez o dr. Liberato com arrebatamento. Digam que no est.
   Mas ele quer, insistiu Clementina. E ns dissemos que estava.
   Pinheiro, gemi ao ouvido de Isidoro, no posso,  terrvel! No tenho coragem.
   Meia dzia de palavras quando muito, concedeu o mdico. Um minuto,  s entrar e sair.
  Isidoro acompanhou-me ao salo:
   nimo! Seja forte. O desejo de uni moribundo... V. E tenha calma.
  Entrei na alcova, cerrei a porta, acerquei-me da cama, tremendo.
   Joo Valrio, ciciou Adrio,  voc? Sente-se aqui perto, d-me a sua mo.
  Sentei-me ao p dele, tomei-lhe os dedos frios.
   Est a? est ouvindo? No vejo nada.
   Estou ouvindo.
  E curvei-me, quase lhe cheguei a orelha  boca para perceber-lhe a voz indistinta.
    uma despedida, meu filho. Preciso pedir-lhe desculpa. Separamo-nos zangados. Aperte-me a mo, Valrio.
  J lha havia apertado.
   J? No senti, no sinto nada do cotovelo pra baixo. Calou-se, julguei que ele estivesse morrendo, quis levantara me para chamar o mdico.
  - Deixe l, rapaz. Ainda no chegou a hora.
   Tentei sosseg-lo com algumas trivialidades que me ocorreram.
   Isso no interessa, murmurou Adrio. E no tenho tempo para conversar muito. Oua. A histria da carta foi tolice. Exaltei-me, perdi os estribos. Lusa est inocente, no e verdade?
    verdade.
   Acredito. E j agora, com um p na cova, no devo ter cimes. No faa caso do que lhe disse ontem.
  Diligenciei acomod-lo, mas temi que ele se magoasse.
   Isto passa logo, Valrio. De qualquer forma estou bem. E no se aflija com a minha morte. Esta vida  uma peste. Havia de acabar assim. Adeus. D-me um abrao. Adeus... at o dia do juzo.
  Abracei-o, com o corao rasgado:
   At a semana vindoura, ou a outra quando muito, que o senhor fica bom.
   At l em cima, se nos encontrarmos l em cima. Padre Atansio est a? e o Miranda, os amigos todos? Pois eu quero despedir-me deles.
  Sa. Ao atravessar o salo, encostei-me a uma parede por, pie os mveis em torno comearam a girar. Isidoro, que me esperava  entrada da saleta, amparou-me. Apertei a cabea com as mos e entrei a soluar desesperadamente. Eram soluos secos, speros, que me agitavam todo o corpo. Ao mesmo tempo sentia marteladas nas fontes, zumbiam-me os ouvidos.
  Como uma criana, acompanhei Isidoro. E como uma lana, comecei a dar pancadas na testa com a mo fechada. Depois tive necessidade de afrouxar a gravata e o colarinho.
  Lembrei-me do desejo de Adrio, quis chamar os amigos da casa, mas no pude descerrar os queixos. Para desembaraar-me da incumbncia, puxei o brao de padre Atansio, que se desviou assustado. Fiz o mesmo com Isidoro e com o Miranda. Creio que eles me tomaram confio doido. Mergulhei as mos nos cabelos. Estaria realmente doido?
  - Sossegue, criatura, disse padre Atansio. Todos ns sentimos muito. Mas enfim... a opinio da cincia... Onde est Vitorino?
  Recobrei a voz a custo.
   Despedida? fez o dr. Liberato. No. Ele j falou demais. E. a Clementina, que apareceu novamente:
   Tenha pacincia, d. Clementina. Doente  calado, na cama.
  Clementina sumiu-se.
   O pior  que com esta confuso ainda no almocei, continuou o doutor. Estou modo. E morto de fome.
  Chamou a Teixeira:
   O Xavier saiu? Pois eu tambm vou sair. Volto logo. E nau deixe essa gente invadir o quarto, d. Josefa. At j.
  Quando me sentei  mesa, depois de ensaboar a cara e mu dar a roupa, o dr. Liberato dava pormenores inteis.
  Que entendo eu de alvolos? que me importava a pleura? O que eu queria era saber se Adrio morria ou escapava.
  Repeli o prato, levantei-me.
   O senhor no almoa? perguntou d. Maria Jos. Por qu? Ainda hoje no comeu, est de jejum natural. Venha almoar.
   No senhora. Vou tomar um banho.
  Vinte e Oito
  Passados oito dias, Adrio morreu. Morreu pela madrugada, enquanto Nazar estava no quarto a velar. Eu bocejava, derreado na poltrona de padre Atansio, quando o tabelio me tocou de leve no ombro:
   Afinal o homem descansou.
  Ergui-me, sem compreender. Percebi, vagamente, e bradei: 
   Como?
  Ele pediu silncio:
    bom no fazer espalhafato. Vamos avisar os outros. 
  E entrou na saleta.
   Que foi, Valrio? que foi? perguntou d. Josefa, saindo repentinamente da sombra do corredor.
  Depois daquela crise, na promiscuidade e na azfama dos dias de angstia, existia entre ns todos uma familiaridade entranhvel. Dormamos quase sempre juntos, homens e mulheres, sentados, como selvagens. Muitas necessidades sociais tinham-se extinguido; mostrvamos s vezes impacincia, irritao, aspereza de palavras; pela manh as senhoras apareciam brancas, arrepiadas, de beios amarelentos;  noite procurvamos com egosmo os melhores lugares para repousar. Enfim numa semana havamos dado um salto de alguns mil anos para atrs.
   Que foi, Joo Valrio? tornou a Teixeira.
   No sei, respondi procurando esquivar-me. O Miranda disse a umas coisas, mas eu no entendi.  melhor a senhora ir perguntar a ele.
  Ela correu  alcova, voltou e abraou-se comigo, soluando.
  -  possvel?  exclamou Isidoro, que veio da saleta com Vitorino.  Esta hora! No acredito. S vendo.
  Mas no foi ver, porque tem horror aos mortos. Tentei acalmar a Teixeira, que j me havia molhado o ombro de lgrimas.
  - Vamos chamar Lusa  disse ela, afastando-se rpida e recuperando a deciso costumada.
  Corajosa. Nem parece filha de Vitorino.
  Encontramos Lusa na sala de jantar, encostada  mesa, dormindo sobre um brao estirado. Marta ressonava, deitada num banco. Encolhida entre o guarda-loua e a parede, Clementina cochilava. Levantaram-se. E nem foi preciso que falssemos: pela minha perturbao, pelo rosto alterado da Teixeira, compreenderam logo. No silncio s se percebia a voz de d. Engrcia, ove atormentava as criadas na cozinha. 
  Fazia uma semana que eu no falava com Lusa. No primeiro dia ela ficara para um canto, cheirando ter e bebendo flor de laranja. No a vi. Depois, naquela organizao de acampamento brbaro, baixava a cabea e estremecia quando a encontrava. Creio que ela tambm fugia de mim. Em consequncia as suspeitas haviam esmorecido. O arrufo que d. Josefa mostrara uma tarde, no passeio  Lagoa, desaparecera. Nazar olhava-me s vezes com modo estranho, franzia a testa e estirava o beio. O suicdio de Adrio era explicado como efeito de longos padecimentos e embaraos comerciais. "Uma nevrose", dissera o dr. Liberato. E esta frase curta, que poucos entenderam, teve grande utilidade.
   Ento? perguntou Lusa.
  Como continussemos calados, tombou na cadeira e comeou a chorar. Marta Varejo acercou-se dela, tremendo. Clementina foi at a porta do corredor, recuou com medo de d. Engrcia, que passava, e gaguejou:	
   Pode ser que escape. J se tem visto. O Neves tratou de um homem que fez o mesmo... s vezes  uma sncope. 
  Tinha os olhos molhados. 
  Constrangido entre aquelas duas espcies de dor, voltei para o salo, onde d. Engrcia arengava:
   Mas o senhor deixou o homem morrer sem vela, seu Miranda? 
    verdade.
   E para que estava o senhor no quarto? Bonito enfermeiro! Era melhor que tivesse ficado em casa: passvamos sem o seu auxlio. A vela benta a h uma semana! 
   Deixe l, replicava Nazar sem se alterar. Morreu bem sem isso.
  Vitorino, na alcova, sacudia o irmo, tentando ainda reanim-lo. Esgotado por oito dias de sobressaltos e insnia forada, eu andava s tontas. No retinha nada no esprito, e aquele desenlace surgia-me como uma cena indistinta entre as nvoas de um sonho ruim.
  Havia claridade na sala. Abri uma janela, olhei o sol que nascia, num desperdcio de tintas derramadas pelos montes. Voltei as costas com indiferena.
    necessrio tratar desses arranjos, disse Isidoro.
  O Vitorino no pode. Quer encarregar-se, Miranda? No? 
  Hesitou um instante.
   Pois vou eu. Vamos ns, Joo Valrio.
  Descemos. No porto encontramos o dr. Liberato.
   Que aborrecimento! exclamou. Quando j ia parecendo Dora de perigo!
  Seguimos em direo ao Quadro.
   Como  que se faz isso? perguntou Isidoro. Eu de funerais no entendo.
   Nem eu.
   Diabo! Naturalmente  preciso encomendar caixo. E sei, atura. Que trapalhada! Afinal foi bom termos vindo: sempre  melhor do que estarmos no meio daquela choradeira. Adeus. Vou acordar padre Atansio. Ele me ensina.
  Afastou-se. E, como eu quisesse acompanh-lo:
   No senhor. Enterro  coisa sria.
  Entrei em casa, estive deitado meia hora. Pareceu-me ouvir a respirao gorgolejada, as pragas, os gemidos de Adrio. E vi debaixo das cobertas a figura de Lusa, muito modificada. Avaliei que ela devia ter perdido de trs para cinco quilos. Plida, com os cabelos em desalinho, uma ruga na testa.
  Alvolos pulmonares, era assim que o dr. Liberato dizia. 
  Para o inferno!
  Levantei-me, peguei a toalha e dirigi-me ao banheiro. De volta, encontrei d. Maria Jos dando milho ao canrio.
  - O senhor hoje madrugou, hem? Estranhou com um sorriso. Como vai o doente?
  - Morreu.
  E, para arrefecer-lhe a curiosidade:
  - Finou-se,  com Deus, descansou, foi-se embora. E eu quero que a senhora me d um pouco de conhaque.
  - A esta hora? Tome antes uma xcara de caf.
  - No senhora. Preciso dormir, e no posso dormir. Traga o conhaque.
  Ela trouxe a garrafa, de mau humor. Tinha aconselhado, mas cada qual era senhor do seu nariz. Meteu rodeios e falou de novo na morte de Adrio. Ouvi distrado, bebi o conhaque, tranquei-me no quarto e adormeci profundamente.
  Despertei cerca de meio-dia, s pancadas repetidas que o italiano dava na porta. Ergui-me sobressaltado, quase com vergonha: gente de comrcio sempre se apoquenta quando acorda tarde. Depois tranquilizei-me? O escritrio no se abria. Vesti-me devagar, novamente atormentado com a lembrana daquela outra Lusa, desleixada e de olhos queimados pelas lgrimas.
  - Voc estava bbado?  perguntou-me o italiano quando entrei na sala de jantar.  Quase derrubo a porta. Que sono! Naturalmente foi a carraspana que tomou pela manh.
    Dona Maria Jos espinhou-se. Invencionice! Contara apenas que eu tinha bebido um clice de conhaque, e o Pascoal no fazia bem em continuar com aquelas brincadeiras.
  O dr. Liberato falou em Adrio. Organismo estragado. Era possvel que ele no tivesse morrido em conseqncia do tiro.
 - E de que morreu?  inqueriu Pascoal.  Ora essa! Todo mundo est vendo.
   De males antigos  explicou o mdico.  Uma criatura com balida, todos os meses na cama...
  Aludiu as regies que a bala havia tocado, isto bastou para que o outro  retrasse.
  
  Mastiguei quatro bocados amargos e voltei o rosto, enojado. Ia beber o ltimo gole de caf quando notei a ausncia de Isidoro.
  E o Pinheiro? informei-me. Onde andava o Pinheiro? Ningum sabia. O italiano vira-o pela manh na loja do Mendona, depois na botica do Neves,  procura de incenso, e por fim a conferenciar com Jau marceneiro, defronte do cinema.
  D. Maria Jos referiu que o sineiro tinha vindo  hospedaria, pedir desculpas: no podia dobrar os sinos por um suicida.
   E  pena. Um homem to religioso enterrar-se como pago!
   Interessante, disse o dr. Liberato rindo. Ignorava isso Vai para l agora, Joo Valrio?
   Muito cedo. A que horas  o enterro?
   s quatro, parece.
  Quando entramos no casaro, tudo l estava transformado. Ao desconcerto da longa semana tinha sucedido uma ordem aparente e falhada, que devia durar um dia. Por todo o canto haviam passado as mos hbeis e diligentes de Marta recompondo, aumentando, eliminando.
  No centro do salo, sobre duas mesas juntas, vestidas de preto, descansava o caixo funerrio, entre crios acesos. Dos ngulos pendiam coroas de flores naturais, com fitas roxas. Nas paredes os quadros desapareciam, disfarados por grandes manchas negras. Uma colcha escura cobria o piano, e as almofadas tinham mscaras de luto. As cortinas, baas, permaneciam. Os tapetes tambm. Faltava um, vermelho, e no lugar dele avultava outro, enorme e tenebroso. Da alcova, atravs da porta meio aberta, voava um fio de incenso. E havia um cheiro enjoativo. A disposio dos mveis fora alterada.
  Nas cadeiras, em redor do fretro, padre Atansio, Evaristo Barroca, Nazar, Cesrio Mendona, o administrador e o dr. Castro conversavam quase em silncio. Com um papel na perna, Vitorino tentava redigir um telegrama. Senhoras iam e vinham: d. Engrcia, d. Eullia Mendona, a Teixeira velha, Marta Varejo, d. Josefa. Na saleta de espera Clementina arranjava numa cesta de laos pretos cartas e cartes de psames, ainda com os envelopes intactos. Ao p da janela aberta sobre o jardim, Mendona filho fumava, s escondidas. Fez-me um aceno e cochichou:
   Quando  isso? O senhor sabe? 
  Puxou o relgio:
   O convite que recebi marcava para quatro horas. Passam quinze minutos. Se esta maada continuar, dou o fora. 
  Atirou pela janela a ponta do cigarro: 
   E aquele negcio? Eu falei com o velho. O senhor no apareceu... 
   No pude aparecer. E agora no contem comigo. 
   Foi o senhor que se ofereceu. Veio espontaneamente,  bom lembrar.
   De acordo, mas no esperava isto. 
  Vi Nicolau Varejo l embaixo, de roupa verde, chapu branco, sapatos amarelos. Ia convid-lo a subir quando Isidoro entrou no jardim: 
   Por aqui, seu Varejo? Como vai a bizarria? Chegue c para cima. O senhor a derrete as banhas. 
  Nicolau Varejo tirou o chapu, abanou-se, disse que gostava do calor. Coitado. Ficava ali, ao sol, com medo da filha. 
   Ento volta a palavra atrs? inquiriu Mendona filho. Fica o dito por no dito... 
   Naturalmente, respondi dando-lhe as costas. Fica o dito por no dito. 
  E fui ao encontro de Isidoro:
   Voc almoou, Pinheiro? 
   No, comi um po com sardinha no Bacurau. 
  Ensopou o leno no suor que lhe corria pelo rosto, diligenciou aprumar o colarinho empapado:
  - Afinal acabei a tarefa, e penso que no esqueci nada. Voc viu as cartas de convite que mandei imprimir? No tive tempo de escrever, a redao  de padre Atansio. Primorosa. Encontrei na tipografia um clich bonito e mandei coloc-lo no frontispcio  um anjo com as asas abertas em cima de um tmulo. Esplndido!
  Fortunato Mesquita chegava com o doutor juiz de direito, Xavier pai, Xavier filho e o Monteiro agiota.
  Nazar aproximou-se de mim:
   Por quem esperamos? Temos gente de sobra.
  Realmente no salo havia pessoas em p. Estavam l os indivduos que vo aos bailes da prefeitura, os que levam o plio nas procisses e os que frequentam a Semana  comerciantes, empregados pblicos, proprietrios rurais dos stios prximos. Na calada do armazm fronteiro estacionavam sujeitos que no tinham querido entrar, por timidez. Quase todos deviam favores aos Teixeira: Silvrio do bilhar, o sapateiro protegido de Lusa, o sargento, Bacurau, que s vezes auxiliamos em pagamentos de pequenos saques.
   Que diabo estamos fazendo? perguntou novamente o tabelio. So quase cinco horas. Que  que falta?
  - A msica, disse Clementina, que ainda arrumava os cartes na cesta. Ele era presidente da Santa Ceclia. 
   Sem saber msica! rosnou o Miranda.
  E encolheu os ombros: detestava formalidades.
   Se  s o que falta, podemos sair, interveio Mendona filho. A filarmnica est no porto.
   Ufl soprou Nazar. Que trabalho, depois de morto! Pior que um parto.
  E levou o Barroca para junto do caixo, segurou com ele as alas da cabeceira. Cenrio Mendona e o administrador pegaram as do meio. Xavier filho chamou-me para as ltimas, mas Isidoro tomou o meu lugar.
  Vitorino prorrompeu em soluos. Houve uma agitao no corredor.
  Os seis homens atravessam o salo e a antecmara, desceram a escada.
   No vem, padre Atansio?
   No, vou consolar esta gente.
  Na calada formou-se o cortejo, uma espantosa marcha fnebre soou. Deixamos a rua dos Italianos e seguimos em direo  pracinha. Defronte da usina eltrica, curiosos levai taram-se, tiraram o chapu.
  Isidoro soltou a ala do caixo, que entregou ao Monteiro, deu-me o brao e foi-se retardando at ficarmos na cauda do prstito, junto a Zacarias, que chorava, carregado de coroas.
  Passamos o aude, as casinholas que se encostam ao morro do Sovaco, acercamo-nos do cemitrio. Os condutores, fatigados, revezavam-se a cada instante.
  Isidoro conservou-se a distncia, e ao p dos muros sujos, das grades de ferro, simulou um horror exagerado  manso derradeira, como disse, muito srio, acendendo um cigarro.
   Safa! exclamou. Ainda hoje no fumei.
  Ajuntou:
   Est dado o grande passo. Com decncia. Creio que lhe fizemos um enterro conveniente.
  Apontou, atravs das grades, pequeninas cruzes de pau que apodreciam, velhos sepulcros meio desmantelados, tmulos vistosos, a capelinha em runa ao fundo:
   Isto no nos interessa. J cumprimos o nosso dever de amigos e de cristos.
  Voltamos. Outros voltavam tambm, em grupos, desforrando-se do recolhimento em que tinham vindo.
   Ento acabou tudo hoje, hem, Pinheiro?
  E esperei confirmao, porque achava extraordinrio que Adrio tivesse realmente morrido naquele dia. Havia-me habituado a julg-lo morto desde a semana anterior, cem vezes tinha visto mentalmente o rosrio de cenas fnebres: a famlia em pranto, roupas de luto, padre Atansio embrulhando consolaes, a vela benta de d. Engrcia.
   Preciso escrever uma notcia, uma notcia comprida, disse Isidoro. E no  s a notcia: o que eu devo fazer  um artigo sobre o Adrio, para domingo, na primeira pgina.
  - Sim senhor! exclamou Nicolau Varejo aproximando-se. Foi-se para a eternidade um cavalheiro muito...
  Procurou um adjetivo e embutiu:
   Muito importante. Sempre lhes vou contar um caso. Improvisou uma histria para realar a importncia do finado. No lhe dei ouvidos.
  Dominava-me aquela ideia absurda. Pareceu-me que Adrio iria morrer continuadamente. D. Josefa me chamaria sempre para despertar Lusa, Clementina e Marta, e eu chegaria  varanda todas as manhs para ver o sol nascer, e sentiria eternamente aquele horrvel cheiro de incenso que me estava preso s narinas.
  Recuei vendo o Miranda, encostei-me  balaustrada do aude, temi que ele me viesse comunicar pela segunda vez a morte de Adrio.
   Felicitemo-nos, disse Nazar encostando-se tambm. Vamos sossegar. Se o nosso amigo teimasse em viver mais algum tempo, eu ia com ele. No podia aguentar aquilo.
  Debruou-se, ficou a olhar a muralha verde:
   Oito dias sem dormir, malcomido, malbebido! Isto desmantela um homem. Devo estar com tudo por dentro espatifado. Como vai o espiritismo, Varejo?
  Nicolau Varejo confessou que tinha abandonado o espiritismo e agora pendia para os protestantes.
   Diabo! rosnou o tabelio. Voc fez isso com o Allan Kardec? Voc no  camarada.
  E voltou-se para Isidoro:
   O que eu sinto  ter perdido um bom parceiro de xadrez.
   No fale assim, replicou Isidoro. O Adrio tinha timas qualidades.
   Devia ter muitas. Eu conheci uma: jogava xadrez. Para mim uma qualidade excelente.  por isso que tenho pena dele.
  Calou-se. E subitamente, endireitando-se, esfregando as mos:
   Estava aqui pensando na conta que o dr. Liberato vai mandar  viva.
  Estremeci: Lusa era viva. Nazar fechou um olho, calculou: 
   Dinheiro como o diabo, a de cinco para dez contos, alm do que o Adrio j rendeu. Esses mdicos tm uma sorte danada. Isidoro indignou-se:
   Como pode voc ocupar-se com isso, agora, de volta do cemitrio? Voc  um monstro.
  Nazar sorriu:
   Eu? Est enganado. Que  um monstro? Uma criatura diferente das outras da sua espcie, no ? Pois eu sou como os outros homens. Um pouco melhor que uns, um pouco pior que outros. Vulgar. Monstro  voc, Pinheiro. Voc  esquisito, uma espcie de santo. Apesar de todos os seus defeitos, devia ter deixado para nascer daqui a dez mil anos. Voc  monstruosamente bom, Pinheiro.
  Vinte e Nove
  Passaram-se dois meses. Uma noite,  entrada do Pinga-Fogo, Isidoro parou junto a um poste da luz eltrica e atacou-me:
   Em que fica essa histria?
   Que histria, Pinheiro?
  Essa embrulhada. Lembra-se da conversa que tivemos uma tarde na farmcia do Neves? Bulimos com o pobre do Adrio, coitado.
  Tossiu, andou dez metros e estacou defronte da igreja de S. Pedro:
  Est visto que sinto a morte dele. Naturalmente. Era um carter adamantino. Mas enfim  que diabo!  no pode ressuscitar. Parce sepultis! como diz o padre Atansio. E est o seu caso resolvido.
  Baixei a cabea:
  - Eu, Pinheiro, se no me engano... Convm proceder com .rao. Refleti...
  No h ponderao, atalhou Isidoro. O que h  que voc deve casar com a moa, esta  que  a ponderao. No sei o que houve entre os dois. Provavelmente no houve nada. Ou talvez lenha havido. Isso  l segredo seu. O que  certo  que rosnaram por a, voc andava doido por ela e o Adrio deu o couro s varas. 
  - Mas deixaram de falar, retorqui apressado. Voc ouviu alguma coisa, Pinheiro? Que diz esse povo?
  - Que povo! Quem se importa com o povo? A sua obrigao... No se faa desentendido. E um homem honrado... Voc est hoje de uma estupidez espantosa, Valrio.
  Nos Italianos, apontou o casaro:
  - E onde se encontra mulher como aquela? Procure, veja, compare. Eu, se fosse mais moo, dedicava-lhe um poema. 
  Muitas vezes me ocorrera o que Isidoro acabava de sugerir-me. Indeciso.
  Dois meses sem ver Luisa.  noite distraa-me a repetir a mim mesmo que ainda a amava e havia de ser feliz com ela. Hipocrisia: todos os meus desejos tinham murchado. Tentei renov-los, recompus mentalmente os primeiros encontros, na ausncia de Adrio, entrevistas a furto no jardim, a tarde que passamos no Tanque, sob rvores. Mas apenas consegui recordar com viveza um raio de sol que atravessava a ramagem e vinha arrastar-se na pedra coberta de musgo, a gara displicente, um sinal escuro que Lusa tem abaixo do seio esquerdo. Lembrei-me tambm de me haver ela uma vez plantado os dentes no pescoo. Ao cabo de algumas horas a parte mordida estava vermelha e necessitando o disfarce de uma rodela de pano. Depois a mancha se havia tornado gradualmente esverdeada, amarelada, afinal desaparecera. 
  Naquele tempo eu vivia no cu. 
   Que cu! Como se vai morder uma pessoa, brutalmente? 
  E achei que no fazer caso da opinio dos outros  censurvel. 
   Imprudente! disse comigo. 
  Alterando a palavra, corrigi com severidade: 
   Impudente!
  Entretanto Isidoro pensava que eu devia casar com ela. E eu penso sempre como Isidoro.
   Voc tem razo, Pinheiro.  preciso tratar disso, declarei mais tarde na hospedaria. Vou l. 
   Agora? Vai falar em casamento com a mulher assim de supeto, e de noite? 
   No.  s uma visita, por enquanto. 
  Fui. E ao chegar j me arrependia de ter dado aquele passo difcil. Zacarias trouxe-me a notcia de que a senhora estava adoentada.
   Diabo! murmurei retirando-me entre despeitado e contente. Isto por aqui tambm mudou. 
  No dia seguinte pela manh voltei: 
   A senhora pode receber, Zacarias? 
   Est tornando banho, respondeu o preto do alto da escada.  melhor o senhor vir depois. 
  Muito bem. Eu ia tornar-me importuno, no a deixaria to cedo, e a responsabilidade do rompimento ficava para ela. Fui ao casaro oito dias a fio. Antes do trabalho, acendia um cigarro, chegava l, apressado:
   A senhora j saiu do banheiro, Zacarias?
  E ia para o escritrio.
   Julgo que tenho procedido com cavalheirisol, entrei a matutar uma noite. Amanh, ponto final nisto. Com certeza ela imagina que vivo doido por encontr-la.	
  Quando, no outro dia, penetrei no jardim, fazia a promessa de nunca mais pr ali os ps.
   A sinh mandou pedir que esperasse um momento.
  No entendi.	
   Como foi que voc disse, Zacarias?
   L em cima, fez ele mostrando os dentes alvos. 
  Subi, desconsolado.
  Receber-me! E eu que me tinha habituado a ouvir	recusas!
  Zacarias abriu o salo. Tudo transformado: o piano coberto, outras cortinas, uma tristeza que dava frio.	
  Sentia-me obtuso. Nem sabia como tratar Lusa. Fulana ou d. Fulana? Complicao. Talvez ela se melindrasse com um tratamento familiar. Mas atirar-lhe dona, cara a cara,  sem testemunha, era tolice. Dificuldade.
  Ia em plena atrapalhao quando Lusa entrou. Estava de preto e muito plida, foi s o que vi.	
  Com a cabea baixa, aceitei a cadeira que ela me indicou e fiquei a olhar a mancha deixada pela sola do meu sapato numa almofada que desazadamente pisei. Sem me dar a mo, Lusa sentou-se. Creio que tambm se conservou cabisbaixa. Houve um silncio estpido.	
   Vim aqui... arrisquei.
   Vem aqui sempre, atalhou ela. No tenho querido receb-lo.	
  Emendou:
   No tenho podido.  a verdade: no posso. 
  Mordi os beios. E, para acabar depressa:
   O que eu queria era declarar que me considero obrigado... moralmente obrigado...	
  Ela estremeceu, encarou-me:
   Obrigado a qu, Joo Valrio? A casar comigo? 
   A acolher qualquer resoluo sua, respondi timidamente. Supus... compreende? No sei... Todos os dias me preparava para vir.
   E vem depois de dois meses, Joo Valrio? 
   Que havia de fazer? Um golpe, um abalo to grande... E tive acanhamento.  natural. Se foi por isso que me fechou a porta uma semana... 
   No, disse ela erguendo-se. No precisa justificar-se. 
  E, aproximando-se, falando-me quase ao ouvido: 
    que desapareceu tudo.
   Tem certeza? perguntei levantando-me. 
  E percebi logo que a pergunta era idiota. 
   Eu estava com algum escrpulo, continuou Lusa. Talvez o Valrio ainda fosse o mesmo. Estou agora tranquila. Nenhum de ns sente nada, e o Valrio finge tristeza. Para que mentir?
   Faz pena, murmurei comovido. 
  Pareceu-me ouvir a voz mortia de Adrio: "No se preocupe com a minha morte, rapaz. Havia de fazer o que fiz, estava escrito."
   Horrvel! 
  E tentei adornar Lusa com os atributos de que a tinha despojado. 
   Para qu? refleti.  melhor assim. 
  Eu agora era um pequenino Joo Valrio, guarda-livros mesquinho. 
   Adeus, balbuciou Luisa com uma lgrima na plpebra.
  - Adeus, gemi.
  Apertei-lhe a mo, fria, mas os dedos dela permaneceram inertes sob a presso dos meus. Quis beij-los  faltou-me o nimo.
   Adeus.
  Flui at a porta da saleta, voltei-me ainda uma vez. Lusa soluava, cada para cima do piano. Vacilei um instante e depois sa.
  Trinta
  Decorreram mais trs meses. Passei a scio da casa, que Vitorii10 no pode dirigi-la s; Lusa  hoje comanditria; a razo social no foi alterada.
  Abandonei definitivamente os caets: um negociante no se deve meter em coisas de arte. s vezes desenterro-os da gaveta, revejo pedaos da ocara, a matana dos portugueses, o morubixaba de enduape (ou canitar) na cabea, os destroos do galeo de d. Pero. Vem-me de longe em longe o desejo de retomai' aquilo, mas contenho-me. E perco o hbito.
  Vou quase todas as noites  redao da Semana. No para escrever,  claro, julgo inconveniente escrever. Limito-me a dar, quando  necessrio, algum conselho ao Pinheiro. H uns verbos que ele estraga, uns pronomes que atrapalha. Escorregaduras sem importncia: na Semana de qualquer maneira que estejam esto bem.
  E ouo com ateno e respeito as cavaqueiras de Nazar com o dr. Liberato. Quando tm pouco fundo e posso nelas tomar p, agrada-me escut-los, rio interiormente, na iluso de que no sou ignorante de todo. Depois eles afastam-se, mergulham, somem-se, e eu fico desalentado, olhando tristemente padre Atansio que procura segui-los, e o timo Isidoro, que permanece junto a mim.
  Todos os dias, das oito da manh s cinco da tarde, trabalho no escritrio, e trabalho com viger. Ternos ocupao: precisamos inspirar confiana  freguesia e sossegar os fornecedores, mostrar-lhes que podemos gerir o estabelecimento na falta chefe que desapareceu.
  Continuo na penso de d. Maria Jos, mas aos domingos janto com Vitorino. Quase sempre vai Isidoro. A Teixeira, excelente dona de casco traz aquilo muito bonito. H no salo paisagens a leo. Os mveis da sala de jantar foram substitudos por outros, onde porcelanas e cristais novos brilham. Uma habitao confortvel.
  Quando chegamos, fazemos uma visita rpida a d. Mariana, que l est na cama, paraltica, soletrando a correspondncia do padre Ccero. O aposento dela antigamente era um buraco de ratos; hoje  um lugar cheio de ar e luz, com as janelas abertas sobre os canteiros do jardim, as paredes forradas de santos.
  Depois do jantar, ficamos  mesa, fumando, tomando caf, conversando.  noite, na sala, a Teixeira toca, Isidoro recita, Vitorino cochila  seres bem agradveis.
  E se temos a Clementina, so aquelas canes ingnuas que ela diz com um fio de voz muito suave, que nos faz bem  alma e nos enche de piedade e ternura.
  Gosto da Teixeira. Tem uma linda perna, uns lindos olhos, vrias habilidades, e  alegre como um passarinho. No silncio do meu quarto, penso s vezes que a vida com ela seria doce. E digo a mim mesmo que ainda podemos ter quatro filhos vermelhos, fortes e louros. Parece-me que vou casar com a Teixeira.
  A lembrana da morte de Adrio pouco a pouco se desvaneceu no meu esprito. Afinal no me devo afligir por uma coisa que no pude evitar. A minha culpa realmente no  grande, pois esto vivos numerosos homens que certas infidelidades molestam. E sou incapaz de sofrer por muito tempo. O dr. Liberato falou em nevrose, e eu no tenho razo para pretender saber mais que o dr. Liberato. Repito isto a mim mesmo para justificar-me.
  Uma tarde, girando por estas ruas, parei na beira do aude, lembrei-me da estrela vermelha e da noite em que Lusa me repeliu. Afastei-me lento, subi pelos Italianos. O casaro estava fechado agora, e as grades do jardim eram um muro verde de trepadeiras. O pequenino lago, os tinhores, a gara de bronze, tudo invisvel. Como aquilo ia longe!
  Entrei a vagar pela cidade, maquinalmente, levado por uma onda de recordaes.  boca da noite achava-me na calada da igreja.
  Da paisagem admirvel apenas se divisavam massas confusas de serras cobertas de sombras.
  A estrela vermelha brilhava  esquerda. Pareceu-me pequena, como as outras, uma estrela comum. Comum, como as outras. E estive um dia muito tempo a contempl-la com respeito supersticioso, contando-lhe c de baixo os segredos do meu corao. E lamentei no ser selvagem para coloc-la entre os meus deuses e ador-la.
  O vento zumbia no fio telegrfico.  porta do hospital de S. Vicente de Paulo gente discutia. A escurido chegou.
  No ser selvagem! Que sou eu seno um selvagem, ligeiramente polido, com uma tnue camada de verniz por fora? Quatrocentos anos de civilizao, outras raas, outros costumes. E eu disse que no sabia o que se passava na alma de um caet! Provavelmente o que se passa na minha, com algumas diferenas. Um caet de olhos azuis, que fala portugus ruim, sabe escriturao mercantil, l jornais, ouve missas.  isto, um caet. Estes desejos excessivos que desaparecem bruscamente... Esta inconstncia que me faz doidejar em torno de um soneto incompleto, um artigo que se es2.uiva, um romance que no posso acabar... O hbito de vagabundear por aqui, por ali, por acol, da penso para o Bacurau, da Semana para a casa de Vitorino, aos domingos pelos arrabaldes; e depois dias extensos de preguia e tdio passados no quarto, aborrecimentos sem motivo que me atiram para a cama, embrutecido e pesado... Esta inteligncia confusa, pronta a receber sem exame o que lhe impingem... A timidez que me obriga a ficar cinco minutos diante de uma senhora, torcendo as mos com angstia... Exploses sbitas de dor teatral, logo substitudas por indiferena completa... Admirao exagerada s coisas brilhantes, ao perodo sonoro, s miangas literrias, o que me induz a pendurar no que escrevo adjetivos de enfeite, que depois risco... 
  A cidade estendia-se, l embaixo, sob uma nvoa luminosa. O vento continuava a zumbir no arame. Fazia frio. Violes passaram gemendo.
  Um caet, sem dvida. O Pinheiro  um santo, e eu s vezes me rio dele, dou razo a Nazar, que  canalha. Guardo um dio feroz ao Neves, um dio irracional, e dissimulo, falo com ele: a falsidade do ndio. E um dia me vingarei, se puder. Passo horas escutando as histrias de Nicolau Varejo, chego a convencer-me de que so verdades, gosto de ouvi-las. Agradam-me os desregramentos da imaginao. Um caet. 
  Para os lados do Xucuru, meia dzia de luzes indecisas, espalhadas. Aquilo h pouco tempo era dos ndios. Outras luzes na Lagoa, que foi uma taba. No Tanque, montes negros como piche. Ali encontraram, em escavaes, vasos de barro e pedras talhadas  feio de meia-lua. Negra tambm, a Cafurna, onde se arrastam, miserveis, os remanescentes da tribo que l existiu. 
  Que semelhanas no haver entre mim e eles! Por que procurei os brutos de 1556 para personagens da novela que nunca pude acabar? Por que fui provocar o dr. Castro sem motivo e fiz de um taco iverapema para rachar-lhe a cabea? 
  Um caet. Com que facilidade esqueci a promessa feita ao Mendona! E este hbito de fumar imoderadamente, este desejo sbito de embriagar-me quando experimento qualquer abalo, alegria, ou tristeza!
  Se Pedro Antnio, Balbino, pobres-diabos que por a vivem, soubessem exprimir-se, quantos pontos de contacto!
  Diferenas tambm,  claro. Outras raas, outros costumes, quatrocentos anos. Mas no ntimo, um caet. Um caet descrente.
  Descrente? Engano. No h ningum mais crdulo que eu. E esta exaltao, quase venerao, com que ouo falar em artistas que no conheo, filsofos que no sei se existiram!
  Ateu! No  verdade. Tenho passado a vida a criar deuses que morrem logo, dolos que depois derrubo  uma estrela no cu, algumas mulheres na terra...
  Em branco
  Posfcio 
  Uma grande estria
  Lus Bueno
  A histria da publicao de Caets  interessante e complicada. No fim da dcada de 1920, no Rio de Janeiro, algum descobriu uns relatrios originalssimos do prefeito de Palmeira dos ndios, interior de Alagoas: um certo Graciliano Ramos. Em 1931, o poeta Augusto Frederico Schmidt abria uma editora, lanando o primeiro livro de contos de Marques Rebelo e anunciando outras duas estreias: Machiavel e o Brasil, de Octvio de Faria, e Os caets, romance do agora ex-prefeito. No mesmo ano, os leitores puderam conhecer o primeiro desses livros, mas tiveram que esperar at o apagar das luzes de 1933 para terem nas mos o segundo.
  Houve quem visse malcia nessa demora. Afinal, Schmidt era catlico e estaria em posio ideolgica oposta  do homem de esquerda Graciliano Ramos. Outros afirmam que no foi nada disso. O escritrio de Schmidt era uma baguna, os amigos podiam levar para casa e ler os originais antes de publicados. O de Caets perdeu-se, indo para o prelo assim que encontrado. Seja orno for, o livro curtiu cinco anos de gaveta, j que o autor havia lado por terminado seu trabalho ainda em 1928.
  Acontece que, entre 1928 e 1933, um verdadeiro furaco se abateu sobre o romance brasileiro. Se o sucesso alcanado por
  Luis Bueno  professor de Literatura Brasileira da Universidade Federal do Paran (UFPR) e gentilmente autorizou a reproduo do posfcio nesta edio de bolso. (N. do E.) livros como A bagaceira (1928), de Jos Amrico de Almeida, e O quine (1930), de Rachel de Queiroz, j indicava que finalmente, depois de dcadas, a moda naturalista parecia estar passando, os lanamentos de 1933 jogavam uma definitiva p de cal nessa tendncia. Logo no incio do ano, Pagu lanou um romance, Parque industrial, que chamou a ateno ao se apresentar como "romance proletrio". Em julho, sairia o segundo livro de Jorge Amado, Cacau, cuja apresentao se encerrava com a pergunta: "Ser um romance proletrio?" No mesmo ms, a editora que demorava para publicar Caets aparecia com a maior unanimidade da dcada, Os Corumbas, de Amando Fontes. Depois de tudo isso, o livro de Graciliano, construdo no ritmo da pequena cidade do interior, parecia inegavelmente velho, por demais ligado ao romance naturalista, a essa altura morto e enterrado.
  Foi exatamente a partir de sua vinculao com a moda naturalista que se construiu uma tradio de leitura que d a impresso de que Caets  um livro menos interessante do que de fato . Uma das tendncias dessa forma de ler o livro  a de projetar sobre ele o interesse do naturalismo pelo coletivo, a ponto de transformar indivduos em meros tipos representativos de modos sociais de ser e agir.  bem verdade que,  primeira vista, o grupo parece ser o mais importante em Caets. Afinal, h nele inmeros jantares, festas, jogos de xadrez ou p6 quer, enfim, cenas coletivas. Joo Valrio, o narrador, embora preocupando-se com dois assuntos pessoais sua paixo por Lusa e seu romance histrico sobre os ndios caets deixa-se a todo instante levar pela vida social de Palmeira dos ndios, e isso em grande medida contribui para a construo daquela tradio que conduziu ao julgamento de que h no romance um desequilbrio a desfavorecer o indivduo. Mas uma leitura mais atenta notar que esse desequilbrio jamais acontece no livro, cujo foco de interesse  bem outro.
  Ao comentar Suor, de Jorge Amado, Graciliano Ramos deixou assinalada sua preocupao com o caso individual, insistindo que o interesse pelo grupo roubaria do romance a introspeo, o que resultaria em um ganho em superfcie, mas uma perda em profundidade. Para notar como o ganho em profundidade e a explorao da introspeo esto em primeiro plano em Caets, e no o grupo e a superfcie, basta prestar ateno na constituio de seu narrador.
  Nesse sentido, o que chama a ateno em primeiro lugar  que se trata de romance em primeira pessoa, construo que favorece o mergulho psicolgico, mas era abominada pelos naturalistas, que a consideravam limitadora. Afinal, como olhar para um grande grupo a partir do olhar restrito de um ser que se encontra em posio semelhante aos outros personagens? O melhor seria estabelecer um narrador em terceira pessoa que, podendo ver a tudo e a todos, por dentro e por fora, seria capaz de ao mesmo tempo reger e esmiuar os movimentos coletivos das criaturas. Se Graciliano escolhe um narrador em primeira pessoa  porque interessa a ele explorar no aquilo que afeta o corpo coletivo, e sim como repercute no indivduo a vida da cidade como um todo.
  Mais importante do que constatar essa opo pela primeira pessoa, desviante em relao ao modelo naturalista,  saber quem  esse Joo Valrio, j que nele se conjugaro o que h de mais irredutivelmente individual e mais abrangentemente social na existncia humana.  ele o palco em que indivduo e corpo social atuaro em p de igualdade, de tal forma que  impossvel saber o que deriva de sua constituio psicolgica e o que vem da posio que ocupa na sociedade de Palmeira dos ndios.      
  Para entender como isso se d,  preciso admitir inicialmente que, embora respeitado por todos e frequentador das melhores casas, Valrio sente-se inferiorizado em sua cidade. Aparentemente no h motivos para que ele se sinta assim, afinal, tem um emprego que at pode muito bem ser considerado modesto, mas o coloca em distncia segura do trabalho braal ou da mendicncia:  guarda-livros da casa comercial dos irmos Adrio e Vitorino Teixeira.
  O incmodo com essa sua posio se manifesta a todo instante. Logo no segundo captulo, sente-se inferiorizado diante da astcia de Adrio ao encaminhar um negcio. Todo o tempo observa o bacharel Evaristo Barroca, que sobe como um foguete na poltica, e o despreza, embora aqui e ali no consiga deixam de dar vazo  admirao pelo senso de oportunidade que demonstra. Esse desconforto fica especialmente bem registrado no momento em que chega ao jantar de aniversrio de Vitorino Teixeira, no captulo 12. Valrio sai da penso em que mora na companhia de Isidoro Pinheiro. Demoram-se alguns minutos num bar e retomam a direo da casa do aniversariante, encontrando no caminho Adrio e sua mulher, Luisa. Estabelece-se uma curta conversa e logo chegam ao seu destino: "Entramos. E a nossa presena quase passou despercebida entre as efuses com que rodearam Lusa, Adrio, um sujeito gordo e moreno que surgiu logo depois. Evaristo dispensou-me um acolhimento protetor, muito de cima para baixo, e eu me senti humilhado." Valrio no demora muito para ficar sabendo que o tal sujeito gordo e moreno  um bacharel, o novo promotor da cidade. No h como deixar de notar que, mesmo recebido e tratado com considerao por todos na cidade, encontra-se em Posio subalterna em relao ao proprietrio e sua esposa, por um lado, e aos bacharis, por outro.
  E o que o faz crer que merece maior considerao do que j tem? Certas qualidades: "sou desempenado, gozo sade e arranho literatura". Tambm se refere aos cabelos louros e olhos azuis. Enfim, no  rico como Adrio, mas  jovem. No  bacharel como o Evaristo ou o promotor, mas  um intelectual: colabora no jornal dirigido pelo padre, sabe escriturao mercantil, escreve um romance histrico sobre os ndios caets.
   certo tambm que muito de sua insatisfao vem do passado. Sobre suas origens sabemos muito pouco. Quando pela primeira vez o vemos dedicar-se  escrita do romance, diz: "Que estupidez capacitar-me de que a construo de um livro era empreitada para mim! Iniciei a coisa depois que fiquei rfo, quando a Felcia me levou o dinheiro da herana, precisei vender a casa, vender o gado, e Adrio me empregou no escritrio como guarda-livros."
  Mas isso  o suficiente. Entendemos que j foi algum ou, pelo menos, descende de famlia que fora abastada o suficiente para lhe deixar herana a ser roubada, alm de casa e gado a serem vendidos. Desprovido desses bens concretos, alm de outros, como o ttulo de bacharel, v-se diminudo.
  E o que faz ele para conquistar a posio que julga merecer? Nada. Ele no age, apenas contabiliza, como bom guarda-livros, suas duas vantagens: o pendor intelectual e a juventude. F  no por assim dizer exerccio dessas duas qualidades que se revela a importncia do indivduo em Caets. Trata-se, todavia, de um exerccio passivo.  preciso que o leitor desentranhe da impotncia de Valrio aquilo que se passa numa regio profunda qual ele prprio no tem conscincia e que no aflora  superfcie do texto.
  O que parece trabalhar surdamente nas profundezas de Valrio  a ideia de que, para readquirir a antiga posio, na Ausncia tanto de bens concretos com que contar quanto de esprito empreendedor para obt-los, pode valer a pena voltar-se para outro gnero de bens, os simblicos.  preciso entender que no se trata de mera coincidncia que ele se lembre de tentar escrever um romance exatamente no momento em que se concretiza sua queda social. A atividade intelectual, embora no d camisa a ningum, pode ao menos trazer prestgio, considerao. Toda vez que o vemos s voltas com o seu livro  seria melhor dizer com as dificuldades que enfrenta para compor um livro que insiste em no sair do segundo captulo , jamais percebemos um desejo qualquer de comunicar isto ou Aludo. Embora jamais reflita sobre sua atividade de romancista, d indcios de que  outra coisa que o motiva, quando reconhece a fraqueza dos resultados: "Sorria-me, entretanto, a esperana de poder transformar esse material arcaico numa brochura de cem a duzentas pginas, cheia de lorotas em bom estilo, editada no Ramalho." No lhe  difcil, inclusive, admitir a modstia de suas ambies literrias: "Contentava-me uni triunfo caseiro e transitrio, que impressionasse Lusa, Marta Varejo, os Mendona, Evaristo Barroca."
  Fora isso, a vida intelectual parece-lhe mesmo coisa sem sentido  embora s manifeste essa viso reservadamente, em seu quarto de penso. E a reside mais um sintoma de seu sentimento de inferioridade, j que considera aceitvel que algum como o dr. Liberato, por ser mdico formado, preocupe-se com coisas dessa natureza. Mas tal preocupao  injustificvel em outras criaturas, que sente mais prximas de si: "Enfim ler como Nazar l, tudo e sempre,  um vcio como qualquer outro. Que necessidade tem ele, simples tabelio em Palmeira dos ndios, de ser to instrudo?"
  Mas a escrita do romance  apenas um dos dois eixos que pem de p o romance, e apenas uma das duas aspiraes pessoais de Joo Valrio, derivada de apenas uma de suas duas qualidades. O elemento central  mesmo outro: o caso com Lusa. E aqui estamos diante daquilo que em geral se considera a mais pura expresso da individualidade: o sentimento. Logo no incio da histria, ficamos sabendo do amor que h trs anos consome o guarda-livros, levando-o a um ato impensado, fruto do estado passional em que se encontra: Adrio se retira e ele d "dois beijos no cachao" de Lusa. Atitude desesperada, logo se v, de quem necessita resolver uma pendncia de forma definitiva. A moa, tomada de surpresa, reage com energia, mas logo lgrimas interrompem suas palavras. Valrio, ao invs de levar at o fim a situao que ele mesmo criara, simplesmente se retira, solucionando tudo da maneira que lhe  to cara  fugindo.
  O que chama a ateno  que, logo depois desse rompante, v ocupar espao to pequeno em seus pensamentos. Refere-se rapidamente  perturbao em que teria lanado "uma criaturinha to doce e sensvel" para depois se demorar na projeo das repercusses sociais daquela sua manifestao de amor: "E que escndalo!" Primeiro imagina Lusa contando tudo ao marido, que o coloca para fora do emprego. Em seguida, amplia a desgraa, esparramando mentalmente a notcia por toda a cidade, afinal, "segredo que quatro pessoas sabem transpira". V-se, enfim, perdendo at mesmo a posio subalterna que ocupa na cidade, abaixo da qual s lhe restaria uma ainda mais incmoda, a dos vagabundos, contra os quais chega a escrever um artigo. 
  Em nenhum momento esse apaixonado analisa a reao da mulher amada. No procura sinais de aceitao ou de recusa ao seu gesto ousado, se ela lhe permitir repeti-lo. Nem ao menos se interessa em especular se Lusa corresponde a seus sentimentos. Lembra-se dos seres que animam a casa de Adrio toda quinta-feira, passa em revista aqueles que os frequentam e seus pequenos hbitos. Avalia o que perde. Perambula pela cidade e depois recolhe-se. Tem dificuldade para dormir, mas no porque lhe queimasse o corao: "curti uma insnia atroz, rolei horas no colcho duro, ouvindo os roncos dos companheiros de casa e conjecturando o que me iriam dizer no dia seguinte os irmos Teixeira."
   preciso que se passe uma semana inteira para que os pensamentos de Joo Valrio voltem a Lusa. Na quinta-feira seguinte, cumprindo  risca seu plano de fuga, no vai  casa do patro. Fica em conversa com os companheiros de penso e imagina o que se passaria na sala do Teixeira. Primeiro pensa em Adrio, s depois em Lusa, que lhe aparece lendo um romance ou tocando piano ou, por fim, pensando "indignada nos beijos que lhe dei". Aborrecido, isola-se no quarto. Tenta escrever, s consegue fazer pequenas emendas, desiste. S ento vai, pela primeira vez, preocupar-se com os sentimentos de Lusa, ao perguntar-se por que razo ela nada falara ao marido: Veio-me um pensamento agradvel. Talvez gostasse de mim. A, sim, o namorado deixa-se levar pela fantasia, imaginando o marido morto, ela viva, depois casada com ele, depois os quatro filhos crescidos. Enfim, toda uma vida com Lusa.
  E  dessa maneira que a amada desaparece por quatro captulos, tanto do romance quanto do pensamento de Valrio, s ressurgindo em carne e osso no domingo seguinte, j que, instado pelo prprio Adrio, o rapaz vai jantar na casa do outro patro. E  assim que Lusa aparecer em Caets da para a frente: concretamente e no nos devaneios de seu jovem apaixonado. Sua figura se mistura admiravelmente s demais criaturas que transitam pelo romance e Palmeira dos ndios domina irresistivelmente a boca da cena. O sentimento to ardoroso de Valrio se mistura aos eventos comuns da cidade, manifestando-se quase exclusivamente na presena de Lusa.
  Finalmente surge a oportunidade para que Joo Valrio seja plenamente aceito por Lusa e eles se tornam amantes.  evidente que, num lugar pequeno como aquele, logo a coisa  percebida e os problemas comeam. At mesmo uma carta annima  enviada ao marido. Mas a confuso anunciada acaba nem acontecendo. Mais uma vez as dificuldades so removidas sem que Valrio tome qualquer iniciativa. Adrio d um tiro no peito e, depois de oito dias, morre  no sem antes garantir ao empregado que est convencido de que a carta annima que denunciava o adultrio era mentirosa. Assim, subitamente, nosso heri passa de desempregado a scio da casa comercial em que trabalhava, j que Vitorino Teixeira necessita de ajuda para geri-la. Mais do que isso: surge a oportunidade para concretizar o devaneio que tivera naquela primeira quinta-feira em que faltara ao sero na casa dos Teixeira. Com o marido morto, tudo ficava mais fcil. Bastava esperar o tempo devido e poderia casar-se com Lusa, ter aqueles quatro filhos.
  E o que faz Valrio? Sua especialidade: nada. Mas agora h um propsito muito razovel para nada fazer. O amor havia cessado: "Dois meses sem ver Lusa.  noite distraa-me a repetir a mim mesmo que ainda a amava e havia de ser feliz com ela. Hipocrisia: todos os meus desejos tinham murchado?'
  O desejo murcha porque seu objeto profundo desaparecera. Morto Adrio, Lusa no tem mais o encanto que tinha porque era apenas o elemento atravs do qual Valrio faz uso de sua juventude para colocar-se acima do patro, velho e coxo. O amor por ela se parece muito, no final das contas, com o interesse pela literatura. Depois da morte de Adrio, alado  posio de proprietrio, j no precisa de derivativos. Desinteressa-se de Lusa e tambm da literatura. O romance dos caets fica jogado na gaveta, inacabado. A literatura, antes capaz de faz-lo considerado, agora parece algo indigno: "um negociante no se deve meter em coisas de arte." Continua frequentando a redao do jornal do padre, "no para escrever,  claro, julgo inconveniente escrever".
   preciso, no entanto, ao levar tudo isso em conta, no cometer exageros. Pode parecer que o heri de Caets nunca amou Lusa nem se interessou por literatura e que todos os seus movimentos foram feitos deliberadamente no sentido de atingir um objetivo maior, tomar lugar entre os grandes de Palmeira dos ndios. No  verdade. No h cinismo nele. De fato quer escrever um livro e de fato ama Lusa. O desinteresse que surge depois da ascenso social garantida no anula o interesse anterior, ainda que nos ajude a compreender sua natureza.
   que, em Graciliano Ramos, o indivduo  o interesse central, mas no se trata de elemento isolado, no se dissocia da experincia coletiva, social. A individualidade no  algo relacionado apenas ao carter pessoal, nem se forma pelo exerccio isolado de uma psique que se inventa sozinha. O indivduo se molda atravessado de lado a lado por sua experincia social e at mesmo pelas experincias familiares acumuladas antes do nascimento. O recalque social pode muito bem estar na base de sentimentos e preferncias que  primeira vista se mostram como manifestaes da individualidade.
  Visto assim, o heri de Caets deixa de parecer apenas uma desculpa ou um filtro para que o romance se debruce sobre a vida mida e besta da cidade pequena, como acontecera com dezenas de romances publicados na virada do sculo XIX para o XX. Valrio , na verdade, um heri da mesma estirpe de Paulo Honrio, de S. Bernardo e, principalmente, do Lus da Silva de Angstia. Com o primeiro, partilha um desejo imenso de se integrar e ser aceito  Valrio por bem ou por acaso, Paulo por bem ou por mal.
  Com Lus da Silva partilha mais: o passado de maior brilho, o interesse pela literatura. Mas Lus  um esprito inquieto, tem uma vida interior agitada e rica, e Valrio  um medocre de  marca. Assim, Valrio permanece na cidadezinha do interior onde nasce, aceitando a posio subalterna de empregado do comrcio, contando que o romance dos caets possa, um dia, faz-lo respeitado. Lus, ao contrrio, mete-se no mundo, tenta a vida como soldado, decai a vagabundo e se reabilita na capital, como funcionrio pblico e crtico literrio. Ele no  capaz nem mesmo de aceitar como vlida essa "reabilitao", que o mantm mais prximo da vida intil do pai do que da posio de mando do av: jamais se conforma e chega ao homicdio, ponto extremo a que pode chegar a ao individual. Valrio aceita a sociedade no armazm dos Teixeira como reabilitao plena e se satisfaz. Na idade em que Lus est rondando o interior, como vagabundo, j est estabelecido. Enquanto Lus gira sempre em torno das mesmas ideias, como um parafuso, remoendo o passado pessoal e familiar sem jamais encontrar descanso, Valrio prega esse passado com apenas um golpe de martelo e procura esquec-lo.
  Enfim, Caets e Angstia trabalham mais ou menos com a mesma equao: a do intelectual oriundo de uma aristocracia rural decadente que tem dificuldade em ver-se socialmente diminudo. O que muda so alguns termos dessa equao, que resulta bastante  linear no primeiro livro e muito complexa no outro.  De toda forma, deixa claro	leitura rebaixadora que prefere alinhar o romance de estria do mestre alagoano com o naturalismo decadente a entend-lo como parte integrante da obra que ele viria a construir nos seguintes: que se trata de uma grande estria.
  At para confirmar isso, vale a pena ver, rapidamente, como, no que diz respeito ao sentimento amoroso, o que acontece em Caets se assemelha ao que ser explorado nos romances seguintes. Vejamos como Paulo Honrio se apaixona por Madalena. O proprietrio da fazenda S. Bernardo s  resolve pensar em amores quando decide ser necessrio fabricar um herdeiro para suas terras. Mas nisso sua personalidade autoritria tropea diante das dificuldades que teria para dominar esse ser to desconhecido, afinal, mulher lhe parece um bicho difcil de entender. Mas  claro que isso no pode ser problema incontornvel. Passa em revista as solteiras disponveis. Lembra-se da filha do juiz, o dr. Magalhes, d. Marcela, uma mulher que ele descreve como "um pancado", um "bicho", com uma peitaria, um p de rabo, um toitio!". At planeja procurar o pai e se entender com ele. Mas tomar outro caminho. Se as mulheres por si ss j so difceis de submeter, que dir uma mulher que tem uma espcie de fora que se revela desde sua aparncia fsica. Alm do mais, era filha do juiz, uma autoridade constituda. Paulo Honrio respeita esse tipo de autoridade, que lhe pode trazer benefcios ou problemas, de tal maneira que o dr. Magalhes  o nico vizinho cujas terras ele no invade.
  Diante disso, no  isento de surpresa que ele admitir ter se interessado por Madalena, "precisamente o contrrio  do que eu andava imaginando.  claro que esse contrrio no diz respeito a beleza - e Madalena aparece pela primeira vez na histria to desejvel quanto d. Marcela, numa conversa entre o Padilha, o Gondim e o Nogueira, em que se elogiam "umas pernas e uns peitos". So bem o tamanho e a impresso de fragilidade que fazem o interesse de Paulo Honrio voltar-se para Madalena desde que a v. Tal impresso se confirma em outros planos. Afinal, Madalena  apenas uma professorinha, criada por uma velha tia que nunca teve oficio certo, prestando pequenos servios a vida toda, sempre  beira da misria.  natural que se apaixone por ela:  mais fcil domin-la. Mais tarde reconhecer seu erro: "Imaginei-a uma boneca da escola normal. Engano."
  E quem poderia afirmar que Paulo Honrio no ama Madalena, sabendo dos acontecimentos trgicos que lhe estavam reservados? Ningum. H amor ali. O que no h  o sentimento inventado pelos romnticos, da comunho etrea entre almas.  o mesmo amor que Valrio sente por Lusa.
  Ou que Lus da Silva sente por Marina. Encontrando-se em posio confortvel, com algum dinheiro no banco,  natural que o ex-vagabundo se interesse pela jovem vizinha fisicamente exuberante e pobre o suficiente para poder ser protegida por ele. Apaixona-se e depois a perde para algum que, sendo mais rico, fere-o duplamente: roubando-lhe a mulher e a posio precria de superioridade que conquistara com ela.
  Valrio, no final, descobre-se apenas um selvagem feito da mesma matria de que so feitos os ndios sobre os quais escrevia. E so todos caets: Valrio, Paulo, Lus, Fabiano. Pobres homens desejando muito e obtendo pouco  ou obtendo o que no desejam. Debatendo-se num esforo intil por uma realizao que no sabem onde est. Incapazes de lutar contra as estruturas que os oprimem e chafurdando numa briga encarniada em que derrotam apenas a si mesmos e s Lusas e Adries que cruzam seus caminhos.
  Cronologia da vida e obra de Graciliano Ramos
  1892 -  Nasce a 27 de outubro em Quebrangulo, Alagoas.
  1895 - O pai, Sebastio Ramos, compra a Fazenda Pintadinho em Buque, no serto de Pernambuco, e muda com a famlia. Com a seca, a criao no prospera e o pai acaba por abrir uma loja na vila.
  1898 - Primeiros exerccios de leitura.
  1899 - A famlia se muda para Viosa, Alagoas.
  1904 - Publica o conto Pequeno pedinte em O Dilculo, jornal do internato onde estudava.
  1905 - Muda-se para Macei e passa a estudar no colgio Quinze de Maro.
  1906 - Redige o peridico Echo Viosense, que teve apenas dois nmeros. Publica sonetos na revista carioca O Malho, sob o pseudnimo Feliciano de Olivena.
  1909 - Passa a colaborar no Jornal de Alagoas, publicando o soneto "Cptico", como Almeida Cunha. Nesse jornal, publicou diversos textos com vrios pseudnimos.
  1910-1914 - Cuida da casa comercial do pai em Palmeira dos ndios.
  1914 - Sai de Palmeira dos ndios no dia 16 de agosto, embarca no navio Itassuc para o Rio de Janeiro, no dia 27, com o amigo Joaquim Pinto da Mota Filho. Entra para o Correio da Manh, como revisor. Trabalha tambm nos jornais A Tarde e O Sculo, alm de colaborar com os jornais Paraba do Sul e O Jornal de Alagoas (cujos textos, compem a obra pstuma Linhas tortas).
  1915 -	Retorna s pressas para Palmeira dos ndios. Os irmos Otaclio, Leonor e Clodoaldo, e o sobrinho Heleno, morrem vtimas da epidemia da peste bubnica. Casa-se com Maria Augusta de Barros, com quem tem quatro filhos: Mrcio, Jnio, Mcio e Maria Augusta.			
1917 -	Assume a loja de tecidos A Sincera.			
1920 -	Morte de Maria Augusta, devido a complicaes no parto.				
1921 -	Passa a colaborar com o semanrio O ndio, sob os 	pseudnimos J. Calisto, Anastcio Anacleto e Lambda.			
1925 -	Inicia Caets, concludo em 1928, mas revisto vrias vezes, at 1930.		
1927 -	 eleito prefeito de Palmeira dos ndios. 	
1928 -	Toma posse do cargo de prefeito. Casa-se com Helosa Leite de Medeiros, com quem tem outros quatro filhos: Ricardo, Roberto, Luiza e Clara. 	
1929 -	Envia ao governador de Alagoas o relatrio de prestao de contas do municpio. O relatrio, pela sua qualidade literria, chega s mos de Augusto Schmidt, editor, que procura Graciliano para saber se ele tem outros escritos que possam ser publicados.	
1930 -	Publica artigos no Jornal de Alagoas. Renuncia ao cargo de prefeito em 10 de abril. Em maio, muda-se com a famlia para Macei, onde  nomeado diretor da Imprensa Oficial de Alagoas.				
1931 -	Demite-se do cargo de diretor.				
1932 -	Escreve os primeiros captulos de S. Bernardo.					
1933 -	Publicao de Caets. Incio de Angstia.  nomeado diretor da Instruo Pblica de Alagoas, cargo equivalente a Secretrio Estadual da Educao.		
1934 -	Publicao de S. Bernardo.				
  1936 - Em maro,  preso em Macei e levado para o Rio de Janeiro. Publicao de Angstia.
  1937 -  libertado no Rio de Janeiro. Escreve A terra dos meninos pelados, que recebe o prmio de Literatura Infantil do Ministrio da Educao. 
  1938 - Publicao de Vidas secas.
  1939 -  nomeado Inspetor Federal de Ensino Secundrio do Rio de Janeiro.
  1940 - Traduz Memrias de um negro, do norte-americano Booker Washington.
  1942 - Publicao de Brando entre o mar e o amor, romance em colaborao com Rachel de Queiroz, Jos Lins do Rego, Jorge Amado e Anbal Machado, sendo a sua parte intitulada "Mrio".
  1944 - Publicao de Histrias de Alexandre.
  1945 - Publicao de Infncia. Publicao de Dois dedos. Filia-se ao Partido Comunista Brasileiro.
  1946 - Publicao de Histrias incompletas.
  1947 - Publicao de Insnia.
  1950 - Traduz o romance A peste, de Albert Camus.
  1951 - Torna-se presidente da Associao Brasileira de Escritores.
  1952 - Viaja pela Unio Sovitica, Tchecoslovquia, Frana e Portugal.
  1953 - Morre no dia 20 de maro, no Rio de Janeiro. Publicao pstuma de Memrias do crcere.
  1954 - Publicao de Viagem.
  1962 - Publicao de Linhas tortas e Viventes das Alagoas. Vidas secas recebe o Prmio da Fundao William Faulkner como o livro representativo da literatura brasileira contempornea.
  1980 - Helosa Ramos doa o Arquivo Graciliano Ramos ao Instituto de Estudos Brasileiros da Universidade de So
  Paulo, reunindo manuscritos, documentos pessoais correspondncia, fotografias, tradues e algum livros, Publicao de Cartas. 
  1992 - Publicao de Cartas de amor a Helosa
  fim

